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» SUPLEMENTO CULTURA DE 06/08/2016
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PROFESSORA GLORINHA: AMIGA E MESTRA

   
   Raquel Naveira – acadêmica, professora, poeta/cronista

   Uma das primeiras fases do saber é amar nossos professores. Imensa é minha gratidão pela professora Glorinha. Ela despertou em mim a paixão pelo universo da Literatura. Transferiu-me o que conhecia, pois, com humildade e entusiasmo, aprendia o que ensinava. Abriu-me uma porta e eu entrei, acreditando que a vida poderia ser mais bela, intensa e livre através da Poesia.
    Maria da Glória Sá Rosa, a mestra, a amiga, a incentivadora, a cronista, a militante, o dínamo da vida cultural de Mato Grosso do Sul, tinha nome de rainha. E ela o foi. Rainha das Artes e da Educação. E nós, jovens, éramos seus súditos e aprendizes.
    Aos doze anos, chegando de São Paulo, onde eu estudara no colégio Liceu Pasteur, subi as escadarias do prédio da Rua Antônio Maria Coelho, que levavam ao seu apartamento no primeiro andar e à Aliança Francesa, da qual ela era diretora, no segundo. Na Aliança, continuei meus estudos com a professora Arlete Saddi. Prestei depois os exames da Universidade de Nancy. Logo, aos quinze anos, fui convidada por Glorinha para dar aulas de francês aos iniciantes. Comecei assim, precocemente, a carreira do magistério. Ela me dizia lendo os meus poemas adolescentes anotados em cadernos: “_Você tem talento. É poeta. Vamos, leia Drummond, leia os poetas simbolistas franceses: Baudelaire, Rimbaud, Vérlaine. Siga em frente. Confio em você.” Acreditei. Pautei minha vida nesse sonho. Tive um único objetivo até aqui: não decepcionar a mestra, ao contrário, alegrá-la, cumprir seu vaticínio.
    Glorinha foi minha professora no clássico do Colégio Dom Bosco, um curso voltado para as línguas e o humanismo. E como éramos felizes cantando e interpretando as músicas de Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria Bethânia. A poesia latejava em nossas veias e a palavra, atingindo potência de beleza, consumia como fogo as nossas entranhas.
    Depois foi também minha professora de Literatura Brasileira no curso de Letras, fundado por ela, na antiga FUCMT, hoje Universidade Católica Dom Bosco. Divagávamos em suas aulas vivas, cheias de energia, lucidez, espírito histórico e crítico. Uma escola literária contrapondo-se a outra, a leitura solene e reflexiva dos textos, as listas de livros para a próxima avaliação, afinal, o mínimo que deveríamos ler do período seriam aqueles três indicados. Que procurássemos na biblioteca com o padre Félix, pois toda biblioteca é um jardim místico, uma espécie de Paraíso, como afirmara o poeta argentino Jorge Luís Borges.
    Seu apartamento cheio de livros, discos, aparelhos de som, gravuras dos museus da Europa, quadros, objetos de artesanato, almofadas de lantejoulas, era o ponto de encontro dos artistas, dos alunos que se tornavam seus melhores amigos. Lembro-me da noite em que ela me apresentou o artista plástico Humberto Espíndola e a professora de arte Aline Figueiredo. Eles trouxeram notícias de Cuiabá, da bovinocultura, o boi como símbolo pictórico da identidade do Estado: economia, sensibilidade, costumes, tudo misturado, pisado no pasto, no sangue e nas telas. Quantas descobertas.
    Quando assisti a um filme do cineasta Woody Allen chamado Meia-noite em Paris, recordei-me de Glorinha. É a história de uma viagem no tempo. Gil, um roteirista, vai com a noiva e a família dela para Paris, cidade que idolatra. Ele realiza vários passeios noturnos sozinho. Surpreendentemente, ao badalar da meia-noite, é transportado numa carruagem misteriosa para a Paris dos anos vinte, época de ouro da cultura. Vai a festas imaginárias, onde conhece escritores e pintores como Ernest Hemingway, Salvador Dali, Matisse, Picasso, Toulouse-Lautrec, Gauguin, Degas.
    Fiz muito antes essa mesma viagem à meia-noite em Paris. Quem me conduziu na carruagem entre os arcos e as pontes da cidade iluminada foi ela: a professora Glorinha, com seus óculos de aros grossos, seu cabelo cuidadosamente desfiado em mechas castanhas e laquê. Estava com uma daquelas batas de seda colorida que trouxera da Índia, envolta em perfume de aniz. Ela sorriu e me disse: “–Vamos experimentar brioches, as madeleines de Proust e tomar o caminho de Swan. Prepare seu coração, Raquel Maria, pois estamos em Paris. Veja as luzes vermelhas do Moulin Rouge.”
    Foi fundamental o seu apoio para minha entrada na Academia Sul-Mato-Grossense de Letras. Para ela, a Academia, criada nos moldes franceses, não tinha por objetivo ser um centro de egos e vaidades. Assim como Machado de Assis, pensava que “a literatura é ideal que honra, eleva e consola.” Que o livro era a possibilidade espiritual de uma conversa com mentes contemporâneas, do século passado e profetas que anteveem o futuro.
    Glorinha ultrapassou agora os pórticos de uma Academia invisível. Está conversando com Drummond, decifrando com ele claros enigmas; passeando com Bandeira por Pasárgada, onde ambos são amigos do rei; navegando com Pessoa por mares portugueses; observando o azul elétrico das ondas do mar com Cecília Meireles; palmilhando veredas do sertão com Guimarães Rosa. E, claro, tomando tereré com Manoel de Barros, enquanto admiram mais um pôr do sol estonteante como os de nossa terra pantaneira.
    Nos anos que passei no Rio de Janeiro e em São Paulo, contava para a professora Glorinha cada um dos meus passos: os escritores que conhecera pessoalmente; os poemas que estava concebendo; as emoções diante de um filme, uma peça teatral ou uma exposição. Ela exaltava minha coragem de aventureira, dizia sentir saudades e finalizava em francês: “_ Je t’ embrasse.” E eu, eterna discípula, fruto de seu modelo inspirador, sentia-me beijada e abraçada, ungida por uma bênção que era puro mel.
   

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