MATO GROSSO DO SUL, domingo, 23 de setembro de 2018 - BOM DIA!   
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» ARTIGO

(30/06/2004)


TEXTOS DO ACADÊMICO LEAL DE QUEIROZ

   
   

Coronel Gustavo: Um Chefe

   
    Os Coronéis, sempre exerceram papel de relevo na política provinciana brasileira. Sobretudo no nordeste. Mas, em Mato Grosso não fugimos a regra. Em Aquidauana, destacaram-se as figuras impolutas do Coronel Ovídio (Ovídio Costa) e Coronel Zelito (José Alves Ribeiro) ambos vivos, que nas renhidas pugnas eleitorais se degladiaram bravamente com o ardor partidário, carregando cada qual nas suas paixões uma legião incontida de correligionários. Quem não admira o comando de um Coronel João Ferreira, em Coxim, e quem não e orgulhara da liderança de um Major Carlos Hugueney, em Alto Araguaia?...
    Dentre os Coronéis que pontificaram e (ainda pontificam !) Nos embates políticos de Mato Grosso, eu nomeio com especial destaque o Coronel Gustavo (Gustavo Rodrigues da Silva) de Paranaíba, não por ter sido o guia do meu primeiros passos na vida pública, mas porque, realmente, é um nome que merece ser registrado no anais da história política mato-grossense.
    Por volta de 1897, o capitão Manoel Rodrigues da Silva Almeida (avô de epigrafado) mudou-se de Minas Gerais para Mato Grosso fixando residência na Fazenda “Campo Alegre” no hoje município de Aparecida do Taboado. Em 1899, morre o Capitão ficando, porém sua família radicada em Paranaíba.
    Por volta de 1901, Heliodoro Rodrigues da Silva (pai do nosso Coronel Gustavo). Intensificou suas vindas a Mato Grosso, comprando grandes partidas de gado e fazendo–se amigo dos mais abastados fazendeiros e políticos proeminentes da época: José Francisco da Silveira, Urias de Queiroz , Francisco da Silveira Queiroz, Mizael Garcia Moreira, Silvério Alves Dias.
    Por volta de 1918, o Coronel Gustavo passa a militar na política de Paranaíba, por insistência de seus tios Leozório Rodrigues de Almeida (Zorico) e Ottoni Rodrigues de Almeida, este ainda vivo, e dos irmãos Urias Queiroz e Major Chiquinho (Francisco da Silveira Queiroz , meu avô paterno).
    Até 1917, era chefe político o Coronel João Pereira Dias, quando vem a falecer deixando acéfala a liderança local da sua facção. Em meado de 1918, o coronel Gustavo, a caminho de Barretos, no Estado de São Paulo, levando uma boiada, ao pernoitar na Fazenda Areré, foi alcançado por Antônio Ferreira Leal (Tonho Leal, meu avô materno e ainda vivo), como portador de uma carta firmada pelos mais expressivos lideres da sua grei, na qual lhe entregavam as rédeas políticas do grupo, na região.
    Gustavo Rodrigues da Silva tomou parte ativa na Revolução de 1932. Sua participação teve a seguinte origem: o Delegado de Polícia de Paranaíba, Oficial da Força Pública e comandante do Destacamento Policial, passou a hostilizar o Coronel Gustavo, adversário político do então interventor, o qual e dirigiu a Campo Grande para pedir a interferência de Vespasiano Barbosa Martins, para substituir o referido Delegado, não logrando êxito, aliás. Procurou, em seguida, contato com o Dr. Oliveira Melo que, junto ao Exército, conseguiu a derrubada imediata do Delegado arbitrário. Retornando a Paranaíba, ao desembarcar em Três Lagoas, recebia do então Comandante da 9ª. Região Militar, General Bertoldo Klinger, telegrama solicitando-lhe que chegasse urgente a Paranaíba e armasse a sua gente para participar do movimento que eclodia. De Três Lagoas mesmo, seguiu para Izidoro e São Pedro, onde vai encontrar-se com Manoel Garcia Leal e Antônio Ferreira Leal, tendo o primeiro saído a campo recrutando voluntários e o segundo seguindo para Paranaíba com o coronel Gustavo, onde, chegando, comunicou-se com seus amigos em Aparecida do Taboado e no espaço de dez dias, cerca de quatrocentos homens já estavam em armas. Poucos dias após, chega, também a Paranaíba, o Major Dutra, que comandaria aquela plêiade de voluntários, travando-se renhidos combates no Areré e, posteriormente, no Quitéria com algumas baixas.
    O Coronel Gustavo ao decidir aderir ao movimento revolucionário fazeria uma séria opção: ou ficar omisso, vendo sofrer seus amigos nas mãos de seus a adversários políticos locais, chefiados por Noginel Pegado, Mário Mancini e outros, que eram correligionários do Interventor Cel. Antônio Mena Gonçalves, além das ameaças do avanço da forças do Carvalhinho, que se achava em Jataí, Estado de Goiás, ou aderir, como o fez, à Revolução.
    O Coronel Gustavo, foi, um apaixonado da pecuária, em cujas atividades consagrou toda a sua vida. Correu sua fama de perito contador de gado, aliás um dom raro, pois, contar uma boiada quando passa embolada na porteira não é tarefa para qualquer um. Na política, tem sido um chefe autêntico pois, há cerca de cinqüenta anos, é o comandante indiscutível da sua grei na região de Paranaíba. Hoje, é o presidente da Arena municipal da terra de “Inocência”. O próprio Governador Pedro Pedrossian quando aporto à legendária Paranaíba, se apressa a apresentar suas homenagens, em primeiro lugar, à veneranda figura do Coronel Gustavo.
    Daí porque nenhum político militante na região da velha Sant´Anna do Paranayba tem receio de aplaudir esta legenda Coronel Gustavo, um chefe...
   
   
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Advogado João Villasboas:

    Inscrição n° 1

    Na eleições gerais de 03 de outubro de 1950, tive a oportunidade de concorrer a uma vaga na Assembléia Legislativa de Mato Grosso, pelo Partido Social Democrático – PSD. Mesmo com a inexperiência dos meu vinte e três anos de idade, cursando ainda o 4° ano de Direito, mercê do respaldo do meu grupo político, logrei uma expressiva votação e assim, mergulhei na vida pública do meu Estado, que teve nos meus ancestrais grande contribuição para a sua afirmação, através os Garcias principalmente.
    Partido político, naquela época era coisa séria. Correligionário era respeitado, prestigiado e assumia a sua bandeira partidária. Num palanque, quando o político bradava a saudação “Correligionários!!!” era como estivesse dizendo “Excelências!!!”... tamanho o respeito. Mas, também, havia reciprocidade, havia compromisso. E um dos compromissos tácitos de honra era não se misturar muito com o adversário. Principalmente, se esse adversário fosse da UDN, a União Democrática Nacional do Brigadeiro Eduardo Gomes, duas vezes batido para a Presidência da República. Duas vezes sim, não é coisa minha de ex-pessedetista.
    Mas, a coisa era tão levada a sério, que em Paranaíba, por exemplo, que foi a base eleitoral da minha primeira eleição, lá havia dois clubes sociais: o da UDN e o do PSD. Certo dia no auge de mais uma refrega, nós pessedistas, fomos surpreendidos com uma notícia arrasadora: o Salomão, dono do prédio onde funcionava nosso clube, estava de negócio fechado com uma pessoa que iria dar outro destino ao imóvel. Para nós, perante os udenistas, era uma derrota inaceitável!. Imediatamente, procuramos um correligionário que nos poderia salvar. O Olegário Rodrigues. Rico, rico mesmo para o padrões da época, irmão do insubstituível chefe de PSD. Coronel Gustavo, ciente por nós da desastrosa transação, Olegário armou desde já um sorriso de vitória e nos tranqüilizou: - Eu vou ver isso ... À tarde, o prédio era seu e dali em diante nem aluguel pagávamos.
    Outra. Para se identificar a origem política do defunto, era o bastante reconhecer no acompanhamento rumo ao cemitério as pessoas que se propunham ao ato póstumo. Com certeza, poder-se-ia dizer: morreu alguém do PSD. Ou da UDN.
    Eu me lembro do casamento do João Pinto.
    João Pinto era um pessedista de quatro costados, rapaz simples, trabalhador, muito estimado na cidade. Não porque ele era meu correligionário: era bom mesmo. Se ele fosse da UDN eu não iria dizer isso de público, naquele tempo, mas por dentro eu pensaria assim. Pois bem. João Pinto se enamora e fica noivo de uma udenista da gema. Na véspera do casamento, ele chega para a sua eleita, fecha a carranca e diz: - Quem vai mesmo ser o seu padrinho?
    Claro que João já estava sabendo
    -Vai ser o Doutor Walter, disse timidamente a noivinha.
    O Doutor Walter Faustino Dias, o padrinho, era filho do prestigioso chefe da UDN, Major Chico Faustino e o Doutor Walter, a grande estrela dos nossos adversários udenistas.
    O leitor está percebendo. O meu chefe era Coronel e o chefe da UDN, Só Major!
    Bem, disse João Pinto, o meu padrinho vai ser o Edu Neves (pai do atual Procurador Geral do Estado. Doutor Ovídio Pereira) e você trate de arrumar outro do PSD, é claro) ou não tem casamento.
    Essas considerações foram registradas para que eu pudesse dizer da grande admiração que sempre cultivei pelo Doutor João Villasboas.
    Eleito deputado Estadual, lá fui eu para Cuiabá. Passei então, a conhecer de perto toda a fauna da política do nosso Estado. Correligionários e adversários. Ambos, com letra maiúscula. Ai, é que nasceu o meu desconforto, em muitas ocasiões por não poder me aproximar de figuras de primeira cepa, só porque pertenciam, ao principal partido rival, como José Fragelli, Demóstenes Martins, Fernando Corrêa, Garcia Netto e tanto outros expoentes da constelação adversária da época. Ao contrário sempre que pudesse, a obrigação era malhar...
    No meio desta constelação fulgurava com a inexcedível brilho João Villasboas, que era um verdadeiro mito, pela sua inteligência incomparável, cultura, astúcia, formação profissional e até pela sua postura. Imagine que ele usava pince-nez ! Era uma figura...
    Recordo-me que, certa vez quando veio a Cuiabá e a sua chegada era sempre motivo de festa e grande agitação política, fui ao aeroporto só para ver de perto a imagem imponente do velho Senador e ouvir, discretamente as notícias do Rio de Janeiro, aquela época tão distante de Cuiabá... Que transmitiria aos seus fervorosos seguidores, ali para recepciona-lo.
    Sobre o Villas, como nós o chamamos nos papos, corria uma centena de estórias, que recheavam o nosso folclore político, muitas da pura imaginação dos pesseditas (as de gozação) e muitas dos seus correligionários udenistas (as de exaltação).
    Por exemplo, o seu nome completo era João Escolástico Villasboas, nascido em Cáceres, Mato Grosso a 21 de Abril de 1890 e falecido em 1985. Mas, detestava o Escolástico. Diz-se que quando recebia uma correspondência com algum pedido endereçado com seu nome completo, essa jamais teria resposta, ia certinha para o lixo, sem ser lida ...
    Outra coisa que Villas detestava: dizer que ele estava velho e chamá-lo de velhaco era convidar pra briga, vaidoso, namorador, tinha por hábito, no Rio de Janeiro freqüentar a porta da confeitaria Colombo, para apreciar o desfile das beldades rumo as compras... Pois bem, eu era o diretor do Social Democrata órgão Oficial do PSD em Cuiabá, onde nada se publicava sem o “aprovo” do conselho editorial, formado pelo Doutor M. C. Oliveira Mello, professor Izac Póvoas e Rachid Mamed, na verdade, eu, inexperiente, como diretor apenas emprestava o nome. Coisa de Cuiabano: Escreviam as mazelas, publicava o que queriam e o diretor era o Leal. Bem, aproximava-se a campanha de 1954 e Villasboas, que havia tirado o meu chefe Felinto Muller do Senado, depois de curtir no Palácio Monroe 45 dias de mandato, através de um recurso eleitoral que contestava a apuração da seção eleitoral conhecida por “Tamarineiro”, apresentava-se como candidato à reeleição. A ordem, no social era malhar o Villas. Os artigos de fundo vinham do Rio, na maioria das vezes. Diziam que Benjamin Duarte, que não tolerava o Villas, escrevia, remetia ao Felinto que, em seguida, nos mandava para publicação, mantendo-se assim o autor no anonimato. Era véspera do aniversário da fera. O social registraria com destaque a efeméride, em artigo muito bem lançado, escrito as margens da Lagoa Rodrigo de Freitas. Reunido o Conselho Editorial, o nosso venerando Professor Isac com sua maneira travada de ler cumpriu o ritual. Fez-se silêncio. Ninguém dizia nada, porque a paulera era braba. Quebrando o jejum, o Doutor Mello, com seu conhecido tique de bater os lábios antes de dizer qualquer coisa mais responsável, olhou pro Professor Isac e...
    Está muito bom, mas, escreva ai, trocando o título:
    Os velhacos também envelhecem!
    Só o título valeu pelo artigo inteiro.
    Existem muitas outras estórias, envolvendo a carreira do esperto político cuiabano, tão esperto que lhe valeu o epíteto de Raposa. Numa das campanhas eleitorais, recordo-me, o PSD distribuiu fartamente pelo Estado inteiro o desenho de uma enorme raposa, com um rabo descomunal e a cabeça do Villasboas ostentando o eu inseparável pince-nez.
    João Villasboas, que portava com orgulho a sua carteira de Advogado com a inscrição n° 01, OAB-MT, teve uma vida longa, fecunda, bem usufruída, pontificando em todos os setores do universo político e profissional, ganhando notoriedade no Pais inteiro com a fama de profundo conhecedor do Direito Eleitoral, valendo-lhe patrocinar as mais importantes causas da sua época junto ao Tribunal Superior Eleitoral. E mais, o primeiro tratado de Direito Marítimo escrito em língua portuguesa é de autoria do insigne mato-grossense, que também era poeta sensível, orador fluente e impecável, membro da Academia Mato-Grossense de Letras.
    Vale dizer, João Villasboas deixou um raio de luz por todo os caminhos que percorreu com seu prodigioso talento.
   

   

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POLÍTICA: arte, manha ou artimanha?

    Já entramos no clima deste ano eleitoral. Os arranjos, as emboscadas, os vai-e-vêm, os faz-de-contas agitam as manipulações, onde só sobrevive quem de fato é do ramo.
    São muitos os pensadores, de ontem e de hoje, que discorreram sobre esse tema que encanta e anima, consciente ou inconscientemente, o ser humano: a política. Mesmo os que povoaram a era da pedra cultivavam os seus lideres, ou melhor dizendo, nenhum agrupamento de racionais ou irracionais existiu e existe em um seu semelhante-referência. A sobrevivência desse semelhante-referência está atrelada à sua capacidade de conduzir, dirigir, liderar, criando-se a figura do chefe.
    Com, a evolução, no tempo, a política foi moldando a sua identidade até chegar àquela que conhecemos nos nossos dias: com PCs, CPIs, URV, PACTO, etc. Claro que existem coisas sérias, também Homens (com H) sérios, projetos sérios, patriotismo. Enfim, política exercida na acepção da palavra. Com isso, incontáveis fatos pitorescos tem sido acumulados, até com tiradas geniais, suficientes para notar uma volumosa enciclopédia. Conheço muitos, contados por pessoas que colecionam preciosas pérolas ou porque os vivi, participando, embora, muito amador, dessa engenhosa atividade.
    Por exemplo – No município de Paranaíba, o distrito de São Pedro contava com os caciques mais influentes da fauna política da região. Eram o Cel. Januário Garcia Leal (meu bisavô), Olímpio Azambuja, Tonico Dias e outros tantos. Eleição, ali, era uma verdadeira guerra, embora travada civilizadamente. Muitos desses inimigos eram até compadres. Pois bem. Em uma dessas refregas, a oposição, para não ser escamoteada mais uma vez, decidiu contratar um advogado para assessorá-la. A escolha recaiu nada mais nada menos do que no conhecido causídico de Três Lagoas, Dr. Rosário Congro. Os adversário não deixaram por menos. Constituíram outro três-lagoense do mesmo gabarito, Dr. Sabino Costa.
    Dia do pleito. Rosário aporta à vila, recebido com foguetes, envergando terno branco e gravata, sapatos duas cores, mau-humorado com os solavancos da viagem no pé-de-bode. Os seus clientes tudo fizeram para amenizar as queixas do eminente patrono, é claro. Não, demora e aponta na curva do ribeirão São Pedro o “fordinho” trazendo Dr. Sabino. Matreiro, com o inseparável cigarro de palha, botinas como se usava na terra, dentes sujos de nicotina, esbanjando a fleuma que era sua marca. O nosso desembargador Rui Garcia ao se bacharelar, iniciou a bem sucedida carreira no escritório do Dr. Sabino.
    Com a presença de tão ilustres figuras, a votação correu sem incidentes, naturalmente. Lavratura da ata. Cabia, agora, aos doutos causídicos o desempenho de suas tarefas profissionais: cuidar bem do instrumento que validaria a luta de uma custosa campanha, de ambos os lados. O secretário da seção, de poucas letras, escrevia com dificuldade, o tempo passava, a tarde chegava, Três Lagoas era longe e a estrada... bem a estrada, por coincidência, é a mesma de hoje, buracos e mais buracos, areia, sem nenhuma conservação – entra e sai governo e a ligação Três Lagoas –São Pedro não mudou !
   Ver para crer.
    Finalmente, pronta a ata. Só colher as assinaturas de praxe. Rosário, impaciente deu por encerrada a sua tarefa, releu com atenção o texto, conferiu os resultados, tudo nos conformes, contou as linhas para as firmas, caprichou na sua, Sabino na de baixo, despediu-se aliviado dos presentes e... Pé na estrada. Olha no que deu a pressa do Rosário. O Sabino, vendo que a mesa receptora era composta só de pessoas justamente do partido que o contratou, aproveitou a debandada dos adversários que foram para o bota fora do Rosário na casa do Jorge de Lima, e outra coisa não fez senão aproveitar os espaços em branco e começar um parágrafo com um bem soletrado “em tempo”, para mudar todos os números da apuração... E ninguém pôde contestar, porque ali constava a assinatura do próprios vitoriosos, e depois derrotados: de todos, inclusive a do seu Advogado. Até hoje, quando passo por São Pedro, ainda escuto descendentes dos ludibriados esbravejaram contra os dois doutores.
    O Senador Rachid Derzi é considerado senão o maior pelo menos um do maiores latifundiários de Mato Grosso do Sul. Nas eleições de 1986, em comício em Corumbá, todos os moradores sem exceção, defendiam calorosamente a reforma agrária, que era o discurso da moda. Rachid falou com veemência, em seguida desceu do palanque e foi abraçar o povão. Um eleitor entusiasmado com a palavras do chefe agarra-o pelo braço e começa deitar falatório. Rachid o interrompe e diz bem ao pé do ouvido: Não fale mais nada, eu já fiz a minha reforma agrária, dei cem mil hectares pra cada um dos meus dois filhos , mas passe lá em casa que eu reservei um lote de terreno pra você. Psiiiiiiiu...
    E, como essa, muita coisa existe no rico folclore político de nossa terra Sul-Mato-Grossense.

   

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O Liquidante

   
    Liquidante era o sujeito que pegava conta para cobrar. Expediente muito usado, antigamente, pelos comerciantes que tinham a receber no sertão.
    Não é agradável ser liquidante. Tampouco, fácil; pelo menos. Ateneu não foi muito feliz e penso que os espinhos são bastante doidos e comuns a todos que mourejam nessa ingrata profissão.
    Ateneu, hoje, é responsável por uma importante Divisão da Administração de sua cidade. Já sofreu muito. É daquele que tocam sete instrumentos e tem quatorze necessidades.
    Nunca destas tentativas para acertar com a sorte, Ateneu foi experimentar ser liquidante de importante casa de comércio, na qual gozava não apenas de bom crédito, mas, e sobretudo, de largo conceito e confiança.
    Havia no município um velho e respeitável chefe político, coronel de fama que, por sinal, estava dominando a situação, cujo débito com a casa Beirute já antigia elevada cifra e era conveniente a Salim tentar um acerto, ao menos enquanto Braz era tesoureiro....
    Ateneu, consultado topou a empreitada, havia outras incumbências pelo caminho. Com os mil réis que lhe restavam, arreou um bom tordilho e pôs rédeas na estrada, para uns bons dois dias de marcha.
    O astro rei cuminava no horizonte, quando e desajeitado liquidante deu de casa.
   - Vamos apear, moço, disse o coronel, com voz autoritária.
    Obrigado. Entregou o animal para o peão de terreiro, tirou as esporas para não arrastá-las no assoalho, como sinal de respeito, e entrou.
    Ateneu jantou, sofregamente, contou as novidades da vila, deu ênfase ao falecimento do curió, noticia que muito agradou ao coronel porque, na última peleja pela prefeitura, curió, arrancou-lhe um bom par de legítimas rigideiras e votou do outro lado: caboclo sem qualidade, rosnou o coronel.
    Ateneu foi acomodado no quarto de hóspedes. Gente fina não arma rede, embora traga no pala para qualquer surpresa. Hora de deitar, veio um leito de cumbuca, com farinha de milho, depois da criada lhe ter posto uma baciada de água morna para lavar os pés, numa pesada gamela.
    A noite toda, Ateneu passou pensando como entrar no velho, já que o barulho da palha de milho do colchão lhe fez mesmo perder o sono. Cedo, o trêfego liquidante estava no curral, esperando na cerca o leite da preferida, que tinha bezerro mais velho, logo, leite mais gordo. O coronel já sabia que ou era intimação de cartório ou dinheiro emprestado. Mas como indiscrição de gente grande e autoridade, atalhou logo o infeliz liquidante, antes mesmo da segunda canecada.
    - Afinal, o senhor não me disse onde vai almoçar pra frente hoje!
    - Não, patrão, a minha missão termina aqui.
    - Ah! ... E então?
    Ateneu contou a história da onça e o Coronel se prontificou ir a Vila, dentro de uns poucos dias, e liquidar a conta. Sem falta. Excusando-se pela demora, mas que ele poderia regressar descansado.
    - Eu é que tou vexado com esse desencontro, sustentou o coronel.
    Ateneu respirou fundo, pensando na comissão que lhe escapava, naquele momento com a qual se casaria com mais conforto no sábado daquela semana. Já contava trinta e três anos...
    Manifestando o propósito de se pôr a caminho, logo em seguida, o Coronel saiu fora e mandou aprontar seu animal. Ateneu nem ligou importância ao ver quatro caboclos tomarem a mesma estrada que ele deveria seguir, encarabinados e um arsenal à cinta, pouco antes de e pôr a caminho. Despediu-se e esporeou o matungo. Cabeça baixa, pensando, já, em desistir daquela nova profissão. Aquilo era humilhante, faria inimigos e afinal, não tinha mesmo era jeito pra coisa .
    Adiante, num descoberto de ponta de cabeceira, Ateneu reconheceu os quatro. Ia continuando, serenamente, quando um deles atalhou:
    - Bom dia, seu moço.
    - Bom dia, amigos.
    - Vamos chegar um pouco, aqui. E assim dizendo, foi já se aproximando de nosso miserável liquidante, seguido dos três companheiros, até alcançar as rédeas do animal de Ateneu.
    - Não, obrigado, eu estou com um pouco de pressa.
    Mal dizia isso. Ateneu já estava nos braços suados dos quatro capangas e levado para traz de rala moita de marmelo, onde uma égua morta, sem cabeça, aguardava a presa. Ateneu foi enfiado de diante pra traz, de forma que a cauda da finada ficou servindo de incomodo travesseiro. Feito isso, se foram.
    Pobre liquidante. Tomado de pânico, aos pouco foi recobrando os sentidos. Passou, então a gritar... gritar o que os pulmões podiam, até perder a voz completamente. Não tardou para que os urubus começassem a rodear a carniça. Tentava novamente gritar, mas, nem isso podia fazer. Perdeu as forças. O maior medo era ficar com os olhos furados.
    Mais tarde, o fracassado liquidante escutou, de longe, alguém assobiando e uns pisados no mato, que viera, chegando...chegando... Era um menino, dos seus doze anos, com uma vasilha de comida à cabeça, que ia levar ao pai, na roça.
    Ateneu deixou-o aproximar mais e gritou:
    - Meu filho, me traga um pouco d’água, pelo amor de Deus. Não quero morrer de sede.
    O guri já tinha ouvido falar em mula em cabeça, mas égua sem cabeça e que falava, ah! Isso não... Deitou no chão a vasilha derramando e abriu pé e boca no mundo.
    Os urubus aumentando. Ateneu gemia, a urubuzada voava; outro gemido nova revoada.
    Ateneu viu o fim da vida. Que tristeza... Largando a cabeça, à espera do último suspiro, pode divisar um sujeito, de espingarda na mão, se aproximando cauteloso, com o dedo no gatilho.
    - Não me mate, meu amigo... me dê um pouco d’água primeiro ...me acode...
    Era o pai do guri. Vendo, então, que não se tratava de assombração, chegou bem junto daquele amontoado incomum sacou de seu facão jacaré e arrancou a vítima da barriga da égua.
    Ateneu nunca mais quis ser liquidante!
   
   
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DIA DOS PAIS

    Quando um filho nasce, o pai enxerga o horizonte mais além e o céu ainda mais alto. Se é varão, era rei, com certeza...
    Se mulher, a rainha do universo feminino, para quem se curvarão todos os varões.
    Mas... mas, a árvore da vida vai sinalizando a realidade com a tonalidade de suas folhas; tenras, bem verdes, amarelando-se depois para, quando secas, se confundirem com o pó da terra onde irremediavelmente todos nos misturaremos. Passarão as estações, a primavera, o outono e o inverno não surpreenderá...
    Uns são hoje o que os outros serão amanhã.
    E quando aquele mesmo horizonte antes muito além e aquele mesmo céu alto estiverem bem juntinho dos
    nossos olhos turvos e cansados, é porque chegou a hora de refletir-se nos versos desta singular e anônima oração:
   
    Meu filho.
    Se meu olhar é hesitante e minhas mãos trêmulas, ampare-me.
    Se minha audição não é boa e tenho de me esforçar para ouvir o que você está dizendo, procure entender-me.
    Se minha visão é imperfeita e o meu entendimento escasso, ajude-me com paciência.
    Se minha mão treme e derrubo comida na mesa ou no chão, por favor, não e irrite, tentei fazer o que pude.
    Se você me encontrar na rua, não faça de conta que não me viu. Pare para conversar comigo. Sinto-me só.
    Se você, na sua sensibilidade me vir triste e só,simplesmente partilhe comigo um sorriso e seja solidário.
    Se lhe contei pela terceira vez a mesma história, num só dia, não me repreenda, simplesmente ouça-me.
    Se me comporto como criança, cerque-me de carinho.
    Se estou doente e sendo um peso, não me abandone.
    Se estou com medo da morte e tento negá-la, por favor ajude-me na preparação para o adeus....
   
    Lendo, hoje, a minha própria alma e debruçando-me sobre o passado, sei que esta prece muito me conforta. Orei e cumpri!

   

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O ROMANCE DE UMA FLOR

   
   Foi uma linda borboleta,
   toda enfeitada de azul
   e de ouro,
   que me contou
   - e pediu segredo -
   o romance de uma flor abandonada.....

   
    Uma linda estória de amor.....

   
    Era uma campina verde....
    Tímida ,
    entre os espinhos dos seus galhos,
    uma primavera
    seduzia os passarinhos peregrinos
    para as ceias de perfume,
    e carinhos,
    no leito de veludo
    forrado com pétalas de tantos troféus...

   
    Um beija flor,
    coitado,
    lá,foi ter-se
    beijando
    aqui, acolá,
    os lábios virgens das flores,
    beijou
    os lábios, também,
    da triste flor da novela.

    Ela era mulher...
    pediu-lhe o mar,
    ele deu-lhe a água do mar...
    Pediu-lhe um espelho encantado,
    buscou-lhe o espelho das fadas...
    Mas, o último desejo:
    (ela era mulher...)
    pediu-lhe uma estrela do céu.
    E ele voou...voou...sumiu...
    e, até hoje, não veio
    com uma estrela do céu...
   
   
    *
   **
   

    Como o dobre do sino
    num fim de dia
    chamando ao terço os fiéis,
    as pancadas do peito,
    os soluços,
    são o planger da saudade
    chamando à alma da gente
    quem de nós se esqueceu.....

   

    A alma da gente....Uma capela vazia....
    Flores...Chamas acesas...
    Silêncio...Murmúreo de rezas...

   

   No bojo, o caramujo
   tem do mar a ressonância....
   No coração, o caramujo do peito,
   a saudade é a ressonância
   de quem de nós e esqueceu.....

   

   

    *
    * *

   

    Os nossos sentidos são bancos públicos
    instalados
    num jardim qualquer de uma existência,
    em que descansam as almas desprendidas,
    embriagadas
    do sabor dos alecrins, do perfume das hortências.

   

   E o meu peito,
   aberto ao mundo dos amores?
   É uma gaiola de alegres passarinhos
   cantarolando da tristeza uma partitura,
   por não deixar, também, de embriagar-se
   do sabor dos alecrins, do perfume das hortências.

   

    As folhas secas de tantos sonhos
    o calor de um beijo fê-la cinzas,
    as cinzas um vento as carregou
    numa canoa feita de Saudade...

   

    D’antes, entoava a balada das miríades,
    ora, só me resta aos olhos cheios de pudor,
    no jardim plantando num quartel da vida,
    um corpo nu de um pé qualquer de alecrim,
    e a terra causticada
    de um canteiro de hortências!...

   
    *
   * *

   
    Retorna aos sonhos, o poeta enquanto
    escreve os versos que seu peito dita,
    tece grinaldas,
    e em purpúreo manto embala e Estro...
    e o rouxinol imita....

   

   Vagando as nuvens na amplidão etérea
   que serenando a passarada cruza
   sua alma as segue
   Na cúpula sidérea
   rútilos painéis lhe despertam a Musa.
   

   
    No campo...No mar...
    No céu ou na terra
    murmura cristalina a fonte do poeta...
    Nas horas côr de sangue, o pensamento,

   

    em cismar, então se perde, vaga, erra,
    dedilhando a lira,
    a buscar alento,
    na natureza, que é a fonte do poeta!...
   

   
    As três sombras (lenda)

   

    Na sala mais antiga de um museu,
    na calada de uma noite de estrelas,
    três sombras despertaram o sono seu,
    descobrindo o véu empoeirado a envolve-las.

   

    O primeiro dos vultos memorou:
    - Fui rei. Escudos de oiro martelado,
    dos súditos severa vassalagem,
    senhor e guia do meus reinos sem fim...
    Rubis luziam no meu brasão de guerra,
    meus cavalheiros no meu trono austero
    depositavam os ouropéis mais raros,
    os estandartes tomados ao inimigo...
    Fui rei e me olvidaram nesta clausura!

   

    O segundo dos vultos recordou:
    - Fui herói. Cem batalhas tentei,
    cem batalhas venci. Caravanas
    de humilhados seguiam meu exércitos...
    A minha espada de aço flamejava
    ao mando de minhas mãos certeiras,
    E, hoje, jaz ali envolta na ferrugem,
    como a velar minha sombra homicida
    neste esquecido túmulo de memórias...

   

   O terceiro dos vultos, finalmente:
   - Fui poeta, pobre pastor de quimeras....
   Saí a colher o pranto dos homens
   e devolvê-los em forma de sorrisos,
   fiz florir as várzeas em pleno inverno...
   Em êxtase, de joelhos, em minhas mãos,
   - qual duas palmas que se oferecem à brisa -
   ergui alto tal símbolo de promessa...
   Minhas palavras de glória beijavam,
   humildes, os horizontes; meu olhos
   se perdiam nos céus, enternecidos...

   

    Rei, sou, dos meus reinos de sonhos, mas pobre,
    vestido de andrajos, eu canto
    do Universo as eternas maravilhas!
    Herói, sou, das minhas odes entusiásticas,
    perenes, a fremir eternamente!
    Poeta , sou, assim, penso que nunca morrerei!...
   

   


Autor: ® F. LEAL DE QUEIROZ
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