MATO GROSSO DO SUL, sexta-feira, 16 de novembro de 2018 - BOM DIA!   
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» ARTIGO

(09/07/2004)


TEXTOS DO ACADÊMICO GERALDO RAMON PEREIRA

   

GERALDO RAMON PEREIRA,
poeta/escritor membro titular da Cadeira 39
   da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.


   __________________________.......____________________________

   
   *MEU MONJOLO
   

Letra e música de Geraldo Ramon Pereira
   Ritmo: Cururu - Tom: A (Lá maior)

    I
   Este peito corroído
   Pelos cupins da ansiedade
   É um judiado pilão
   Moendo ao meu coração
   Fubá de felicidade...
   É o monjolo do tempo
   Me socando aqui por dentro
   Na cadência da saudade!
   
   Refrão:
   Ai, ai... Eu não me consolo,
   Vendo apodrecer no chão
   Sem bater no seu pilão
   O meu saudoso monjolo!

    I I
   Evocando sua lida,
   Monjolo, meu companheiro,
   Sua canção ainda ouço
   Nas águas do calaboço
   E eu brincando no terreiro...
   Sem pensar que aquilo tudo
   Fosse um dia ficar mudo
   E como ficou ligeiro!

   Refrão:
   Ai, ai... Eu não me consolo...

    I I I
   Oh! Deus, que calamidade,
   Ao seu lado soterrada
   Também jaz a bica d’água,
   Só que agora jorra mágoa
   No monjolo do meu ser...
   Você, a bica e o pilão
   É o que resta nesse chão
   Onde desejo morrer!

   Refrão:
   Ai, ai... Eu não me consolo...
   
    IV
   Mas você foi minha vida,
   Por isso eu quero sonhando,
   Ó monjolo, meu irmão,
   Rever você na ilusão
   De ser menino outra vez...
   E com você recompor
   Toda uma vida de amor
   Que o progresso desfez!

   (*) Música gravada pelo autor na 3ª faixa do seu CD “Cheiro de Chão”.

   

* * *

   

    MENDIGOS IMORTAIS - POMPÍLIO

   Peço licença para, mais uma vez, adentrar os seus olhos, chegar ao seu cérebro, tocar-lhe, enfim, a fímbria dos sentimentos com mais uma história de pessoas que marcaram indelével e tipicamente as nossas ruas. Já lhes falei da Rosinha Louca – mulher meia-idade, mentalmente desequilibrada, rebocada de pintura, carregada de adereços, sempre a buscar, pelas ruas do meu bairro e da vida, o homem amado; do Barbosinha – negro, magérrimo, tosco cobertor perenemente aos ombros, a procurar aqui e acolá, de cócoras, ao chão, algo (um diamante?) irremediavelmente perdido; do Joseti – brevilínio, de terno surrado, charuto apagado ao canto da boca, dedos pejados de anéis, alcoólatra e demonstrando boa escolaridade; da Maria Bolacha e da Maria Preta, – ambas mulheres da rua, a primeira marcada pela agressividade, a outra pela exibição coreográfica de uma beleza que não tinha. Agora, para encerrar a série, contar-lhe-ei – paciente leitor amigo – a história do último “mendigo imortal” que foi contemporâneo da minha infância na Cidade Morena e que, até hoje, ainda me marca indelevelmente a saudosa memória: Pompílio.
   Quando o vi pela primeira vez, de pé na calçada de uma das esquinas da Rua Quatorze com a Sete, tive a impressão de estar ali fincado um poste encarvoado, baixo e grosso, tão imóvel se encontrava. Avizinhando-me, notei tratar-se de um homem negro, troncudo, cara enorme e comprida, retaco, com todas as características de sua raça: beiços grossos, olhar morteiro, nariz grande e achatado, cabelos encarapinhados, já grisalhos, a fazerem consonância de cor com a esclerótica branca e possivelmente com os dentes alvos, se é que os tinha.
   Por coincidência, alguém passava, puxou conversa, Pompílio respondeu com dificuldade, ouvi-lhe a fala mole e enrolada, parecia estar bêbado; porém, mais tarde, fiquei sabendo que era quase mudo e que, mesmo fora da bebida, era assim. Hoje, conhecimentos profissionais autorizam-me a deduzir que sofria ele de problemas neurológicos, ainda mais recordando que, ao caminhar, era trôpego e cambaleante.
   Pesquisando um pouco mais a sua vida singular, fiquei sabendo que Pompílio tinha um irmão, chamado Alcides, que distribuía marmitas e que, ao contrário dele, era falante, mais desembaraçado, chegando a vertir-se elegantemente, com terno branco, quando no exercício de sua profissão. Pompílio vivia sempre enxovalhado, a roupa ensebada, perambulando pelas ruas e pelos caminhos, alcoolizado, sem moradia, sem nada. Vez ou outra acompanhava o mano a alguma fazenda e ali ficava algum tempo, fazendo serviços simples e corriqueiros na sede, como praieiro (como se diz no Pantanal).
   Voltando para cidade, retornava a sua vidinha desgraçada de mendigo, saco sujo e roto no ombro, enchendo a cara, pedindo esmolas e comida em uma e outra residência. Por vezes, penalizada, a dona de casa, que já o conhecia, oferecia-lhe condições de tomar um banho, dava-lhe roupa limpa... Daí a pouco, eis o Pompilio envergando novamente o seu enorme terno escuro e imundo, seboso, escorregadiço – que lhe encobria as mãos e arrastava-se pelo chão – chapéu emporcalhado na carapinha, sem rumo, olhar perdido, pés sangrando pelo caminho ignoto do seu pobre destino...
   E pensar que ainda hoje, em pleno terceiro milênio, quantos Pompílios – na forma de meninos e meninas abandonados, de homens e mulheres sem condições de sobrevivência, de idosos marginalizados e esquecidos... – quantos Pompílios existem ainda a perambular pelas nossas ruas, à mercê da fome, do frio e da doença, por mero descaso daqueles que, por corrupção, egoísmo, desumanidade, fome de poder, enfim, por ausência absoluta de Deus em seus corações, geram e massacram esses nossos irmãos!

   

* * *

   
   GRITO DO IPIRANGA

   Brado que ainda ecoa reclamando pela real independência dos brasileiros.

    Independência significa liberdade, ou seja, “situação de uma coletividade dotada, no território onde vive, de órgãos não subordinados aos órgãos de outra coletividade” - (Grande Enciclopédia Larousse Cultural)). Juridicamente, a independência política exprime-se pela soberania interna e internacional do Estado. Em outras palavras, ser independente significa, para um país, não se submeter a outras autoridades e governar-se pelas próprias leis.
    Adaptemos agora os conceitos de independência ou liberdade para o caso do Brasil. De fato, tivemos nossa independência político-administrativa proclamada historicamente no dia 7 de setembro de 1822, mediante o célebre GRITO DO IPIRANGA, bradado por D. Pedro I, cujo ato desligou-nos oficialmente do Império Colonial Português, sendo constituída, então, uma monarquia institucional.
    Como os processos que culminaram com a Independência não foram precedidos por guerras que favorecessem a dispersão da autoridade e do poder, fora aí plantada a semente da nossa sagrada “unidade nacional”, que se traduz inclusive pela não fragmentação do nosso território. Tal condição exigiu, no entanto, esforços de centralização político-administrativa e repressão aos movimentos separatistas ou antimonarquistas. Vale lembrar que, neste aspecto, fomos mais felizes que as outras colônias da América Latina, cujas independências, sangradas em lutas internas, iam pulverizando os seus territórios entre os inúmeros caudilhos locais, sediados em terras próprias.
    De positivo, ainda, reportemo-nos ao espírito de aventura e intrépida coragem de muitos brasileiros que, com a descompressão do jugo português, e mesmo contrariando tratados divisórios internacionais, atiraram-se à conquista de novas terras, alargando em muito as nossas fronteiras, preservando-se, porém, a centralização da soberania nacional. Saiba o leitor que estou me referindo, em especial, aos Bandeirantes e, de maneira particular, aos anônimos heróis desbravadores dos nossos sertões e semeadores de povoações, como o foi o nosso destemido José Antônio Pereira.
    Pois bem, a independência está proclamada, o país cresceu territorial, institucional e economicamente, a unidade político-administrativa está preservada... Contudo, podemos gritar aos quatro ventos que somos cidadãos realmente livres? Temos, por acaso, liberdade de trafegar tranqüilamente pelas nossas ruas? Podemos estabelecer, sem pedir licença aos ianques, um “salário mínimo” decente e digno?... Somos, enfim, desatrelados ao imperialismo econômico , e até político, imposto pelos chamados países do primeiro mundo?...
    O grau de independência de uma nação manifesta-se pela liberdade individual e coletiva de sua gente. Por exemplo, a liberdade de ir e vir: para nós ela só existe, de fato, nos termos da Constituição, pois, via de regra, os precários meios de transporte do brasileiro comum, associados à insegurança pessoal que o cerca, transformam sua vida em pavoroso caos, que o aprisiona nos próprios movimentos. Outro exemplo: a liberdade instintiva de preservação do indivíduo, que se caracteriza, antes de mais nada, pela ingestão adequada de alimentos – significativa parcela da nossa população, entretanto, sobrevive sob o jugo da fome; não possui a proteção de um teto, nem como se proteger do calor ou do frio; tampouco tem pronta assistência médica, nem condições mínimas de higiene; não tem, enfim, liberdade de viver como pessoa humana, o que seria apenas cumprir uma lei psico-biológica da espécie, divina e universal.
   Que independência é essa em que os cidadãos são escravos de um esquema de governo em que grassa o desmando, a incompetência, o protecionismo interesseiro, o descaso para com os menos favorecidos?... Onde está a liberdade pessoal (célula mater da independência coletiva), se cada um de nós vive prisioneiro do medo, da insegurança, a sangrar nas garras de autoridades corruptas, de esquemas que visam tão somente saquear o erário público e, indiretamente, o já empobrecido bolso do sugado povo?
    Meus nobres conterrâneos, já investidos de autoridade e do poder ou candidatos a eles... Ouçam! Não basta o Grito de Dom Pedro I!... É preciso que, em nossas funções, sejamos sempre honestos, imparciais, conscientes, que cumpramos, enfim, com nossas obrigações e deveres cívicos de bom patriota; que nos envolvamos com nossa bandeira, que nos preocupemos, de fato, com os menos favorecidos... Sigam os exemplos dos que assim se comportam! Em vez de ao bolso de amigos ou a bancos estrangeiros, que nosso dinheiro seja destinado ao bem estar dos nossos irmãos, que são de carne e osso como nós e que também merecem ver suas famílias felizes, equilibradas no tripé saúde-educação-moradia.
    Somente assim, com honestidade, melhor distribuição de rendas, direitos e deveres, haveremos de conseguir o tão sonhado bem estar da nossa gente, que gozará da plena liberdade de viver e amar... Somente assim poderemos nos considerar, de fato, uma enorme nação independente, com um povo deveras livre e feliz.
    “Independência ou Morte!”... Preferimos a Independência!

   

* * *

   
   CINCO SÉCULOS DE BRASIL

   Foram 500 anos de acertos e erros, de glórias e decepções, para um povo que ainda sonha com um país melhor, com mais respeito mútuo, mais humanidade, mais liberdade, mais justiça social.
    Antes de mais nada, convido-os, irmãs e irmãos brasileiros, para um breve passeio retrospectivo pela história do nosso país, marcada, desde o seu início, por fatos tão grandiosos e interessantes quanto às vezes lamentáveis...
    Quando Cabral aqui aportou, casualmente no dia 22 de abril de 1500, encontrou uma terra virgem, habitada por uma gente livre, dona absoluta das imensidões sem fim. E aquela vida gostosa, sossegada, sem malícia até na nudez de homens e mulheres, vê-se de repente a sentir o choque de civilizações de além-mar, que começam a lhes impor hábitos e costumes estranhos, maculando-lhes os próprios, chegando ao cúmulo de tentar convencê-los da falsidade de suas crenças e tradições. De vez que, se tão felizes eram eles acreditando na Lua ou no Sol, adorando o que fosse – e sempre eram atendidos, pois ao Deus real não importa o caminho pelo qual o buscamos – se tão felizes eram eles, não se fazia necessário dissuadi-los de seus sonhos e crendices milenares... Mas o homem “branco”, com seu egoísmo, com seu espírito possessivo e dominador, não hesitou em fazê-lo.
    Como também não titubearam os invasores, valendo-se da ingenuidade dos nativos, em extorquir-lhes ouro, prata e pedras preciosas, a troco de enganosas bugigangas. Assim como, aos poucos, foram iniciando o processo de destruição da natureza, chegando ao ponto de exportarem, sem a devida reposição, enorme quantidade do legendário pau-brasil. Era o início da descomedida exploração do homem pelo homem e da própria terra brasileira. Atacados, porém sempre lutando desesperadamente por seu chão natal e por sua gente, os gentios chegavam a ser dizimados pelos inclementes colonizadores e os sobreviventes, a título do cultivo das novas terras, escravizados por eles – o mais mesquinho e imperdoável dos gestos dos que se dizem humanos.
    Mais tarde, desistindo da submissão dos rebeldes indígenas, partiu-se para a escravização dos negros africanos, que eram drasticamente arrancados do seio de suas famílias... de suas pátrias... de seu continente... e, como verdadeiros bichos, transportados em porões de navios nauseabundos para o mais dorido dos exílios – “sem ar, sem luz, sem razão!”- como bem decantara o “Poeta dos Escravos”.
    Lembremos ainda as invasões de outros povos, como franceses, holandeses e espanhóis, que custaram muita luta e sangue derramado para a expulsão, mas que, no entanto, de algum modo ajudaram a desenvolver na alma dos primeiros colonizadores e de seus descendentes o gérmen do amor possessivo à terra, o espírito de patriotismo, o senso, enfim, do que é ser brasileiro, cujo maior desfecho fora o Grito da Independência.
    Para concluir estes breves e aleatórios lampejos históricos, recordemos, enfim, das próprias lutas internas, entre irmãos de ideologias diferentes, verdadeiras guerras que se fizeram necessárias para a estruturação e definição do território e do sistema político de nosso país... País cujas fronteiras foram alargadas e estabelecidas graças à bravura de intrépidos brasileiros, como os destemidos Bandeirantes e tantos outros anônimos aventureiros...
    Gente, se nosso país se fez assim, à custa de sorte (o Brasil teria sido descoberto por acaso); à custa de sacrifício de civilizações indefesas (os índios e os negros foram as maiores vítimas); à custa de guerras internas e contra invasores; enfim, à custa de tanta batalha, tanto labor, tanta disputa, tanta concorrência internacional... Por que, então, logo agora, tanta falta de civismo, tanta sem-vergonhice, tanta corrupção, tanta falcatrua, enfim tanta CPI? Para que fazer-se pensar que político é sinônimo de ladrão? Há necessidade de um policial ser o mesmo que marginal? Ser negro e ser pobre é o mesmo que ser gatuno ou traficante? Ser índio é não ter direito à terra? Sem-terra precisa ser chamado de revolucionário e invasor? Carece que um juiz seja o infiel da balança? Para que tanta injustiça social? Para que se envergonhar de ser brasileiro?
    Ser brasileiro!... Ser brasileiro é ser negro, é ser branco, é ser amarelo, é ser índio... É ser essa mistura maravilhosa, é ser Castro Alves, é ser Operário, Machado de Assis, Rondon, Rui Barbosa, Trabalhador Rural, Ayrton Senna, Osvaldo Cruz, Chiquinha Gonzaga, Garrincha... Oh! Mané Garrincha! Desça daí e venha nos ensinar a driblar as falhas e erros dos nossos governantes! Pelé, nos ensine a marcar o gol da decência, da honestidade, da igualdade entre os homens, da justiça social!...
    Bem que os 500 anos do Brasil poderiam ter um comemoração mais alegre. Que pena! Um país tão bonito com tantos filhos ingratos... Mas ainda existem homens e mulheres patriotas e honestos que hão de mudar o nosso destino... Resta-nos esta esperança. Quem sabe assim o algarismo “5” dos quinhentos anos não irá mais representar o caminho tortuoso por onde ora seguimos, nem os dois “zeros” (00) irão significar dois olhos arregalados e em pranto – de tanta vergonha... Vergonha nacional!

   

* * *

   
   PARABÉNS A VOCÊ,
   ACADEMIA SUL-MATO-GROSSENSE DE LETRAS!

   No dia trinta de outubro comemora-se a data de fundação desta que é a mais legítima e proeminente entidade cultural de Mato Grosso do Sul.

    “No princípio criou Deus os céus e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo ... E disse Deus: Haja luz. E houve luz.” – Gênesis 1.1-2.
   E para que mais luz houvesse em Campo Grande, Deus criou Ulysses Serra. E Ulysses Serra gerou a “Camalotes e Guavirais”, esplêndida coletânea de crônicas, cujo livro, lançado em noite de autógrafos no dia 13 de outubro de 1971, gerou o reconhecimento e fomentou a admiração das pessoas mais sensíveis pela arte literária local. E todos louvaram aquele autor, o messias das letras regionais que, na pg. 10 daquela 1ª edição, entornou, em poucas palavras, toda a singularidade de sua formação cultural e natureza divinamente poética:
    “Se eu morrer alhures, onde quer que seja, morrerei um exilado e um proscrito de mim mesmo. Como sucedia aos antigos egípcios, minha alma, aflita e errante, esvoaçaria pelo Infinito, sem nunca encontrar abrigo. Aqui não morreria de todo. Ouviria o passo e a voz dos meus amigos, o gorjeio dos pássaros que amo, o farfalhar das frondes que conheço e o bater do coração da minha casa”.
    Pois quis o destino que Ulysses morresse alhures, longe da terra e da gente que amava e sem ouvir o coração de sua casa! Adormeceu o sono eterno no dia 30 de junho de 1972, na longínqua Rio de Janeiro, mas não sem antes haver realizado o maior sonho de sua vida, no âmbito literário: fundar uma Academia. A idéia, lançada na memorável noite de autógrafos de Camalotes e Guavirais, pelo amigo e contista José Couto Vieira Pontes, entusiasmou-o a tal ponto que, dezessete dias depois, ou seja, no dia 30 de outubro de 1971, ao lado daquele e de outro amigo e grande sonetista – Germano Barros de Souza – Ulysses declarou:
   “A Academia de Letras e História de Campo Grande está fundada!”
    Tal fato histórico aconteceu num sábado de manhã, na sombra de uma árvore da “Estância Gisele”, propriedade do fundador, cujo brado emanou-se-lhe do eufórico coração e foi ecoar nos semblantes iluminados dos dois companheiros, que o aclamaram com risos eivados de emoção.
    Não tardou que intelectuais conhecidos viessem a participar de futuras reuniões literárias na residência do próprio Ulysses Serra, advindo daí as adesões de novos membros, como Demosthenes Martins, Hugo Pereira do Vale, Antônio Lopes Lins, Licurgo de Oliveira Bastos, José Barbosa Rodrigues, Inah Machado Metello, Paulo Coelho Machado e tantos outros.
    E eis que a borbulhante nascente, projetando-se já como bravio regato, vai ganhando terreno propício e paulatinamente engrossa seu caudal com magníficos afluentes, cujas águas - turbulentas de entusiasmo, idealismo e saber - acabam por formar este enorme rio cultural que hoje se chama Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.
    Sem fins lucrativos, reconhecida e legalizada a níveis governamentais, nossa Casa de Letras integra-se ao processo de formação intelectual, moral e cívica da nossa gente, à qual oferece cursos de cunho literário, como os de poética e redação de contos e crônicas; palestras nas escolas; participação em concursos literários... Além de angariar livros, através de doações, para o enriquecimento de sua própria Biblioteca (aberta ao público), a Academia oferece compêndios para a fundação ou manutenção de Bibliotecas em outras entidades, principalmente escolas. E muito mais.
    Se nada ganhamos em termos de remuneração pecuniária pessoal (Pelo contrário, contribuímos com uma anuidade para manutenção), nosso sodalício - além do apoio complementar de alguns de seus membros (Nossa sede própria é uma doação do saudoso confrade Luiz Alexandre) e mesmo de outras pessoas que preferem o anonimato - nosso sodalício vem recebendo também o apoio de órgãos como a Prefeitura Municipal de Campo Grande, através da sensibilidade cultural de seus sucessivos administradores, e do Jornal Correio do Estado, cujo diretor, Prof. J. Barbosa Rodrigues, membro da Academia, além de outras contribuições, oferece gentilmente uma página inteira do seu diário (Suplemento Cultural) para a divulgação semanal dos nossos trabalhos e notícias acadêmicas.
    Enfim, é à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras que pertencem reconhecidos nomes da nossa literatura, como um Paulo Coelho Machado, um Acyr Guimarães, uma Maria da Glória Sá Rosa, um Elpídio Reis, uma Raquel Naveira, e outros.
    Por tudo isso, os acadêmicos da “Casa de Ulysses”, em sessão a um tempo solene e informal, comemoraram oficialmente, na noite de 30 de outubro passado, o vigésimo nono aniversário de sua fundação. A concorrida reunião, que aconteceu na Pousada Dom Aquino, a convite de sua proprietária - Raquel Naveira -, além de temas literários e culturais, foi eivada com aquele eufórico contentamento que traduz a satisfação pela consciência do dever cumprido, pois foram vinte e nove anos de existência e de serviços em prol da Arte e da Cultura sul-mato-grossenses e brasileiras - quiçá universais!

   

* * *

   
   CAMPO GRANDE, AQUELE ABRAÇO!

   Aquele abraço! – ó bela Campo Grande – pelos seus cento e quatro anos de emancipação como cidade. Cidade que adotei para amar e viver. Que este amplexo – forte como o vigor de nossa gente e largo como a amplidão dos nossos horizontes – envolva também, eivado de gratidão, seu bravo fundador.
    Ah! inesquecível José Antônio Pereira... Se aí “no assento etéreo onde subiste, memória desta vida se consente”, evoca, em saudosa retrospectiva, a confluência dos antológicos córregos, em cujo pontal construíste o primeiro rancho e onde, com a mão em concha, tu sorvias aquela água gostosa, límpida e fresca... Até hás de lembrar que os peixes, em exuberante cardume, ao marulho na superfície acorriam-te às mãos, imaginando fosse um fruto caindo!... Pois os dois sonoros riachos ainda cá existem – o Prosa e o Segredo – pena que espremidos, ora em valas de concreto, ora entre margens escalvadas, às vezes até aprisionados em túneis sob o asfalto. E agora, em vez de aqueles murmurantes fios d’água, canos de esgoto é que desembocam neles... Oh! Não fiques triste, meu caro Zé! Tudo foi para contornar inesperadas conseqüências de um desenvolvimento espontâneo, desenfreado e aleatório, muitas vezes sem projeto algum, polêmico até, mas necessário sempre. Tais frutos imprevisíveis, todavia, nada têm a ver com aquele almejado progresso com que tanto sonhaste e ajudaste a construir e de que foste o messias germinal.
    De qualquer forma, não obstante o ônus infalivelmente imposto à Natureza, deve-se insistir no desenvolvimento pretendido em um lugar predestinado. Foi o que fizeste, prezado José Antônio: semeaste a semente de uma “praga santa” – o Progresso – que se emaranhou como hera bendita pelas entranhas da antiga vila de Santo Antônio de Campo Grande. E os que vieram depois, igualmente envolvidos na evolução acelerada das coisas e dos tempos, fomentaram esse arrojado espírito de luta herdado ao seu fundador, e hoje ninguém mais segura esta pujante metrópole.
    Entretanto, na ânsia indômita de mudanças e progresso, às vezes cometemos – a meu ver – algumas imperdoáveis imprecauções, que, tenho certeza, desapontam o espírito faceiro e conservador de nossa querida Cidade Morena! A exemplo, meu dileto José Antônio Pereira, o que aconteceu com aquela primeira igreja que levantaste – a tradicionalmente conhecida Matriz de Santo Antônio. Tudo bem, que seu primitivo templo, ainda pequeno, de material inadequado, fosse substituído por outro, mais bem situado, que melhor acolhesse os devotos e suportasse as agressões do tempo. Veio, então, aquele prédio com as típicas torres pontiagudas, portas e janelas com vitrais artísticos e multicores, enfim, detalhes que marcaram indelevelmente gerações e gerações de campo-grandenses. Mas eis que, ao ensejo de uma nova reforma – que, antes de tudo, clamava pela preservação dos traços de um templo tradicional – alguém, adormecido em sentimentos nativos e até cívicos, troca a divina feição engastada no velho templo por frias linhas da moderna arquitetura, num total desrespeito a um dos (ex)cartões postais da nossa Memória.
    Semelhante barbárie ocorreu com o “relógio da praça”. A pretexto de desafogar o trânsito, o eterno (de)marcador de nossos costumes e tradições foi decepado do corpo de nossa cidade, que, aos olhos dos que realmente a amam, parecia mutilada. Depois de longos anos de inconformação e protestos de muitos, um pequeno grupo, atendendo aos anseios da comunidade, decidiu trazer o relógio de volta. Só que, ao invés de recolocá-lo no seu antigo e devido lugar, a réplica foi instalada em outro que tem nada a ver. Eu, que o conheci, ali no cruzamento da 14 com a Afonso Pena, sempre que agora o vejo, assim deslocado, tenho a mesma impressão estranha que teria se me deparasse com um velho conhecido que, por ter um membro decepado, houve-o reimplantado na testa. Louvável a iniciativa, infeliz a conclusão! E nada justifica, ante o espaço disponível e as técnicas modernas de sinalização, que não se recoloque o saudoso “relógio da praça” no seu pioneiro posto – a não ser, mais uma vez, a anestesiada sensibilidade e desapego, de alguns, por nossa tradição.
    Contudo, o “relógio do tempo” – implacável e indestrutível – aponta agora para os 104 anos de nossa adorada Campo Grande – matrona perenemente gloriosa, sempre a perdoar-nos pelos erros e a retribuir-nos pelos acertos. O desenvolvimento e progresso refletem a determinação e labuta de seus filhos, legítimos ou adotivos, sempre a vendo como extremosa mãe, um sublime misto de anciã e menina. Menina – cujas bonecas de sonhos dormitam em berços de recordações, ora armados pelos cerrados, sob coqueiros e guavirais, ora às margens floridas e olorosas dos ribeirões Prosa e Segredo. Anciã – que plasma à vigorosa memória a vivência e os costumes dos seus heróicos tempos da infância, da efervescente adolescência e da dinâmica vida adulta. E eis que as duas naturezas – de menina e de anciã – fundem-se e explodem nesta magnífica e esplêndida Campo Grande Morena, a quem envio, neste ensejo, efusivos parabéns e aquele abraço!
   
   

* * *

   
   CARTA PARA UM POETA VIVO

   Campo Grande-MS, abril, 2000.

   Meu prezado confrade e amigo Adair José de Aguiar:

    Como experiente mestre da Língua Portuguesa que é, talvez lhe tenha chamado a atenção o emprego da expressão “poeta vivo”, contida no título desta crônica-missiva. De fato e a priori ninguém iria escrever carta para um “poeta morto”, daí poder-se dispensar o adjetivo “vivo”, que aqui soa pleonástico. Ocorre que o epíteto acima é deveras proposital, porquanto, como se sabe, seja mais comum reconhecer-se o merecido valor cultural de alguém somente depois de morto – quanto mais se sua arte for a Literatura, em especial a Poesia. Mas você, Aguiar, contrariando este hábito incauto de tardio reconhecimento, vem, no seu artigo “Carta para uma poetisa”, resgatar-nos, de uma maneira muito brilhante e feliz, o inconteste valor da poetisa Flora Egídio Thomé, vivíssima entre nós, graças a Deus!
    Sua atitude, louvável em todos os sentidos, abre também um precedente e lega-nos a idéia de fazermos o mesmo com outros escritores vivos de valor, mas que simplesmente se escondem nas espirais da própria modéstia e humildade, deixando o espaço apenas para aqueles que têm condições e tempo para se autopromover.
    Assim pensando, decidi que o próximo escritor contemporâneo a ser merecidamente lembrado seria você. Feliz, então, pela escolha, eis que me proponho, em breves mas sinceras pinceladas, a vazar as impressões que sua requintada lava artística suscita na minha alma gêmea da sua, tanto quando a pena do amigo campea em prosa pelos pampas do sul, como quando o cinzel do seu estro celeste talha versos regionais ou esculpe um admirável soneto. Qual prosador, é a chama dos grandes gênios da Literatura que realmente o ilumina, como o fez ao imortal Érico Veríssimo; qual poeta, é certamente a alma de um Alceu Wamosy – o nobre sonetista gaúcho de “Duas Almas” – que o põe em consonância com as vibrações divinas.
    Para mostrar aos leitores a delicadeza do seu romantismo poético, transcrevo a seguir os dois tercetos do soneto “Tantos Caminhos”, nos quais você, eivado de recordações multicores, comenta a vida com sua companheira:

    Andamos juntos pelas tempestades,
    curtindo amores, sonhos e saudades,
    fomos amantes loucos e invejados.

    Agora somos dois quase velhinhos,
    seguindo os mesmos ancestrais caminhos
    como dois imprudentes namorados.

   
    Meu caro Adair José de Aguiar, como você, sou profundamente saudosista e, às vezes, também como você, tolho-me lamentando, no que escrevo, a natural fase do declínio biológico. Pois embora conscientes de que, no decorrer do tempo, enquanto a alma dos poetas busca as alturas celestiais, seu corpo vai inexoravelmente tendendo ao pó, não nos é fácil assimilar essa disparidade do destino... Entretanto, você mesmo, Aguiar, na sua bela carta para Flora Thomé, disse que “Os poetas não envelhecem nem morrem. Através da poesia, formam parcerias universais que perduram pelas gerações. Os poetas alcandoram-se, fazem-se cirros enfeitando o azul do firmamento, ou são estrelas fogoneando na imensidão do cosmos e outros viram flores embelecendo e aromatizando a nossa flora.”
    Falando em tempo, quanto faz que não nos encontramos! Você aí na florida Indaial (Que só conheço através da sua verve poética!), e eu cá distante, na nossa magnífica Campo Grande, sempre saudosa de você. Sei que, quando nos vimos pela última vez - aqui na cidade morena -, ambos tínhamos ainda fartas e negras cabeleiras... Hoje, conforme você se descreve na já citada carta, “A neve esfarinhou-me os ralos cabelos”, eu lhe digo - “Os meus despencaram-se com os solavancos da existência”. O importante é que nossos corutos, ao se abrirem em vastas clareiras, vão mais e mais nos expondo os cérebros à luz do Espírito Santo, cuja inspiração com certeza vai-nos compensando os estragos materiais proporcionados pelo tempo... Tempo que poderá envelhecer até a si próprio, mas que jamais, porém, conseguirá entardecer a eterna juventude de um escritor-poeta!
    Com as saudações acadêmicas de um sempre amigo!

    Geraldo Ramon Pereira

   

* * *

   
   MISSIVA A UM POETA-AMIGO
   Campo Grande-MS, 10 de outubro de 2000.

    Meu Caríssimo Confrade-Amigo,
    Adair José de Aguiar:

    Depois que li as suas cartas – verdadeira perfeição na arte de se comunicar literariamente – tenho me esforçado no sentido de melhorar as minhas, pois os exemplos dos grandes mestres são a melhor escola da vida. Eis-me, então, ante este computador, medroso de errar ante meu ídolo, tentando escrever bonito como ele, às vezes até “colando” algumas de suas expressões, furtando-lhe este ou aquele adjetivo, plagiando mesmo um pouco do seu estilo... Afinal, sinto-me um fiel discípulo do inesquecível “Prof. Aguiar”, renomado educador de quem nunca tive a honra e a fortuna de ser aluno numa escola - até porque somos quase da mesma era -, mas com quem venho sempre aprendendo ao longo da existência, inclusive a fazer sonetos.
    Feitas essas confidências, a um tempo sinceras e honrosas para mim, passo de fato ao início da pequena missiva, cujo tema principal é falar-lhe da satisfação pessoal por estar lhe remetendo os livros de minha lavra (Fico devendo o primeiro deles, Poemas Íntimos, cujas edições estão esgotadas) e o meu CD “Cheiro de Chão” – de cunho caipira e regional. Como você verá, trata-se de publicações independentes, destinadas mais à curiosidade dos amigos do que à pretensão de uma carreira literária ou musical. Se algum dia, contudo, algum louco julgar que escrevi ou gravei algo de valor, talvez tenha também a coragem insana de tentar convencer algum editor a publicá-lo. Daí...
   Entretanto, o que mais me alegra, meu maior retorno, minha maior satisfação pessoal, é poder passar o que escrevo, toco ou canto a alguém como você – ilustre amigo – alguém da sua formação, alma especular da minha, a quem Deus legou o dom ser sentimental, de ser romântico, de ser poeta, de ser, enfim, o mensageiro do belo e do amor entre os homens... Homens que precisam e muito, neste mundo competitivo e materialista de hoje, deste algo mais que, com a Luz do Espírito Santo, estamos conseguindo lhes oferecer ...
    Com um forte abraço do seu amigo-irmão,

    Geraldo Ramon Pereira.

   

* * *

   
   A MULHER DE TODOS OS DIAS
   – Na visão de um Poeta

    Não é nada fácil alinhavar considerações sobre um ser que, a um só tempo, é o mais sublime e o mais complexo da natureza – a mulher. Poder-se-ia imaginar que o Criador, ao concebê-la, usou muito de Si, mas, tão enlevado em seu lavor se encontrava, que nem sequer se apercebeu de que lágrimas de um anjo mau, invejoso d’Ele, gotejavam na massa divinamente modelada. E o resultado foi essa criatura misteriosa que, quando nos ama ou corresponde ao nosso amor, faz-se um misto de rosa é mel, de sonho e ternura, de alegria e felicidade... Entretanto, se não logramos dela - a bendita mulher - a ventura do amor correspondido, ei-la espinho e fel, desesperança e maldade, tristeza e perdição... o mal sem remédio, enfim!
    Felizmente, porém, tais conjecturas (masculinas) são de caráter meramente subjetivo, pois a mulher não traz, nas suas entranhas de ser animal evolutivamente o mais perfeito da Natureza (superior ao próprio homem, a Ciência já o comprova!), nenhum traço que a desmereça como criatura humana. Pelo contrário, tudo nela a destaca dentro da espécie. Se não tem a pujança muscular de um homem, um seu olhar pode fazer brutamontes se ajoelharem aos seus pés. Se não lhe troa a voz como trovão a ribombar no espaço, um murmúrio dos seus lábios nos embala a alma e acalenta os nossos corações. Suas formas, suavemente arredondadas, lembram todas as coisas belas da natureza, como a curvatura do céu, o contorno de uma pétala, a linha sinuosa do horizonte. Seu olhar, quase sempre flamejante de ternura, lembra-nos a luz das estrelas longínquas, algo como o fitar do Criador para suas criaturas. Seus gestos lânguidos e delicados nos fazem vislumbrar arroios ondulantes ou felinos distraídos passeando por entre arbustos enluarados...
    Mas é na função reprodutiva que a mulher suplanta e arrebata toda a prepotência masculina. O milagre da procriação propicia a ela a mais sagrada das missões da natureza, que é a gestação, fase maravilhosa dos primórdios da vida, comum, é certo, a todas as fêmeas que parem. Na mulher, no entanto, ao componente instintivo associa-se a capacidade humana de amar, de proteger, e o novo ser, ao calor e ao carinho de um ente supremo, às expensas de sua sagrada alimentação e defesa, prepara-se para ingressar no mundo competitivo cá de fora! Nós, homens, não temos esse predicado ou privilégio. Somos inferiores. Natural e fisiologicamente, jamais poderemos ser mãe, tampouco amamentar... E que graça o corpo da mulher grávida! Mais feminina e charmosa ainda, seios fartos e sequiosos de uma boquinha vermelha, ela é toda esperança e emoção, que lhe propagam do ventre ao semblante, onde dois olhos brilhantes e sonhadores a transformam na própria imagem da Maria Virgem gestante – modelo universal de todas as mães.
    Predestinada a ter seu filho entre contorções e gemidos de dor, vinga-se da natureza quando, vitoriosa na guerra do parto, desabrocha o primeiro sorriso para o fruto querido daquele sagrado sofrimento – compondo talvez o mais belo e divino dos quadros deste mundo! Depois, o aconchego do recém-nascido ao seio, o olhar oblíquo e terno ao ser que a suga gulosamente... Daí para frente o zelo, o carinho, a dedicação, o eterno “sofrer num paraíso”, tudo isso nos dá a consciência de que a simples participação numa nova vida, apenas com um espermatozóide, é muito pouco, ante a grandeza do papel global exercido pela mulher.
   Sendo a criança uma menina, eis em nossa casa mais um enfeite natural, mais um botão que será flor, cujo perfume inebriará também o irmão, o papai, o vovô, enfim a todos da família, que certamente receberá dela os meigos carinhos, nem sempre despendidos por nós homens, mais uma vez inferiorizados pela natureza ou tradição machista. Vale a expressão comum: Um lar sem mulher é um jardim sem flor!
    Com todos essas peculiaridades e predicados, sendo tão sublimes e superiores no que a vida tem de mais humano e mais divino, é lógico que no plano da luta pela sobrevivência as mulheres iriam também se sobressair, competindo de igual para igual com os homens, ou até sobrepujá-los. Compete a nós, do “sexo forte”, assimilar e aceitar essa realidade, dando oportunidade e condições às nossas concorrentes na vida e no mercado de trabalho, inclusive proporcionando-lhes justa remuneração. Deixar o machismo de lado e participar efetivamente dos afazeres domésticos, conferindo aos nossos filhos algo mais para complementar aquilo que, por natureza, só a mulher-mãe já lhes vem proporcionando. Dividir responsabilidades e participar. Somente assim poderemos esperar dela a esposa com que todos sonhamos, com condições físicas e psicológicas para ser a eterna namorada-amante... Somente assim conseguiremos a grande ventura de dormitar tranqüilos nos braços da mulher amada, qual a criança que, amparada nos braços de sua mãe, aceita serena e feliz a sua superioridade.
    Viva a mulher do novo milênio! Viva a mulher de todos os tempos!

   

* * *

    FILOGÊNESE

    De espécie a espécie evoluiu a vida,
    Num fluir espontâneo e natural...
    Porém, em cada mutação sofrida
    Pressente-se a mão de Deus, descomunal!

    Por Ele a evolução foi dirigida
    Para um ser de caráter celestial...
    E eis que então a mulher foi concebida
    Como essência do bem, fluido antimal!

    Mas Deus, pasmo ante aquela criatura
    Que O suplanta em seus planos de doçura,
    Que o Universo em amor prende e arrebata,

    Suspende a evolução, só por cautela...
    Pois, se um ser criasse superior a ela,
    Estaria a criar-Se em duplicata!

   

* * *

   
    ATEMPORAL

   Eu que te conheci menina pura,
   Bela, inocente, santa e virginal,
   Sonhei amar-te como quem depura
   A essência da pureza sem igual!

   Sonhei em nossas bocas, com doçura,
   Beijos de orvalho e brisa ao roseiral...
   Sonhei, enfim, talvez maior ternura,
   Que Deus beijando a Virgem no Natal!

   Porém, me fui, te foste! Hoje, o destino
   Deslumbra a chance do primeiro beijo,
   Tão protelado, quanto mais divino...

   Pois, se crescera o amor com desatino,
   Te abraça um quase velho com desejo,
   Mas te beija a ternura de um menino!

   

* * *

   
    VAI-E-VEM DA VIDA

   Como sol de ouro e sangue na alvorada
   Tingindo em luz-calor a natureza,
   Também assim me aqueces, doce amada,
   Quando vens fulgurante de beleza!

   Depois vais e me cobres de tristeza
   Como um sol que, na hora desolada
   D’ave-maria, verte uma incerteza
   De mística dor n’alma apaixonada.

   Pois que esta sensação – temor do nada –
   Que me envolve e sufoca em dor danada,
   Tanto veneno na minh’alma solta,

   Que hoje, Amor, sei que ainda tenho vida
   Porque tudo o que morro em cada ida
   Tu me trazes à vida em cada volta!

   
   

* * *

   
    VERSO E REVERSO

   Luz de Deus ou felicidade pura
   - Como pura é a candura do meu verso -
   Foi encontrar-te, ó santa criatura,
   Na textura complexa do Universo!

   Procurei-te, amor, como quem procura
   Na moeda da vida o seu reverso...
   E no meu ser cinzelaste uma escultura
   Em que, se Deus é frente, és tu o verso!

   Pois me trouxeste tão sublime afeto,
   Que eu, já do amor descrente e vil ateu,
   Reencontro o amor em ti e tão completo,

   Que eis-me não mais desiludido e triste:
   O mesmo amor que em ti me reviveu,
   Me fez de novo crer que Deus existe!

   

* * *

   
    CONSCIENTIZAÇÃO
    (Quando ela partiu de avião...)

    Mal o enorme condor rasgou o espaço
    E aplanou nos mistérios do infinito,
    Senti toda a impotência do meu braço
    Quando em vão abracei-te em mudo grito!

    De repente, a existência era um bagaço,
    Ante mim mesmo tudo faz-se um mito...
    Era a saudade entrando em meu regaço,
    Tu, a deixar-me __ triste e tão solito!

    Mas eis que teu semblante sacrossanto,
    Numa visão do mais real encanto,
    Se acende e me ilumina o desalento...

    Era, por certo, Deus compadecido,
    Que em tua bela imagem esculpido,
    Viera alentar-me em tanto sofrimento!

   

* * *

   
   INCONFORMAÇÃO

   Para tudo há remédio neste mundo,
   É a lei da vida que nos dita a norma:
   Nos rouba o tempo um amor mais profundo
   E o próprio tempo ilude e nos conforma!

   Neste molde de Deus eu me confundo,
   E não aceito a sina desta forma:
   Não é certo perder-se um bem fecundo,
   Um bem que em nossa vida se transforma!

   Por isso, Amor, se um dia, em desencanto,
   Fores viver sozinha, eu, noutro canto,
   Sempre a vida hei de resgatar em ti...

   Pois se um dia eu não mais levar-te flores,
   Nem canções, nem sonetos, nem amores,
   É porque de saudades já morri!

   

* * *

   
    PEREGRINO DO AMOR

   Qual do deserto um nômade sedento
   A buscar um oásis no destino,
   Em cada sonho eu ia atrás de alento,
   E em cada alento eis novo desatino.

   No vão caminho as pedras do tormento
   Só me sangrando os pés de peregrino...
   Plasmei, então, em preces, meu intento,
   Paz implorando ao peito inda menino!

   Valeu a pena, oh! Céus, a persistência
   De buscar qual um louco na existência
   Quem fosse – um dia ao menos! – minha amada.

   Um dia de amor me era o suficiente...
   Mas eis que Deus, tão justo e tão clemente,
   Fez-te, Amor, minha eterna namorada!

   

* * *

   
    ALMA INSACIADA

   Perguntaste: “Por que este amor celeste,
   Tão cheio de ternura enluarada,
   Está sempre tal qual a mim mo deste
   No início esperançoso da jornada?”

   “Que teu amor nasceu belo, é inconteste...
   Mas por que não crescê-lo na escalada
   Desta ardente paixão que em mim puseste
   Qual sede na minh´alma insaciada?”

   Respondo-te: “Que engano, ó flor querida!
   Tua chama acendeu-me um sentimento
   O mais puro e crescente desta vida!”

   “É um amor que é um mistério tão bonito,
   Que além de ser eterno num momento,
   É capaz de crescer, sendo infinito!”.

   

* * *

   
    SINA DE JESUS

   Em sonho novamente eu vi a Cristo,
   Mais uma vez me brinda essa ventura...
   Porém agora O vi menino - um misto
   De mirim carpinteiro e graça pura!

   Quis d’Ele próprio ouvir o já previsto
   E mais do que se conta na Escritura,
   E perguntei: “De pregador benquisto,
   Pastor... qual sua sina mais futura?”

   Disse o Jesus-menino: “É assaz vontade
   Do Pai que eu cante e aprenda um instrumento,
   Que mais toque o divino sentimento...

   Pois já escolhi que lá na Eternidade
   Vou cantar as missões que eu já cumprira,
   Tocando, ao Pai, viola – a mais caipira!”

   

* * *

   
   RENASCIMENTO

   Jesus renasce a todo instante, a cada espaço,
   Em cada gruta milenarmente esquecida...
   É o parto persistente do amor sem cansaço,
   Com que Deus clona ao mundo a Maria escolhida.

   Jesus nasce na orquídea, no gelo ou mormaço,
   No mistério da morte ou nasce à luz da vida...
   Na guerra ou calmaria traz o seu regaço
   E renasce na causa ganha ou fé perdida!

   Jesus nasce ou renasce na flor ou no espinho,
   No mais torpe desprezo ou mais santo carinho...
   Porém, nada nos traz tanta luz e emoção

   Do que quando ao Natal – qual divina magia –
   Soa o gemido-prece da Virgem Maria
   E de novo Jesus nos nasce ao coração!

   

* * *

   
   MILAGRES DA CRIAÇÃO

   ... E criou Deus os campos do infinito
   Pra que estrelas pastassem cintilantes...
   Criar mares selvagens foi bonito
   Pra que luares banhassem ondulantes!

   Em cada criatura pôs um mito,
   O homem e a natureza fez amantes...
   E no amor pôs sussurro e pôs o grito,
   Entre cascalhos fez gerar diamantes!

   E para que entre os homens pecadores,
   Por livre arbítrio, alguns os seus horrores
   Deixassem lá nas trevas, vindo à luz,

   Deus, num gesto supremo, em doce frêmito,
   Fez nascer no Natal seu unigênito,
   O eterno Salvador – nosso Jesus!

   

* * *

   
    MINHA VIOLA

   Tua madeira já foi pinheiro um dia,
   Onde o vento manhoso, em sons de ninho,
   As cordas milenares já feria
   Na cantiga eternal de um passarinho!

   Têm-te as curvas do encanto e da magia
   Da formosa cabocla em desalinho...
   Dela tens a voz triste, em litania,
   Também clamas a falta de um carinho!

   Por isso, viola minha, se a saudade
   Esta vida tapera em dor me invade
   E a ausência dela rói-me desse jeito,

   Há só um consolo, ó viola abençoada,
   É abraçar-te qual fosses minha amada,
   Te aconchegando assim contra meu peito!

   

* * *

   
   ANALOGIA

   De capim em capim, um passarinho
   Foi tecendo o seu ninho entre risada...
   Também, de sonho em sonho e com carinho,
   Construí, com amor, nossa morada.

   Pôs a ave, ovo a ovo, no seu ninho,
   A vida pelo instinto eternizada...
   Fé e esperança em nosso lar alinho,
   Na bíblica missão por Deus traçada!

   Mas, de repente, um tiro inconsciente
   Calou a avezinha tão contente,
   Qual tu meu canto de felicidade...

   E agora, ao invés de arrulhos de prazer,
   Lá no ninho há filhotes a gemer
   E em meu leito só uivos de saudade!

   

* * *

   
    MEU TARUMAZEIRO

   O pé de tarumã ficava ali
   Onde fazia o ribeirão a curva...
   Oh! leda infância, lembro-me de ti
   Refletida na água mansa e turva!

   Hoje a saudade a minha alma encurva
   Sob o tarumazeiro, onde cresci,
   Pra ver de novo as flores, vindo em chuva,
   Beijar as águas, como tanto vi!

   Mas, genuflexo, olhando para as águas,
   Vejo só pranto a despencar-se em mágoas,
   Em vez das flores que não vejo mais...

   No lugar das florinhas lá da infância,
   São minhas lágrimas – desesperança –
   Que vão rodando neste rio de ais!

   

* * *

   
    AO MEU AVÔ “TITIO”
   (Para José Pereira da Rosa Filho)

   Evoco em sonhos auras já vividas
   Na vertigem das horas vesperais...
   E vejo a imagem sã, com tantas vidas,
   Do meu finado avô pelos currais...

   Eu, no “ingênuo folgar”, e ele, nas lidas
   __ Bolsa de sal ao ombro, e os animais,
   Já mugindo, a tangê-lo com lambidas
   Aos cochos, que hoje o não verão jamais!

   Mas, se às vezes visito a tal fazenda,
   De cada cocho vem saudade horrenda
   E de cada saudade esta visão:

   Em vez de cocho para o sal do gado,
   Nele vejo o vovô “Titio” deitado,
   Pelas reses velado __ em seu caixão!

   

* * *

   
   ADEUS A OTÁVIO GONÇALVES GOMES

   Foste a vaga cantante de alegria,
   O vento sibilante no capim...
   Hoje o canto tão triste silencia
   Porque a realidade quis assim.

   Sei que em pranto deixaste a Academia,
   Sobrevoando Rio Pardo até Coxim;
   Do chão que amaste a alma despedia,
   Na busca tão incerta do Sem-Fim.

   Tão muda a reverência, muda a prece,
   Tudo em silêncio te acenava adeus...
   Mas, em meio ao silêncio, te estremece

   Um cântico que eclode da ansiedade:
   Eram seriemas te clamando a Deus
   Em súplicas precoces de saudade!

   

* * *

   
    POLICROMIA DE UM MESTRE
   (Para o Prof. J. Barbosa Rodrigues)

    Atrás das lentes grossas, circunspecto,
    Ares dinâmicos e racionais,
    Um imenso coração, sublime afeto,
    Um sensível poeta em seus haicais!...

    Era assim J. Barbosa — homem reto,
    Quer na luta, no amor, nos ideais;
    Da terra e gente historiador dileto,
    Para a Cultura e Arte, sem iguais!

    Leva, mestre Barbosa, aonde fores,
    A nossa gratidão, nossos amores,
    Que aqui sufocaremos a saudade...

    Deus te chamou. Pois vai — é a nossa sina! —
    Revê os teus. E, com tua Henedina,
    Felizes Bodas de uma Eternidade!

   

* * *

   
    AMOR DE MÃE

   Mãe - chama universal, gérmen da vida,
   Matriz do amor, do início, meio e fim...
   Suave caminho, onde não há subida,
   Lábios em que um não tem sabor de sim!

   Das puras emoções a mais vivida,
   Mãe é canção de branco querubim...
   Se a Natureza é a mãe-das-mães querida,
   As mães-filhas são rosas de um jardim!

   Mas se canto as mães-rosas do Universo,
   Sempre uma delas vôa do meu verso
   E pousa na minha alma qual rainha...

   E eu já sei, pelos ritos sem iguais,
   Pelos tantos mistérios divinais,
   Que aquela mãe, ímpar de amor, é a minha!

   

* * *

   
    INTROSPECÇÃO

   Volvendo o olhar já baço pelos anos
   Para os rastros que o tempo imprime ao ser,
   Achei válidos tantos desenganos,
   Até que a dor, piedosa, deu prazer!

   Se ao corpo os genes foram vis tiranos,
   A alma se viu sempre a renascer...
   Alma e corpo são qual opostos manos:
   Um busca a manhã, o outro o entardecer.

   Tudo se passa como se renhisse
   Entre alma e corpo uma contenda mansa,
   Que da vida entretém a teimosice...

   Vem deles o equilíbrio da esperança:
   Quanto mais morre o corpo na velhice,
   Mais na alma vai nascendo uma criança!

   

* * *

   
    A ROLA E O GAVIÃO

   Faminto e ágil, qual ave de rapina
   Que ataca por instinto, sem consciência,
   Visei teu coração, cumpri a sina
   De em teu amor buscar sobrevivência!

   Sem pensar, fiz-te um porto, minha mina,
   O oásis florido e belo da existência...
   Nele vi-te uma rola pequenina
   E em minh´alma um gavião com persistência.

   Quanta investida em vão só dor rendeu!...
   Pois sem dó esquivava-se a rolinha
   Frustrando o gavião triste que era eu!

   E eis o martírio eterno nesta rinha:
   Por mais que insista – nunca serei teu!
   Fugirás sempre – e nunca serás minha!

   

* * *

   
    A SINA DE SENNA

   Nasceste estrela e, como tal, brilhaste
   No céu de sonhos verdes desta gente...
   Foi-se a bandeira, mas ficou a haste
   Desfraldando a saudade eternamente!

   Qual pedra rara que perdeu o engaste,
   Voaste para o infinito, de repente...
   E nas pistas de estrelas, que sonhaste,
   Ganhas a “póli” e corres lá na frente!

   És como aquela estrela que se finda,
   Mas cuja luz nos banha clara e quente
   Tal como se existisse o astro ainda...

   Porém, há diferença bem patente:
   Da estrela a luz se apagará; tão linda,
   Tua luz brilhará eternamente!

   

* * *

   
    LAMPEJOS FILOSÓFICOS

   Se mais se pensa, mas fica intrigante
   A relatividade do Universo...
   Seria estrela um sol lá bem distante,
   Ou é o sol estrela do meu verso?

   Se a grafite vulgar gera o diamante,
   Haja talvez valor maior no adverso...
   Quem sabe se o atrás não é o adiante
   E o certo da medalha é o seu reverso?

   Tudo o que existe é uma ilusão da mente...
   Ou será que algo exista realmente
   Sem início, sem meio e sem um fim?

   Ou serei eu, um Deus onipotente,
   Que imagino a existência desta gente
   E crio este Universo para mim?

   

* * *

   
    EFÊMERA ILUSÃO

   Na pele negra a marca da injustiça
   Cravada n´alma a fogo e preconceito...
   Tanta alegria, tanto amor cobiça,
   Mas só dor, fome e mágoa há no seu peito!

   Vem... chega o Carnaval! Todo se atiça
   E explode nele um homem satisfeito...
   Samba com branca, negra e com mestiça,
   A um reino de igualdade vê-se eleito!

   Três dias em que vive num harém
   De ardentes colombinas tão amado...
   O mundo é justo e gente ele é também,

   Três dias vai durando o seu reinado;
   Trezentos e sessenta e dois, porém,
   Volta a ser pobre negro injustiçado!

   

* * *

   
    MEU ESPANTO

   Não me admira, ó montes e rochedos,
   Que tantas intempéries suportais:
   Tantos furacões... raios... vendavais...
   Da costa cataclismos e degredos!

   E nem me espanta, ó escarpas e penedos,
   Permanecerdes rijos como estais,
   Embora bombardeados por torpedos
   Cuspidos dos espaços siderais!...

   No entanto, me admira enormemente
   Como que suportastes tanta gente
   - Ao longo dos milênios eternais -

   Vos olhando com olhos de pecado,
   Transformando o infinito em limitado,
   Vos fitando com olhos de mortais!

   

* * *

   
    NOSSAS MÃOS

   Primeiro, nosso olhar... medroso riso...
   O enlace tímido das frias mãos...
   E a vida foi tecendo um paraíso
   Em dois seres unidos sem desvãos!

   Na minha a tua mão se faz preciso,
   Só assim nos sentimos bem e sãos...
   Pois sempre as mãos de Deus é que diviso
   Nesta emoção que reza em nossas mãos!

   Assim, quando chegada a extrema hora
   Da noite eterna, sem luar e aurora,
   E nossas mãos quedarem separadas,

   Mesmo assim ilusões existirão
   De que a minha é que pega a tua mão,
   Mas será Deus conosco de mãos dadas!

   

* * *

   
    VERSO E REVERSO

   Luz de Deus ou felicidade pura
   - Como pura é a candura do meu verso -
   Foi encontrar-te, ó santa criatura,
   Na textura complexa do Universo!

   Procurei-te, amor, como quem procura
   Na moeda da vida o seu reverso...
   E no meu ser cinzelaste uma escultura
   Em que, se Deus é frente, és tu o verso!

   Pois me trouxeste tão sublime afeto,
   Que eu, já do amor descrente e vil ateu,
   Reencontro o amor em ti e tão completo,

   Que eis-me não mais desiludido e triste:
   O mesmo amor que em ti me reviveu,
   Me fez de novo crer que Deus existe!

   

* * *

   
    PORTA DO CÉU

   Como a flor que orvalhada o sol espera
   – Boquinha aberta ao néctar de alva luz –
   Também minh’alma se abre em primavera
   Na espera deste amor que me seduz!

   Pois, querida, és o sol que nunca era,
   És a hera que abraça minha cruz,
   E me nutres de amor qual dócil fera
   Que amamenta o filhote que conduz!

   Por isso sou foguete que aceleras
   Se te busco na sala onde me esperas
   Qual abelha faminta do seu mel...

   E me é tão lindo ver-te abrir-me a porta
   E tanto o teu sorriso me conforta
   Que em sonho penso a porta ser do céu!

   

* * *

   
    ALMAS EM CHAMAS*
   
   Um olhar... um sorriso... e a chama pega,
   Qual incêndio em cerrados estivais...
   Nosso amor é qual fogo na macega,
   Que, se começa, não se apaga mais!

   Nem mais o mundo vejo, ficas cega,
   Perdemo-nos nas luzes siderais...
   Divina sorte a nossa, ninguém nega,
   Pois é assim que Deus quer os seus casais!

   Espaço e tempo, em nossa intimidade,
   São causas e efeitos conflitantes
   Que vejo confundindo a identidade;

   Nem sei o que sentimos qual amantes:
   Se instantes de uma eterna eternidade
   Ou a eterna eternidade dos instantes!

   (*) Soneto musicado por Rubenio Marcelo e gravado (faixa 01) no CD "A Arte Maior de Rubenio Marcelo & Jorge Sales".
   

* * *

   

    GRATIDÃO DE UM DISCÍPULO
    Para Profª Maria da Glória Sá Rosa

   “Glória a Deus nas Alturas” por dar-me na vida
   A dádiva maior que um destino requer:
   Uma perfeita mestra, a mais nobre e querida,
   Sã-mágica mistura de Glória e mulher!

   Glorinha, me ensinaste as hosanas da ida
   Pelas trilhas das Letras, da arte e saber...
   Sendas de luz que ascendem aos Céus, sem descida,
   Únicos bens do homem depois que morrer!

   No entanto, mil desculpas ainda te peço,
   Pois tanto me ensinaste, e assim mesmo tropeço
   Te escrevendo este incauto soneto em louvor...

   É que não há gramática ou literatura
   Capaz de decantar-te a singular cultura
   E nem da educadora o divino valor!

   

* * *

   
   OBS:
   Todos os textos do escritor Geraldo Ramon Pereira
   encontram-se devidamente registrados.

   


Autor: ® GERALDO RAMON PEREIRA
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