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» SUPLEMENTO CULTURA DE 12/11/2016
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Mulher Pantaneira

   
   Augusto César Proença

   Se há alguém que mereça destaque nestas paragens, esse alguém é, sem dúvida, a mulher pantaneira.
   Pensar nessa companheira que participou da fundação das primeiras fazendas, seguindo o marido pelos caminhos isolados do Pantanal, é se encher de admiração e de profunda emoção. Doses de resignação, paciência e coragem foram necessárias para que a mulher vencesse todas as dificuldades da época.
   Viagens longas e cansativas em carro-de-bois, batelões e canoas; o terrível isolamento a que se sujeitou numa região distante dos centros civilizados; a precariedade de comunicação; a falta de recursos médicos; a saudade que batia dos filhos que cresciam e iam estudar nas escolas da cidade; tudo isso foi moldando na mulher pantaneira certas regras de viver, apenas compreensíveis pelo amor ao companheiro, a fé em Deus e o enorme afeto pela região que a fez soberana e a consagrou heroína.
   A mulher inspirou a coragem, proporcionou o estímulo, deu a continuidade ao processo de desbravamento e desenvolvimento econômico e social do Pantanal, unindo a família, transmitindo a esperança de dias melhores.
   Quantas e quantas estórias nos são contadas ao pé do fogo, enaltecendo a lembrança dessas personagens que fizeram a história da terra pantaneira. Figuras que se mesclavam num mesmo destino e trilhavam os mesmos caminhos, fossem patroas ou empregadas, iguais até no sacrifício, até no choro por um filho que morria mordido de cobra ou acometido por alguma febre delirante, cujo tratamento era impossível naquelas lonjuras e a medicina cabocla não dava jeito. Como esquecer do mal que atacava o juízo de muitas delas?... dos tremores das comadres?... das noites povoadas de incertezas, noites tempestuosas, de raios e trovões, de momentos de solidão à espera de maridos que demoravam naqueles campos embrutecidos?... Como esquecer das jaracuçus que, de repente, sinistramente, entravam pelas frestas dos carandás e atravessavam os quartos, onde elas se encontravam, amamentando um filho?...
   Gerações e gerações de mulheres inesquecíveis desfilaram pela história e simbolizam, até hoje, a resistência e a tenacidade. Mais do que aprendizagem, a vida dessas mulheres foi um motocontínuo de experiências e conhecimentos adquiridos de uma região ainda praticamente desconhecida para elas, mas que, a todo custo, tentavam conquistá-la com perseverança e paciência. Era um desafio à luta que enfrentavam, sem submissão, apenas alimentando o sentimento de autoproteção contra a agressividade da natureza que as cercava, contra o inimigo que viesse ameaçar a sobrevivência da família.
   Entretanto, havia momentos de lazer e descontração; afinal, ali estava o horizonte amplo a convidá-las ao sonho, aliviando-lhes o imaginário, abrindo-lhes as manhãs com aquela musicalidade pantaneira; as aranquãs, as araras, os pássaros que desfilavam no infinito do céu. Das mãos da mulher pantaneira vieram as jacubas, os caribéus, as paçocas, os furrundus, o tilintar da colherzinha de prata temperando o pó do guaraná – o melhor da nossa cultura.
   E o que falar das festas de São Sebastião, São Pedro, Santa Rita, nas quais a mulher, ao som de um rasqueado e sob a luz bruxuleante das lamparinas, transformava-se numa formosa dama: o vestido de chita bem estampado, o lencinho vermelho, perfumado com perfume comprado nas carretas dos mascates. O que falar das bugrinhas, das saias rodadas, dos cabelos lisos, dos olhos acesos acendendo paixões no calor dos ranchos?
   Para as nhecolandeses, rio-negranas, morceganas, paiaguaenses, poconeanas, cacerenses e demais pantaneiras que nos legaram gestos expressivos, que embalaram o nosso sono e os nossos sonhos, que nos fizeram nascer com as suas mãos divinas de parteiras e souberam compreender a rusticidade da vida pantaneira, todos os maus momentos, todas as desilusões e desânimos que tantas vezes foram obrigadas a vencer, aqui, neste modesto trabalho de recomposição de memória, registramos a mais profunda gratidão e o mais eterno reconhecimento.
   

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