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NOTÍCIA
(23/07/2013  16:00)
 Feliz, Manoel de Barros exibe Colar Acadêmico ASL

MANOEL DE BARROS EMPOSSADO ACADÊMICO DA ASL

    Aconteceu recentemente a celebração da posse oficial de Manoel de Barros como Acadêmico da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras - condição conferida por decisão/votação unânime da entidade. Em assembleia geral do sodalício, na tarde de 23/07, Manoel de Barros assumiu a titularidade da Cadeira nº 1 da ASL.
    Na ocasião da posse, o ilustre poeta recebeu – da Diretoria da Academia – o Diploma e o tradicional Colar Acadêmico da ASL. Conforme pauta do especial evento, os acadêmicos Abílio de Barros, Henrique de Medeiros, Rubenio Marcelo e Reginaldo Alves de Araújo usaram a palavra enfatizando a representatividade da cerimônia. Os poetas/acadêmicos Henrique de Medeiros e Rubenio Marcelo saudaram em rápidas palavras o novo acadêmico, destacando as qualidades já por demais conhecidas do homenageado e a relevância do ato para a Academia e para a literatura estadual. O presidente da ASL, Reginaldo Alves de Araújo, efetivou o feito, diplomando e também saudando Manoel de Barros, que, visivelmente feliz, agradeceu a todos pela Cadeira que passa a ocupar. Também se pronunciaram na ocasião, de forma concisa, os acadêmicos Geraldo Ramon Pereira e Maria da Glória Sá Rosa.
    Preparando-se para as comemorações de 42 anos de fundação, a Academia Sul-Mato-Grossense de Letras – contemplando Manoel de Barros como Acadêmico do seu quadro – recebe assim, com justiça, um dos mais aclamados poetas brasileiros contemporâneos, que inclusive foi premiado recentemente pela ABL (Prêmios Literários 2012) na categoria poesias.
    Nascido em Cuiabá/MT (em 19 de dezembro de 1916), autor de inúmeras obras poéticas e detentor de importantes premiações culturais (dentre as quais, dois Prêmios Jabutis: 1989 e 2002) e incontáveis homenagens, Manoel de Barros começou a publicar seus livros de poemas em 1937 (livro "Poemas Concebidos Sem Pecado"). Sua obra tem sido objeto de teses, ensaios, filmes, peças de teatro e vídeos. Falando sobre o poeta, a escritora e acadêmica Maria da Glória Sá Rosa disse que “definições de poesia existem inúmeras. Nenhuma tão apropriada, tão definitiva como ‘poesia é voar fora da asa’, com que Manoel de Barros nos brinda em ‘O Livro das ignorãças’, publicado em 1993. Até hoje não me lembro de alguém que tenha condensado de forma tão perfeita o mistério, o encantamento, as ilimitadas possibilidades do fazer poético em frase tão reduzida. Principalmente a liberdade de criar e tornar infinitas as coisas mais insignificantes e perecíveis”.
   

release: ASL - (foto: ® Zé Enrique Guimarães)

   
   MUNDO PEQUENO

   (Manoel de Barros)
   do livro "O Livro das Ignorãças" - ed. Civilização Brasileira.

   O mundo meu é pequeno, Senhor.
   Tem um rio e um pouco de árvores.
   Nossa casa foi feita de costas para o rio.
   Formigas recortam roseiras da avó.
   Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
   maravilhosas.
   Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
   com aves.
   Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
   besouros pensam que estão no incêndio.
   Quando o rio está começando um peixe,
   Ele me coisa
   Ele me rã
   Ele me árvore.
   De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
   os ocasos.

   Conheço de palma os dementes de rio.
   Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzama
   e de Rogaciano.
   Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar
   no horizonte.
   Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas
   de Corumbá.
   Me disse que as coisas que não existem são mais
   bonitas.

   Caçador, nos barrancos, de rãs entardecidas,
   Sombra-Boa entardece. Caminha sobre estratos
   de um mar extinto. Caminha sobre as conchas
   dos caracóis da terra. Certa vez encontrou uma
   voz sem boca. Era uma voz pequena e azul. Não
   tinha boca mesmo. "Sonora voz de uma concha",
   ele disse. Sombra-Boa ainda ouve nestes lugares
   conversamentos de gaivotas. E passam navios
   caranguejeiros por ele, carregados de lodo.
   Sombra-Boa tem hora que entra em pura
   decomposição lírica: "Aromas de tomilhos dementam
   cigarras". Conversava em Guató, em Português, e em
   Pássaro.
   Me disse em Iíngua-pássaro: "Anhumas premunem
   mulheres grávidas, 3 dias antes do inturgescer".
   Sombra-Boa ainda fala de suas descobertas:
   "Borboletas de franjas amarelas são fascinadas
   por dejectos". Foi sempre um ente abençoado a
   garças. Nascera engrandecido de nadezas.

   Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
   leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.
   Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
   Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
   - Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
   Ele fez um limpamento em meus receios.
   O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
   pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas...
   E se riu.
   Você não é de bugre? - ele continuou.
   Que sim, eu respondi.
   Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas -
   Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
   Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
   Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
   gramática.

   Toda vez que encontro uma parede
   ela me entrega às suas lesmas.
   Não sei se isso é uma repetição de mim ou das lesmas.
   Não sei se isso é uma repetição das paredes ou de mim.
   Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
   Parece que lesma só é uma divulgação de mim.
   Penso que dentro de minha casca
   não tem um bicho:
   Tem um silêncio feroz.
   Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra.

 
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