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» SUPLEMENTO CULTURA DE 11/06/2016
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‘Camalotes e Guavirais’ - Por que este livro agrada?

   
   José do Couto Vieira Pontes – cofundador e ex-presidente da ASL

   Não é fácil explicar por que um livro agrada. Os leitores geralmente proclamam: “gostei muito”, “que livro!”, “o estilo é notável”, “vou lê-lo de novo”. A incapacidade de que são geralmente dotadas as palavras para exprimirem o pensamento nesses instantes comparece de maneira inexorável, já que aquelas expressões, pela natural evolução da linguagem, não revelam mais nada, não conseguem prospectar conteúdo algum.
   Autores que se preocupam com o problema, tais como E. M. FORSTER, EDWIN MUIR, TZVETAN TODOROV procuraram desvendar as razões do sucesso de determinadas obras literárias, o mistério, o fermento de eternidade que as animam.
   Forster, em seu extraordinário compêndio “Aspectos do Romance”, acentua que “O Morro dos ventos Uivantes” conseguiu encantar gerações e gerações, tornando-se um clássico da literatura – justamente por que sua autora, Emily Bronte, ao tecer o enredo do livro, “dispôs as famílias Linton e Earnshaw simetricamente”. Quer dizer: não se contentou a autora com o simples favor episódico, com o factual, não se preocupou tão somente em narrar uma estória. Deu ao romance uma estrutura, uma encarnadura, numa atmosfera de caos, de tempestade, até de confusão, porque sabia a notável romancista que “o que está implícito é mais importante que o que está dito”.
   Escritores, principalmente os que recriam a vida com intensidade, como o poeta e o ficcionista, conhecem e adivinham essas coisas, por intuição ou por uma “simpatia essencial”, aquela que o crítico francês exige para a compreensão da obra de Leon Bloy. Por isso, Jorge Luiz Borges, o maior contista da América, na atualidade, celebrado e admirado em toda a Europa, uma glória das letras argentinas, afirmou de uma feita que muitas vezes não gostamos do que escrevemos, rasgamos os pré-originais, e quase sempre isso acontece com o primeiro livro. O nosso Visconde de Taunay, logo após escrever seu primoroso romance “INOCÊNCIA”, acentuou que sentia a sorte de seu livro, profetizando o destino do romance, que teria longa vida e aceitação.
   Aqui na província, longe da explosão demográfica e da saturação emocional dos aglomerados urbanos, podemos, sem dificuldade, localizar um pequeno livro, grande em sua beleza lírica, contagiante por conter em si aquele fermento a que nos referimos no início, e que se intitula “CAMALOTES E GUAVIRAIS”. Talvez seu autor, o inesquecível ULISSES SERRA, em sua modéstia, e por ter partido tão cedo, não tivesse alcançado aquele estágio de impregnante revelação, pelo qual pudesse pressentir o destino de sua obra literária. Não sei. A verdade é que sua coletânea de crônicas, para os que a leram, deixa na alma aquele frêmito de comunicação, aquele “algo mais” que se esconde atrás dos bastidores das palavras, e pelo qual se identifica não um homem que escreve bem, tão somente, mas um autor que recria o mundo, com suas realidades e irrealidades, com seus entrechoques de paixões cotidianas, que quase sempre não sabemos explicar bem, embora as sintamos com toda a intensidade.
   Basta que o leitor de “Camalotes e Guavirais” procure, em suas páginas, as crônicas “Árvores da Cidade” e “Maria Bolacha” para sentir o que acabamos de dizer até aqui. Entrará em contato com o território ulissiano, em que o lirismo se tece com fibras sutis, denunciadoras daquela face oculta das coisas, de modo a pôr a linguagem a serviço dessa revelação. Não é a toa que as árvores fazem “um revide”, ação que não é própria delas, e, em “Maria Bolacha”, o autor descobriu o “convívio das calçadas” e o “direito às ruas”, para advogar o “status” de sua biografada.
   Eis por que as crônicas de Ulisses Serra encantam!
   

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