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» SUPLEMENTO CULTURA DE 20/08/2016
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A primeira homenagem póstuma a Carlos Drummond de Andrade

   José Pedro Frazão - Escritor, jornalista, poeta/compositor

   A principal notícia do Jornal da Globo na noite de 17 de agosto de 1987, segunda-feira (há 29 anos), entristeceu o país e a literatura brasileira. Com voz embargada o telejornalista Cid Moreira anunciou que naquele instante, às 20h45, acabava de falecer de infarto, numa clínica em Botafogo, no Rio de Janeiro, aos 84 anos, o poeta Carlos Drummond de Andrade. Após encerrar a edição do jornal com o seu trovejador boa noite, o jornalista não se conteve e consumou sua angústia ao balbuciar, quase inaudivelmente, o principal verso do poema "José", de CDA: "E agora, José?"
    Nascido em Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais, em 31 de outubro de 1902, Carlos Drummond, que 12 dias antes de sua morte perdera a sua única filha, Maria Julieta (com câncer), partia triste, deixando profunda lacuna na poesia do Brasil e do mundo. Agnóstico e introvertido, o autor de mais de trinta livros e do polêmico poema "No meio do caminho", convivia com problemas cardíacos e ficara mais abatido com a morte da filha, o que pode ter sido uma pedra a mais no meio do caminho de sua grande dor.
    No dia seguinte à sua morte e nas semanas que se sucederam, a grande imprensa nacional e também mundial dedicaram edições especiais em homenagem a ele. Mas foi logo ao final da notícia televisiva, naquele fatídico 17 de agosto, que surgiu, talvez, a primeira ideia de se homenagear o poeta, antes até mesmo do seu sepultamento (dado no dia seguinte). Ocorre que estava para ser inaugurada na Vila Maior, em Anastácio, uma grande e moderna escola estadual, obra reivindicada pela administração do então poeta e prefeito Cláudio Valério, governo do qual eu era Secretário de Educação e Cultura e buscávamos um nome ideal para o novo educandário.
    Na ocasião da morte do ícone do movimento modernista mineiro, o outro poeta, Cláudio Valério, já havia deixado a prefeitura nas mãos do vice-prefeito Waldomiro Nogueira e exercia o seu primeiro ano de mandato como deputado estadual constituinte, e eu acabara de deixar a secretaria de educação para me tornar seu assessor político. Nesse período, eu e Cláudio, juntamente com o delegado regional de ensino sediado em Aquidauana, professor Luiz Carlos Batista, fazíamos o acompanhamento da obra e também da tramitação do processo de criação da escola que havíamos conseguido para a Vila Maior, através de intenso e prestigiado pleito junto ao ex-governador Wilson Barbosa Martins (ainda em 1985, antes que esse fosse sucedido por Ramez Tebet para se tornar senador) e com a força amiga e decisiva do então Secretário de Estado de Educação, Dr. Leonardo Nunes da Cunha.
    Dia 10 de dezembro de 1987, quando saiu o decreto de criação, assinado pelo governador Marcelo Miranda (que encontrou a escola pronta), o nome de Drummond já estava ali consumado. A coincidente homenagem se dera porque ao final da fúnebre notícia do poeta maior, liguei ao deputado Valério perguntando se não ficaria chato (mas oportuno) colocarmos o nome do Drummond na escola a ser inaugurada. E ele respondeu: "Meu caro Frazão, eu estava pensando exatamente nisso. Eu já ia te ligar. Conversa amanhã cedo (18/08/1987) com o Luiz Carlos, coloca essa nossa sugestão e faz a coisa andar logo". O delegado de ensino, com a maior cordialidade e compreensão, nem questionou e cuidou de atender ao pedido de seus dois ex-alunos de faculdade (o secretário de educação de Anastácio e o deputado ex-prefeito).
    Esse episódio honorífico, porém, teve ligeiro e desagradável desdobramento político no município, do qual não vale a pena relatar maiores detalhes. No entanto, convém lembrar a dura e inusitada crítica de um vereador que me questionou sobre a homenagem: "O que esse tal Drummond fez para Anastácio pra merecer ter nome numa escola?". Nem a minha justificativa aludindo que se tratava do maior e mais influente poeta brasileiro, somado ao fato de Drummond ter sido, ainda, professor, jornalista e defensor da classe estudantil e do magistério quando exerceu a chefia de gabinete do Ministro da Educação Gustavo Capanema, nem isso serviu para a conformação do equivocado edil. A sorte foi que o deputado concordou e o representante do governo aceitou a denominação e assim se fez, em Anastácio, portal do pantanal sul-mato-grossense, a primeira homenagem póstuma ao maior poeta brasileiro, honraria esta precursora de outras centenas que o poeta tem recebido.
    Se há nisso alguma importância histórica ou valor pelo recorde cronológico, pode não ser tão relevante. Todavia, é certo que hoje essa renomada escola anastaciana se orgulha de ostentar o nome de Carlos Drummond de Andrade, e seus alunos têm honrado esse título produzindo belas antologias poéticas, inspirados no saudoso poeta maior.
   

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