MATO GROSSO DO SUL, terça-feira, 21 de maio de 2019 - BOA MADRUGADA!   
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» SUPLEMENTO CULTURA DE 13/04/2019
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AFAGOS DA MEMÓRIA: DESLUMBRANTE IPÊ AMARELO

   
    Reginaldo Alves de Araújo ─ escritor/poeta, professor, ex-presidente da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras

   Findava-se o mês de agosto de 2009. O intenso movimento de flores e árvores ornamentais ao encanto do desabrochar sinalizava a tão esperada estação multicolorida da primavera. Exatamente nessa fase recebi um convite irrecusável do saudoso Dr. Wilson Barbosa Martins, dileto amigo, ex-governador do Estado e autor do livro “MEMÓRIA – JANELA DA HISTÓRIA”:
    - Quer passar um dia diferente na minha fazenda? Estou indo sábado, às sete da manhã, que tal?
    - Aceito com prazer - respondi com uma alegria imensurável. Ele, exalando ligeira satisfação, esboçou um leve sorriso.
    A manhã daquele sábado mostrava-se de uma claridade espantosa onde, divinamente, o sol esbanjava fulgor inimitável. Juntos, no seu carro, rumamos para a fazenda São João, no município de Rochedo, distante 110 quilômetros de Campo Grande.
    Quando deixamos o asfalto e mergulhamos no estradão de terra batida vislumbramos, entre descidas e subidas, vales lindíssimos osculados por verdolengas árvores, campos floridos, regatos, fazendo-nos regozijar com as cores, cheiros, sons e toques da indelével natureza.
    Chegamos. Descemos do carro defronte ao casarão da fazenda. Passei o olhar em derredor. Tudo era belo. O azul do céu, o verde da terra, o brilho do sol na correnteza que abastecia a rota d’água que tinha como finalidade distribuir o líquido precioso para as invernadas, o cheiro do leite, das frutas, do mel, da relva, das flores e o mero toque da brisa matinal inebriavam-me de satisfação.
    Saudado efusivamente pelo capataz, peões e amigos, o Dr. Wilson recebeu, em detalhes, as informações pertinentes ao andamento das tarefas dos trabalhadores contratados pela fazenda. De sorriso aberto manifestou, polidamente, sua aprovação. Ingerimos alguns goles de café. Delicadamente pousou sua mão direita em meu ombro.
    - Vamos ao curral, os veterinários já estão iniciando a castração de cavalos...
    Rumamos para lá. Os cavalos, ainda jovens, eram laçados em pleno carreirão por talentosos peões laçadores, conduzidos para o roliço mourão no centro do curral, arrojados ao solo, tendo as patas imobilizadas e, então, dava-se a extração dos testículos. Posicionamo-nos, vendo tudo, a uma distância de 10 metros.
    Momento inesperado foi quando um fogoso e inquieto cavalo desvencilhou-se das mãos dos veterinários e, numa velocidade alucinante, veio para o nosso lado. Assombrado, pulei para trás do meu amigo tomando-o como escudo. Ele, sereno e afeito àquela lida, ergueu os longos braços, berrou uma palavra que não entendi, fazendo com que o animal tomasse outra direção. Sem graça postei-me ao seu lado. Sua ética não permitiu qualquer comentário, porém, seu silencioso sorriso dizia: que cara medroso! Eu imaginei.
    - Estes animais, após a castração, são dóceis, tranquilos, próprios para prestarem bons serviços a nossa fazenda - disse ele, sóbrio, levando-me para o largo pátio do casarão.
    - Agora vou lhe apresentar um amigo de 54 anos... - Apontou para o fundo do pátio - Plantei-o com minhas próprias mãos, em agosto de 1955. Ganhei de Antonio Albuquerque, diretor do Horto Florestal de Campo Grande.
    Aproximei-me o quanto pude do belíssimo pé de ipê que projetava no solo um sombreado espetacular, no viço da floração com suas folhas digitadas e flores grandes, com coroas de um amarelo esplendoroso. Indiscutivelmente o mais lindo de todos os ipês que meus olhos viram.
    Já no almoço, de comida farta e saborosa, fui surpreendido com uma rede em meu colo entregue pelo Dr. Wilson. Armamos nossas redes uma ao lado da outra. Caímos numa gostosa soneca. Acordei, meu amigo de 93 anos roncava. Levantei sem ruído, de mansinho rumei para o pé de ipê. A beleza é a forma que o amor dá às coisas. Ali estava uma paisagem doce de olhar. No céu há de ter, no mínimo, um pé de ipê amarelo. Árvore que botou prazer no meu corpo, abriu um sorriso na minha alma, me benzeu, por dentro e por fora, numa carícia longa. Ali a ternura unia-se à quietude onde a luz do sol, entre ramos e flores, misturava-se com os cantos dos pássaros. Uma lição de amor.
    Não abraço o animismo de Edward Tylor, que injeta a teoria da existência de uma alma na natureza, entretanto, diante de um pé de ipê belo e singular, sentia ligeiro frêmito de puro prazer; de pé, imóvel e silencioso, num ato contemplativo, tinha a impressão que ele era consciente de minha presença e me observava reconhecendo a devoção que lhe dedicava. É como se eu tivesse certeza que suas flores gozam o ar que respiram.
    Dia magnífico aquele. Na despedida, tomando acento no carro, sorri para o florido Ipê exclamando em pensamento: Que bom te sentir nos olhos e no coração. Bendito sejas...
   

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