MATO GROSSO DO SUL, domingo, 23 de setembro de 2018 - BOM DIA!   
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» ARTIGO

(04/09/2004)


TEXTOS DO ACADÊMICO GUIMARÃES ROCHA

   Guimarães Rocha

   Antonio Alves Guimarães (Guimarães Rocha) nasceu em Quixeramobim, Ceará, em três de julho de 1956. Reside em Campo Grande desde 1980. Escreveu 19 livros, dois deles inéditos, sendo um sobre filosofia moral. É major da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul, formado em letras, pós-graduado em Fundamentos da Educação, concentração Filosofia, e em Gestão em Segurança Pública. Promoveu em 24 de agosto de 2001, em Campo Grande, o Recorde Poético, diante de duas mil testemunhas no auditório da Universidade Católica Dom Bosco, lançando 15 livros de uma só vez, durante 15 horas ininterruptas de show musical e declamação de suas poesias inéditas.

   Recorde a vida significante

   O marco histórico de recorde poético — a Coleção Recorde Guimarães Rocha, traz essa nomenclatura psicológica de capa no intuito de atrair a atenção do livre pensador/experimentador. Aqui o escritor oferece poemas de cada um dos 15 livros lançados simultaneamente em 2001, cuja essência, em que pese maciça divulgação e distribuição, permanece algo um tanto inédito para o conjunto dos leitores.

   Livro Um: Dante Vive

   O Bom

   Suave é a brisa
   Das manhãs de luz

   O corpo todo sorri
   Ao vento brando
   Caricioso

   O coração faz música
   Sublime
   O compasso sereno
   Anuncia horas de amor

   O tempo é leve
   Para quem pensa
   O bem
   ...

   O Belo

   Harmonioso é o formato
   Do espírito que constrói
   A estética
   A partir do centro
   Das belezas interiores

   Canção e prece
   Uma e outra são
   A mesma e uma só
   Coisa em ato contínuo
   — Harmonia e ritmo
   Dos que amam a Deus
   E aos outros
   Como a si mesmos

   Belo é
   O alimento confiável
   Do coração para
   O coração
   ...

   A Luxúria
   — Sexo em vida e morte

   Aumenta o ritmo
   Cardíaco
   As secreções fervilham
   Na base
   Dos canais condutores
   Dos líquidos

   As formas realçam
   O apetite carnal

   A mente se torna
   Ela toda
   Sinuosa e febril

   E começa a gemer
   Primeiro internamente
   O que na boca
   É urro
   Língua e dentes
   Amordiscando

   O forno do útero
   A chama da ereção

   A sedução
   O jogo
   O prazer
   A fúria
   A ira
   O vazio
   A tristeza
   ...

   Avareza

   Reter domínios
   Estancados
   Na ilusão da propriedade
   Malsã
   É mal administrar
   O que Deus empresta

   Note
   O avarento não brilha
   Como gostaria

   Torna-se
   Viscoso
   Asqueroso
   Irritante
   Irritadiço
   Arredio
   Triste

   Um agressivo defensor
   De patrimônios

   Ter avareza é
   Relegar filhos e irmãos
   Embora verdadeiros
   À indiferença
   Ao esquecimento
   E ao mesmo tempo apertar
   Junto ao peito
   Um filho falso brilhante
   Que se desmancha em lama
   ...

   Livro Dois: Amor

   Minha namorada

   Há tanto tempo eu
   Procurava-te sem saber
   Que tu moravas
   Junto a minh’alma
   No tempo
   E na memória

   Eu te buscava sem saber
   Que de algum modo
   Cedo ou tarde
   A força de todas as coisas
   Haveria de colocar-te mais acesa
   Em meu caminho
   Avançando novos espaços
   Em mim

   Foste espinho
   Dor
   Calor
   Excitação

   Foste carinho
   Cor
   Valor
   Palpitação

   Foste bom vinho
   Flor
   Vapor
   Volitação

   Eu te amo não somente
   Pelo vínculo espiritual
   Da lei divina de atração

   Corpo e alma
   Move-nos o amor
   Indestrutível amor

   Eu te amo porque
   Há em ti para mim
   Uma forte razão de viver
   No mundo
   ...

   Busca interior

   Não posso mais ficar
   Dizendo que não vejo
   Deus nos meus semelhantes

   É preciso sentir
   O Criador dentro
   Da gente... viver!

   E viver é
   Ajudar pessoas
   A sentir
   Buscar viver brilhar

   O coração
   O corpo interno
   Encontramos Deus
   Em nós quando agimos pelo bem
   Dos outros

   É um desafio
   A generosidade
   Cultivarmos a paz
   Nos tornarmos luz
   No mundo
   ...

   Encanto

   Por todo canto
   Eu canto
   A minha voz
   Veloz campeia
   Nos caminhos do amor
   Dos espinhos descarinhos
   Renasci para encontrar
   Você!

   A poesia nasceu em mim
   Como nasce a flor

   A poesia que existe em mim
   Nasceu para acalmar a dor

   A poesia vida que nasce em mim
   Vive para irrigar esse jardim
   Que é você
   ...

   Sublime Despertar

   Acordar para quem ama
   É renascer no sonho lindo
   De uma sublime realidade

   O brilho indescritível no olhar
   Penetra em mim como uma faca
   A cortar-me o peito
   Aquecendo-me o corpo
   Como üa lareira nos dias de inverno
   Sonho que faz renascer
   A chama de um grande amor

   O momento sublime é acordar
   E ver a beleza em forma de mulher
   Saborear um beijo é bom
   Nos lábios carnudos
   Eriçar a pele com certeza
   É bem melhor dormir
   Dormir só para
   Acordar em teus braços

   Renascer ao sol dos teus encantos
   É testemunhar o novo a cada dia
   Nas asas de um lindo sonho
   ...

   Livro Três: Sonho

   Sonho Luz

   Embriagado de amor
   Busco a lucidez
   Do teu passo

   Faço no espaço
   Um novo traço
   E desfaço o aço
   Do sentimento

   Tu és a luz
   Do meu sonhar

   O brilho atrevido
   Do teu olhar
   É vida nova
   Nos meus pensamentos

   Sabedoria é
   Sabor

   A treva se dissipa
   A claridade existe
   Se a tua cor irradia
   No meu despertar
   ...

   Imagine e Viva

   O ato de imaginar
   É a comprovação
   Da vida como um fato

   Imagine um algo
   Qualquer
   E sinta...
   Veja como é disso
   Que a vida nasce!

   Quem sonha não está
   De todo acordado
   Mas não sonhará
   Sozinho

   Pense...
   Não mais que um sonho
   Mas todo um sonhar
   É a vida inteira se resumindo
   No ato de imaginar
   ...

   Lágrimas

   Da guerra hedionda
   Não resolvida
   No campo íntimo
   Passou-se à devastação
   Ao horror da guerra
   Na face externa da vida
   Orgulho Ferro e Aço
   No corpo e na alma

   O bicho papão já é outro
   Que papa a papa da vida
   E suga o sulco da terra
   E nós não seríamos a vítima
   Tresloucada e irrequieta
   Se o homem em vez de guerra
   Brincasse de ser poeta...

   E tornasse de alegria
   As lágrimas
   ...

   Felicidade

   A felicidade vem
   Ao nosso encontro
   Basta aspirar

   Campos verdes
   Férteis forças

   A felicidade
   Em algum dos seus recantos
   Guarda com certeza
   A natureza de mãe

   Estrela da manhã
   Santa-Virgem-Força
   Divino mistério
   De transformação

   Asas da imaginação
   Sonhos de criança
   Numa ciranda viva
   Vida d’emoções

   Nesta valsa vida
   De versos e de glória
   Minh’alma dança
   Minh’alegria cresce
   Meu amor desponta

   Quando rimos e choramos
   É a felicidade
   Que a gente encontra
   ...

   Livro Quatro: Cidades que Eu Amo

   Bonito lindo

   Eu testemunhei
   Deus trabalhando
   No município de Bonito

   Vi a água viva
   Brotando sem cessar
   Numa grandeza humilde
   Vinha o mundo sustentar

   Deus dá
   Para renovar a vida
   Calor
   Fluido
   Movimento
   Atração
   Refluxo

   A sombra
   O sol
   A luz

   Assim no céu
   Como na terra

   Se nas estrelas contemplamos
   O infinito
   Assim também o fazemos
   Olhando
   O chão
   A terra
   O lodo

   Peixes mil
   Dão bom dia
   Ao sol ao céu
   De anil

   Tu és linda
   Cidade Bonito
   Maravilhosa
   Reduto onde Deus
   Descansa trabalhando
   ...

   Três Lagoas

   Mais era pó
   Naquele lugarejo

   Mocinhas morenas
   Simples
   De alma ingênua e sã
   Sorriam da janela
   Aos forasteiros que trariam
   Novos impulsos ao lugar

   De riqueza em riqueza
   Obrigatório é relacionar
   Três Lagoas quando se fala
   Do bom e do progressista
   Em Mato Grosso do Sul

   Cresce Município
   Mas ainda ressoa
   No pó do tempo
   Que tenho presente
   Nas ruas da memória
   O ronco nostálgico
   Do motor primata
   Dum carro velho
   Levando-me pela vez primeira
   Na década de setenta
   À rua larga
   De cor vermelha
   Que me fazia entrar
   Em Três Lagoas
   ...

   Campo Grande

   Amar a terra em que se vive
   É viver de verdade
   Sentindo o tempo e o espaço
   Contribuindo com a expansão
   Do amor fraterno
   Aprimorando todos os trabalhos
   Em torno dos próprios passos

   Meu amor morena
   É esta cidade
   Cheia de encantos
   Desejos e curvas maravilhosas
   De ornamental contorno

   Mais que ruas
   Prédios e viadutos
   Parques e praças
   Carros e casas
   É gente
   Ternura
   Beleza
   Alegria

   Segredo e Prosa cortam
   A Cidade Morena
   Guardam e cantam mistérios...

   Dos desalentos que se foram
   O prosa ficou mudo
   E o segredo contou tudo;
   É que suas veias e artérias
   Transportam mais que água e sangue
   Máquinas e gentes

   A Cidade natureza
   De iluminados acertos
   Harmonizou vivências
   Com os migrantes
   De todos os lugares do mundo

   Morena é a cidade que você degusta
   Tez macia, veludo matinal
   De todas as maçãs

   Impulso vital
   Força de trabalho
   Coragem à flor do dia
   ...

   Quixeramobim Saudades

   Esta terra me pertence
   Indestrutível no coração
   Suave amor alimentado
   É certidão de posse real

   Possuir porém não bastou
   Exijo e quero cantar

   Eu nasci no pé da serra
   Com o Rio Quixeramobim
   A água bate na pedra
   E a saudade dói em mim

   Minha terra é tão boa
   Que de boa racha e sangra
   Onde o pássaro senta e voa
   Como eu
   Só quem está distante canta

   Se cantar saudades matasse
   Acalmava meu coração
   Como saudade não mata
   Vamos cantar um baião

   Balança neguim balança
   Balança pra lá e pra cá
   Eu canto a minha terra
   Eu canto o meu Ceará

   Ceará é charque
   É sempre alimento
   Do corpo e do coração
   ...

   Livro Cinco: Desconhecido Pantanal

   Chuva pantaneira

   Depois da decisão
   De precipitação
   Quem poderia impedir
   A chuva?

   No coração do Pantanal
   O jacaré guarda os olhos
   Protegendo as órbitas
   Submerge
   Nada
   Vem à tona
   E se desloca
   Pra toca úmida e quente
   Sua função agora é aguardar

   Há um profundo instinto-respeito
   Dos bichos no seio
   Da mãe-natureza

   Trocam o arrulhar
   As aves
   Pela quietação expectante
   Cada qual no seu momento
   Vital

   No tocante à chuva
   Que passa a reinar soberana
   Assessorada pelos agentes
   Do raio e do trovão
   O silêncio se faz
   Até que as águas
   Comecem apenas a correr
   Em vez de desabar

   Devagarinho os baques
   Tornam-se embalos sutis
   Da natureza

   Como querem os pássaros
   E tudo o mais que vive
   Eis de novo
   O sol e as aragens
   Nas terras baixas
   Elevações e morros
   Entranhados pelo Rio Paraguai

   A celebração permanente
   É renovada simplesmente
   Ao impulso do Divino Regente
   De todas as coisas
   
   É tanto pio
   Tanta voz de fauna e flora
   Que diante do majestático
   Meus olhos não contêm
   As lágrimas de alegria
   De minh’alma comovida
   A cantar:
   — Quanta luz! Quanta luz!
   ...

   Pantanal

   Profundidade é o seu nome

   Aí
   Tudo é provisório
   Tudo é eterno

   Tão passageira é a vida
   No paraíso
   Quanto eterna ela mesma é

   Quando se pensa no fim
   Apenas há recomeço

   Diante das leis imutáveis
   Incessante é a transformação
   Da essência chamada renovação

   Muda e sempre poderá mudar
   O coração em mim
   Mas o meu amor pela vida
   É raiz tocada pelas águas
   Revoltas
   Serenas
   Gélidas
   Férvidas
   Como no Pantanal
   Que se alimenta e morre
   Para reproduzir vidas
   No mundo

   Quando se pensa que morri
   Como o Pantanal
   Apenas me preservei um pouco
   Reservando um grande tanto
   Para o eterno renascer
   ...

   O segredo das águas

   Donde vêm as águas?
   — Do laboratório divino
   O fluido é condensado em água
   Que cai
   Sobe
   Brota
   Despeja
   Corre
   Alimenta
   Multiplica
   Substâncias

   O dom das águas é fluir
   No nascedouro
   E mesmo depois
   De represada
   Em outra fase não fugirá
   À força divina do eterno fluir

   Até o charco ainda que
   Aparentemente imóvel
   Elabora em segredo
   No calor das essências
   A vida luxuriante que depois se expõe
   Miraculosamente

   No pantanal o mistério
   Das águas
   É sublime ainda mais
   Suas temperaturas cambiantes
   Acalentam variedades
   De animais
   Num tanto que desafia
   A imponência da matemática

   A água é fiel veículo
   — Não a envenene
   Mesmo por pensamento
   Para que tal ato não se converta
   Em conseqüências desastrosas
   Acionando outras águas
   Para verterem com amargura
   Dos olhos do teu filho
   ...

   A lenda

   Boca-de-sapo
   Onça pintada
   Aracnídeos
   O medo é grande
   No imaginário pantaneiro

   Nada é mais real
   Que a lenda
   Quando a mente cria
   O fantástico factível

   O nativo
   Acordado sonha
   E se vê realizado
   No mundo mágico
   Não destrói em vão
   — Preserva naturalmente
   Mas ainda anseia o progresso
   E a evolução à porta lhe traz
   O bom mas também
   O inteligente ambicioso
   Que soma à tecnologia
   O cruel egoísmo voraz

   Que fazer para evitar
   O desastre?

   Nem o medo e o modo
   Do estacionário ingênuo
   Podem assim permanecer
   Nem a máquina fria
   Irresponsável que aniquila
   E os métodos imorais
   De exploração maciça
   Poderão prevalecer

   Há uma solução plausível
   Entre a lenda e a realidade
   Da globalização

   Tal medida é o coração
   Atuante na ação progressista
   Reverente na base do bom senso
   E o reconhecimento
   Da essência espiritual
   Que se espraia por todo aquele mundo
   — Chamada “tudo quanto é sagrado”
   Diante da qual toda agressão
   É sacrilégio
   Ou simples assassinato
   ...

   Livro Seis: Luz
   
   Tua luz-olhar

   Todas as cores
   Se tornam
   Inexpressivas oscilações
   Se comparadas ao brilho-mulher
   Do teu olhar

   Sejam mais infinitas
   As cores
   E ainda se mostram limitadas
   Diante da luz mais-que-viva
   Existente no teu olhar
   De mistérios mais que olhos
   Muito além do globo
   Ocular

   Olha
   Eu morro
   Feliz de amor
   E por amar a luz
   Do teu olhar

   Olha
   Eu vivo aflito
   Suspirando pelo momento
   De essa luz me envolver
   Num mundo distante iluminado
   Pelo teu ser

   Um mundo cuja beleza
   Vai além de toda riqueza
   Que se possa calcular

   Ali a inspiração se renova
   Tocada pelas cores inimitáveis
   Entre a prata e a dourado
   Tons multiplicados
   Ao infinito

   Um mundo perdido
   Mas encontrado pelo nosso amor
   Um mundo a que se chega
   Pelo caminho do coração
   E de onde não se precisa
   Voltar
   ...

   Novaluz

   Brilho
   Sol
   Energia
   Encanto
   Beleza
   Desvelo
   Candura
   Paz
   Esperança

   Alegrar-se com
   O que se tem
   Agradecer e buscar
   Conquista nova

   O bom e o belo
   Compõem certeza misteriosa
   Do grande Arquiteto
   Do Universo

   Lindo é no olhar
   Deslindar-se e viver
   Em amorizade
   ...

   O mistério do ar

   Oh! imponderável
   Ar que respiro
   Na mansa brisa do Pantanal

   Não parece ter
   Peso nem resistência
   Mas por admirável ciência
   Pode organizar-se
   Em vendaval derrubando
   Mil construções
   Da pedra e do aço e até
   Da mais compacta
   Rigidez do orgulho e da vaidade

   Em muitos lugares
   Os ventos conspiram
   Furacões
   Ciclones
   Tornados
   Fantásticos rodamoinhos

   Cá não é hoje assim
   Embora tal já tenha sido
   Noutros gigantescos períodos

   O ar é um mistério
   Embora eu o conheça
   Muito bem
   Nele atuando
   A bel-prazer até que Deus
   Altere o rumo

   Movo-me no ar
   Vivendo nele
   E dele haurindo sempre
   Uma nova luz

   Não polua o ar
   Poluindo-se a si mesmo
   Para que a mim não me polua
   E aos meus irmãos

   Pior que morrer
   É viver mal
   E estragando a vida
   No entorno dos próprios passos

   A beleza é mistério
   Mas a maldade
   É a própria treva
   Desvendada
   A cada maldito ato
   De sujar
   ...

   Fome

   Certos animais armazenam
   No próprio estômago
   O alimento para
   Vomitando
   Dar aos filhotes

   Leva no bico
   Uma avezinha
   Dá aos filhinhos
   O que comer

   Amor inexcedível
   Amor de Deus
   Amor instinto amor
   Ternura animal

   Veja com que desvelo
   Os bichinhos nutrem
   Acarinham
   Preservam os seus
   E se preservam em Deus

   E se distância e morte
   Surgem na natureza
   Tal se dá sem ódio
   Apenas no cumprimento
   Das divinas leis
   De equilíbrio e renovação

   Por que então
   E o que houve depois
   Com o homem?
   Racional
   Deixando à míngua os seus
   À fome penúria
   O filho do outro
   E até os da própria
   Carne

   Louco!
   Não sabe então
   Que a humanidade
   É mãe irmã
   Pai e filha
   Filhos e avós
   Entre si?

   Ai de nós que não vivemos
   E deixamos morrer em vão

   A indiferença
   A destruição abusiva
   A violência
   A desolação
   Que lamentamos
   São os rastros
   Da nossa falta de educação
   ...

   Livro Sete: Saudades

   Rios que choram

   
   Os rios não sentem saudade
   Passando sem mais voltar
   Sem pressa
   Vão trazendo
   Alimentando
   Multiplicando
   Vidas

   Jamais serão os mesmos
   Depois que correm

   Mas os rios são
   A própria expressão
   Da saudade real porém
   No sentido inverso

   Não choram de dentro pra fora
   Choram de fora pra dentro
   Depois se lançando ao mar
   ...

   Quero voltar

   Querer mais

   Saudade é isso
   Querer de volta
   O que já se teve
   Foi bom
   E mais não se tem

   Significa também
   Ter havido crescimento
   Atos de amor
   Querendo voltar

   Saudade então
   Quer dizer
   O que se teve
   Foi bom demais
   ...

   Saudades

   Nosso encontro foi
   Uma conspiração
   Das forças da vida

   Nesses impulsos
   A saudade com certeza
   Morava na intimidade

   Nisso muita explosão havia
   Ensaiando implosão

   A saudade não morria
   Em mim
   Mesmo quando ao teu lado
   Muito tempo permanecia

   Teu coração distante
   Mantendo em todo instante
   A dor calada da ausência
   Sempre tão anunciada

   Fugiste mas não lograste
   De mim obter distância

   Agora em meu pensamento
   Tão presente tu te encontras
   Que é como naquele tempo
   Quando tão perto de mim
   Teu calor delicioso quanto ausente
   A cada instante de saudade
   Bem pertinho me matava um tanto
   ...

   Viver de novo

   Lágrima rolada
   Sereno quente
   Perolando gotas
   Na face
   Dos que choram por amor
   Saudade dor

   O saudoso deseja apenas
   Viver de novo

   Saudades exprimem
   Poder e força para retomar
   A vida fluída

   O tempo é irreversível
   Mas o que é bom
   Repete-se para o bem
   Dos corações que amam

   Voltar a viver é função
   Dos que perderam de momento
   A oportunidade

   Deus no entanto
   Dá funções à natureza
   Para que tudo para todos
   Seja sempre renovado
   ...

   Livro Oito: Viver é Lutar

   Lute e viva

   Resistência só se adquire
   Lutando

   Viver é vencer-superar
   Resistências

   Viver é experimentar
   E a resistência é que dá
   Sentido
   A toda experiência

   Ausência total de resistência
   Seria o vazio
   E o vazio
   Não existe

   A tensão dos opostos
   É que garante
   O caminho do meio

   Pergunte-se ao indivíduo
   Que lastima as dificuldades
   Onde é que foi parar
   O seu sentido de valor

   Querem até de Deus
   Os tolos homens que esperam
   Pelas crenças
   Facilidades indébitas
   Querem
   Que a divina providência
   Anule por milagre
   A ação da resistência
   E a bênção da experiência

   A força só existe
   Por causa da resistência
   Se nada lhe resistisse
   Pra que haveria potência?

   Afinal o prazer da conquista
   Não é o vencer de resistências?

   Só é forte aquele que venceu
   Muitas dificuldades

   Sem obstáculos a vida
   Só produziria
   Fracos e covardes
   Ou natimortos

   Queira viver e aceite
   O desafio de lutar
   Ou em tristeza se deite
   Esperando a vida passar
   Com a frouxidão a lhe asfixiar
   Enquanto teme a dor lhe alcançar

   Aja pra não ter que reagir
   Pois preguiça é facilidade pequena
   Preparando uma surda gangrena
   Com lindos cantos de seduzir
   ...

   Vampiros

   Saiba

   O comodista é
   Um lutador

   Luta desesperadamente
   Pra viver sem nada fazer

   Trava batalhas cotidianas
   Pra justificar
   Um modo vampiresco de existir
   Sem devidamente se esforçar

   Grandes ladrões trabalham
   Durante a maior parte
   Do dia e da vida
   Pra encontrar ou desenvolver
   Maneiras de mais abusar
   E abusar muito mais
   Buscando locupletação

   Ação de completos loucos!
   Trabalham mais que o comum
   Dos trabalhadores
   Cavando com tenacidade para si
   Um abismo de dor

   Deus nos cala
   Na consciência que não se cala
   ...

   Fadiga ascensional

   Canse
   Corpo e mente ociosos
   Anunciam
   Insônia
   Viciação
   Desgosto

   Canse
   A satisfação íntima
   De haver se esforçado
   Ao máximo da capacidade
   De momento
   Dá a você alegrias
   Do prêmio do dever cumprido
   Da consciência tranqüila

   Os que evitam a todo custo
   O cansaço
   O incômodo
   O bom serviço útil aos outros
   Tornam-se
   Surpreendentemente mais
   Irritadiços
   Moles
   Desconfiados
   Amargos
   Sofredores

   Canse
   Ninguém crescerá
   Se não se habituar a ir mais além
   Um ponto acima
   Do limite atual

   Por superar limites
   O homem descobriu
   A capacidade ilimitada
   Da própria mente

   Canse
   Se agirmos somente
   Na esfera da acomodação
   Aos poucos nos descobriremos
   Limitados
   Medíocres
   Estacionários

   Os que mantêm
   Corpo e mente ocupados
   Na existência útil
   Simplesmente encontram
   Sem precisar da elaboração
   De grandes equações
   Da ciência humana
   — As razões e soluções da vida
   A certeza das coisas em Deus
   Todo um universo amigo
   Abrindo-lhes novas portas
   A cada passo desvendando
   Caminhos para o infinito
   ...

   Espada

   Poucos conhecerão
   Todos os significados
   Da arma multimilenária

   Desde antes de Cristo
   Encantava povos
   Gerando arquétipos
   Para as civilizações

   Temível extensão
   Do orgulho e da maldade
   Crime
   Iniqüidade
   Por tantas vezes
   Pseudovitoriosa
   Em conquistas malsãs

   Mas também
   Protetora
   A postos pra garantir
   O bem
   A defesa
   De direitos

   Irosa
   Airosa
   Símbolo de honra

   A estética militar cultuava
   Os duelos com espadas afiadas
   Ao vencedor uma espada

   Como
   Quando
   Por que
   Em que casos
   E até quando utilizar
   A espada
   Constituem ciência ainda a ser
   Longamente aprendida

   O pensamento agudo
   A língua ferina
   São formidáveis espadas
   Desafiando o tempo
   ...

   Livro Nove: Encanto

   Apenas um homem

   Veja quantas flores
   Guardo num recanto
   Do meu sonhar puro encanto
   Pra lhe ofertar

   Flores cantantes
   Vivazes expectantes
   Um pouquinho tímidas
   Em seu jeito de cantar
   Cuidando não prejudicar
   Momentos de aceitar
   Pois é muito triste
   O ato de rejeitar

   Quietinho fico por dentro
   O silêncio transformado em arma
   Defensora de um grande amor

   Mas à natureza peço
   Trabalhando para tanto
   — Em mim não haja quebranto
   Quando você vier
   Com o fervor da alma feminina
   Requisitar impetuosas ondas
   — Arrojos de um sonhado amante

   Viver para o homem é também
   A luta pela compreensão
   Da interioridade da mulher
   — Um oposto que o completa

   Precisa pois o elemento
   — e isso eu também quero
   Conhecer o exato momento
   Da necessária inspirada
   Transformação
   Nas horas em que o romântico
   Precisa dar um salto quântico
   Quando então as fantasias somem
   Pra restar ali somente um homem
   ...

   Perfume lilás

   A tua presença-cheiro
   A tua presença-cor
   É também perfume
   Invadindo secretamente
   O meu total ambiente
   Secreto corpo-da-mente

   Aroma-suave efeito
   Cortante estimulante
   Transição sóbrio-azulada
   Para o emocional
   Arroxeado-violeta
   Jogando-me a um novo céu

   Beleza indizível
   Em ti os odores são amores
   De variados tempos multicores

   A tua presença me comove
   ...

   Funeral da beleza

   Ai de nós
   Que desejamos a beleza reter
   Aprisionar

   Aprendizes do amor
   Nos especializamos
   Em asfixiar

   A beleza retida
   – Deixando de fluir –
   Tem a propriedade ingente
   De tornar-se feia
   Instantaneamente

   Harmonia contida
   Num cercado
   Faz loucura sem voz
   Na calada da noite
   Sombrio sentimento

   Ame e passe
   Ame e se preciso deixe
   Partir

   Não tema a traição
   De traído só há
   Aquele que se trai

   Não há traidores de outrem
   Por toda parte muito se vê
   Aqueles que traem a si mesmos

   Com medo de perder
   O que nunca se tem
   Como propriedade
   Traindo o próprio amor
   O ignorante intenta aprisionar
   Aquilo-espiritual que deseja
   Transformar em objeto

   Funeral do amor

   É como ocorre
   Às grandes verdades
   Encerradas num livro
   Cristalizadas em dogmas
   Mas não experimentadas
   Não vivenciadas com humildade
   Tornam-se fantasia oca
   Mediocridade arrogante
   Veneno paralítico
   ...

   Teu nome Rosa

   Rosar é fazer
   Corar
   Tornar-se cor-de-rosa

   Rosear é corar

   Para mim
   Tornou-se essencial
   Rosa praticar
   Corei não de vergonha
   Corei formando em coro
   Os pensamentos-coral
   Com várias vozes de amor
   Que trago no coração
   Grandes formações de coral
   Nos mares de minh’alma

   Pra resumir o canteiro de
   Cores — o coral
   Quero cultivar um mar de rosas

   Por entre muitos afagos
   Destacar uma Rosa
   Sorrindo aromatizando
   Na vida um jardim
   ...

   Livro Dez: O Policial e o Poeta

   Policial poeta

   Vi olhando
   Por todo o universo
   Que em nenhum lugar havia
   Tanta secura e distonia
   Que não coubesse ao menos um grão
   Da aventura mental coração poesia

   Eis que encontrei
   Pelos campos insegurança
   Mas ainda esperança
   De tudo melhorar
   Podendo haver ternura
   No ato de policiar

   Levemente mas com firmeza
   Sem perder a sutileza
   Pleno de autoridade mas educado
   Repressor do mau pendor
   Portador de arma temível
   Sem desfazer o olhar gentil

   O tempo passa e não passa
   A obrigação de policiar
   Em busca de combater o mal
   Recruta-se um novo policial

   E se o crime se agiganta
   Mais alta é a voz que canta
   O pensamento em Deus nunca morre
   Se a poesia amiga nos socorre
   ...

   Assalto de corações

   Mãos ao alto!
   E também o olhar
   Pra levantar o coração

   Quero vencer a indiferença
   Do olhar a dureza
   E roubar corações

   Tenho para este assalto
   Uma arma infalível
   — A transparência de intenções

   Estou certo do êxito
   Pois só pretendo obter
   O que se quer entregar

   O assalto amoroso é assim:
   Há saltos de amor
   Do coração para o coração
   ...

   A greve da violência
   (a morte súbita)

   Agora no futuro
   Do homem evoluído
   Também pelo coração
   — Eu — a Violência —
   Entrei em greve
   Por tempo indeterminado

   Chocada por não receber o salário
   Da cólera irritação vaidade louca
   Orgulho ferido malsão

   Pasmada por já não ver
   Frutos prevalecentes
   De abuso maledicência

   Deixarei de acionar nervos
   Tingir de sangue veloz
   As veias incautas
   Retesadas

   Não haverá doravante
   Banhos de sangue

   Agora um banho de luz
   Barra-me o impulso insano
   Da destruição

   Fiz greve-relâmpago
   Fui mortalmente ferida
   Por um raio de amor

   No último suspiro vi
   Policiais guerreiros da paz
   Morri
   ...

   Policial Professor poeta

   No olho do crime
   O centro de um furacão
   Aquele olhar bandido
   Anunciando a morte

   Alegava porém o culpado
   Apesar da evidência
   Ao ser interrogado
   Total inocência
   Quanto ao crime praticado

   Hipocrisia cruel
   Chaga da humanidade
   Não fosse o sentimento cristão
   Segundo uma furiosa opinião
   A morte lhe cairia bem

   Vida e morte são apenas dois
   Lados do mesmo viver
   Morte não lhe desejo pois

   Pena máxima lhe dou
   E não a morte vã

   Condeno-lhe ao trabalho
   De auto-regeneração
   A educar-se por toda a vida

   Hei de acompanhar-lhe como irmão
   Pelas veredas da educação

   Jamais seu cúmplice
   Nunca seu torturador
   De modo algum seu carrasco
   Mas simplesmente
   Seu professor
   ...

   Livro Onze: Rio

   Tantos rios
   (minhas vidas)

   Minha vida é medida
   Por muitos rios
   Cada rio é medida
   Para as minhas vidas

   Houve os verdes rios
   Acalentando percepções
   Nos espaços da infância
   Nos leitos límpidos de água pura
   Nos paninhos limpos do leito humilde
   Maternais canções de ninar
   Tocando de leve o pequeno coração
   Abrindo os caminhos da poesia-vida

   Os trigais da adolescência
   Foram idades de ouro-flor
   Desabrochar-esperança
   Num tempo juvenil
   Complexos de aceitação-rejeição
   Mistérios da sexualidade

   O rio da juventude
   Ria das possibilidades
   Às vezes ria até da prudência
   E do juízo bom-senso
   Explosão caudalosa ação
   Façanha realização
   Impetuoso rio a ser contido
   E entendido para finalmente
   Ser liberado com responsabilidade

   Hoje a colheita madura
   Encontra um novo jardim
   De renascenças
   O futuro já chegou
   E a velhice agora se chama
   Palavra morta

   Amanhã o anjo da vida futura
   Trará flores preciosas de jasmim
   Anunciando vida nova para os meus filhos
   Quando eu for ao chão realimentar a terra
   Quando eu for guindado à memória-luz
   Na gratidão dos familiares
   Movendo-me em profundo silêncio
   Retornando ao tempo do Rio Universal
   Que alimenta todas as coisas
   ...

   Rio Campo Grande MS

   Campo Grande MS-rio acima
   Do cimento-concreto
   É também força mística
   Canto do meu canto

   Cidade minha
   E dos corações que a amam
   Indefinível beleza
   Elevando energia
   Da noite e do dia

   Dos movimentos harmoniosos
   Das construções silenciosas
   Os enigmas tornam-se êxtase
   Clareza dos meus sonhos
   Vidência da minha realidade

   Campo Grande é um rio de amor
   Em Mato Grosso do Sul
   ...

   Rio Formoso

   Rio de minha vida
   Irradiante de luz e amor
   Formoso é o seu espaço
   Gracioso é o seu leito
   Grandioso é o seu mistério

   Seu valor é mais que Bonito
   Suas espécies são mais que
   Pintado
   Piraputanga

   Esmeraldino
   Ouro que sustenta
   A Serra da Bodoquena

   Sua preservação
   É graça da gente maravilhosa
   Desprendida do vil metal
   Cultora de elevados hábitos

   Espírito de conservação
   Tratando as coisas da vida
   Com dedicação amor-ternura
   Sul-mato-grossense candura
   ...

   Deslindar-se

   Pode ser a perda
   Da razão do exato momento
   No êxtase
   Do existir

   Alindar-se
   É dar razão ao
   Embevecer
   No perfume
   Do amanhecer

   Pelas ruas e praças
   O sol na nossa cara
   Expondo beleza emoções
   Faz a nossa existência
   Transcender o tempo

   Abraço infinitamente
   Identificando-me
   Na energia cósmica
   ...

   Livro Doze: Contrastes

   Sínteses do contraste

   O quente-frio do meu sonho
   É o acre-doce da sua
   Presença-distância

   A brusquidão-suave
   Do pensamento-matéria
   Arrasta-me estacionado
   Na solidão-multidão
   Da morte-vida sã-doença
   Pela falta-preenchimento
   Que seu sorriso-triste
   Ignora-provoca
   No meu tempo-sem-tempo

   Ah! Que bem-malvado
   Faz-me-desfaz
   O seco-suco
   Do seu beijo-distância...

   Mas ainda me resta-preenche
   O vazio-recheado
   De um deserto-mareado:
   — Um olho-seco-que-chora

   Se o tenho-não-tenho alternante
   Do meu desejo-indiferença
   Não faz-desfaz
   A morte-vida
   Da saudade-encontro
   Do sem-si-consigo
   Alegra-me a tristeza
   Ainda que só-tudo isso
   De saber-ignorar
   Que você parte-volta

   ...E ainda que seu corpo-mente
   Vá-ficando
   Resta a plenitude
   Do velho-novo ser-tão-amor
   Que curto-longamente...
   ...

   O elemento da guerra

   Disse o desavisado
   Que a guerra faz parte
   Da natureza humana
   Como se fosse
   Um quinto elemento
   Misturado à
   Terra
   Água
   Fogo
   Ar

   Mas a guerra que se respira
   Tão somente é desvio hediondo
   Não mais que veneno ácido
   Corroendo processos de paz

   A utilidade da guerra
   — Porque traz avanço das ciências
   Das artes e dos procederes
   Da cidadania
   E o despertamento de consciências —
   Não deve levar a entendê-la
   Como elemento
   Ou ingrediente natural
   Necessário à vida em si

   A luta armada precisa ser
   Tão passageira quanto
   O estado de ignorância

   É por isso que se pode
   Assegurar que a sede de sangue
   Daquele assassino que se afasta
   Rapidamente
   Não será aplacada em nenhum dia
   Mas asfixiada na própria dor
   Quando todo sonho maldito
   De dominação malsã
   Se desfizer na poeira do tempo
   Batido pela evolução humana
   ...

   A bênção das cores

   Todos estamos abençoados
   — Uns com as cores
   — Outros com as dores
   E somos uns e outros
   A um só tempo
   De todas elas portadores

   Das dores bem vividas
   Sempre surgem as cores

   Das cores mal-havidas
   Pelos seus relapsos guardadores
   Sempre resultam atrozes dores

   O amanhã sempre se renova
   Trazendo de volta na vida
   As dores e as cores
   De todo o sempre
   E no final de cada ciclo
   Infinitos amores
   ...

   Intelectuais ao vento

   Dignidade é fibra positiva
   Diante do contrário negativo

   Lá fora sopra o vento
   Como se não soprasse antigamente
   É pena que pro lado
   Que o vento sopra
   Alguns intelectuais
   Quedam-se

   O próximo passo do cair
   Sem resistir
   É o arrastar-se
   Indefinidamente
   ...

   Livro Treze: Mofo

   Esquemas do ranço

   Compra o voto
   Com mil artimanhas
   Mentindo iludindo
   Ou na caradura
   Pagando moedas exigidas
   Por pessoas que valem sempre
   Menos que o preço
   Pelo qual se vendem

   Então no jogo do poder
   A peça humana incluída
   Em esquemas de manipulação
   Afeiçoa-se às manobras da viciação

   Criar dificuldades
   Às claras
   Pra vender facilidades
   Às escuras

   Fingir desprendimento
   Para melhor ocultar
   O surrupio

   Mentir e trair
   Pra garantir um posto
   Que de trabalho honesto deveria ser
   Mas feito do crime uma área de lazer

   Depois os projetos

   — É corrente hoje no Brasil:
   Pra governos os preços
   Dos produtos e serviços
   São criados com feições redobradas
   Prevendo dificuldade de pagamento
   Expectativa de “superfaturamento”

   Virou rotina
   A ser desmantelada:
   — O órgão público paga mais
   Para os que fazem menos
   — Licitação marmelada

   Essa problemática
   Surge embaixo
   Entre a população que por isso
   Acaba tendo tratamento indigno
   Diante do seu modo menos digno
   De proceder
   — Um empresta dinheiro a outro
   Exigindo “juros bancários”
   Em troca do “favor”
   — Não se respeita
   Acordos e contratos
   — Quem paga por algo
   Quer receber sempre “algo a mais”
   Em chantagem diante do favorecido
   — Quem vende algo
   Quer entregar menos do que devia
   Diante do valor recebido

   Trabalhando menos e querendo mais
   Sonhando com o prêmio do nada fazer
   O rebelado contra o amor de Deus
   Embolsa o salário do orgulho preguiça
   Encontrando o inferno
   No interior de si mesmo
   ...

   Apologia do Não
   (ao candidato a ladrão)

   Não deixe que a ocasião
   Desperte em você um ladrão

   Não permita que a necessidade
   No jogo da oportunidade
   Funcione como anestésico
   Adormecendo a censura interna

   Saiba
   — As necessidades são menores
   Quando são maiores
   A modéstia
   A humildade
   O desprendimento

   Aprenda sobre o necessário
   E não exija o desnecessário

   Três vezes não queira
   Desfrutar da vida
   Mais que os seus irmãos

   Cem vezes não queira
   Oprimir o próximo
   Buscando garantir pra si mesmo
   Mais liberação a consumir-se
   No avivamento de paixões criminosas

   Mil vezes não queira:
   — Assassinar a boa vontade
   Desprezando iniciativas alheias
   — Promover intrigas
   Destruindo oportunidades
   Da vida para os semelhantes
   — Desfilar em vão
   Pelos palcos iluminados
   Do aparente triunfo da ambição
   Enquanto na realidade
   Da vida interior
   Estará apenas corroendo a mente
   No ácido da ilusão
   Pra depois
   Abismado em confusão
   Mal freqüentar
   Um precioso caixão
   ...

   Olho frio

   Escrevo sobre uma narrativa
   Que ouvi há muito tempo

   Era um campo nazista
   Um dos olhos do comandante
   Era de vidro

   Esse chefe surpreendeu
   Um menino que fugia
   Prometeu porém ao pequeno
   Liberdade se adivinhasse
   Qual dos olhos
   Em sua temível face
   Era o verdadeiro

   O garoto de imediato
   Apontou o olho vivo
   Ganhando com isso
   O direito de fugir

   Intrigado
   O representante ariano
   Indagou do rapazinho
   A razão de tanta facilidade
   Identificando o olho de vidro
   — Se a imitação era perfeita

   O jovem disse simplesmente
   Ao militar insano:
   — O seu olho de vidro
   É mais humano!...

   Era um olho vidente
   — E um olho de vidro
   Sem vida mas exibindo
   Melhor estética se comparado ao outro
   Que enxergava mas não via

   Há gente
   Que a gente assusta
   Só de botar o olho
   ...

   O Mofo

   Mofo é algo além
   De um agregado deteriorando
   A peça principal
   — Fungo vivendo na matéria
   Que ele mesmo decompôs

   Mofo constitui
   Muitas formas vivas
   Em estado parasitário
   Lentamente incorporando
   Em si mesmas
   Os corpos de suas vítimas

   Sabendo que o mofo deseja
   Que tudo se transforme em mofo
   Tenhamos cuidado pois
   Pra não vivermos e agirmos
   Ininterruptamente sob controle
   De outrem

   Pra não descobrirmos
   Tomados de horror
   Que o nosso livre arbítrio
   Foi tomado pelo bolor
   E a força de vontade
   Criou mofo
   Embolorou
   ...

   Livro Quatorze: Geração Iludida

   Começa melhor depois do fim

   Quais dentre as gerações
   Permanecem mais iludidas?
   — Os mais jovens corações
   Ou as mentes mais antigas?

   O saudosista avalia corretamente
   Que outrora havia mais
   Noção e prática das crenças
   E valores de raiz
   Mas por vezes se esquece
   De que a boa moral
   E os bons costumes
   Têm passeado pela história
   Isolados na elite espiritual
   Do bom coração
   De famílias minorias
   Ou nos santos homens contados
   Nos dedos das mãos sozinhas
   Solitárias nas boas ações

   Assim o bem existiu sempre
   Mas ainda a ser experimentado
   E por fim largamente adotado
   Na família humana como um todo

   Por outro lado antigamente
   Prevaleciam grandemente
   Os preconceitos de casta raça cor
   Família crença origem pobre nobre
   Escravidão explícita
   Sujeição a toda peste doença
   Massacre morte por força bruta
   Torturas mil como ainda há
   Um tanto por toda parte
   Onde escasseia o respeito
   Aos nossos humanos direitos

   Hoje enquanto muitos incautos
   Anunciam o fim de tudo
   Alegando total degeneração
   Despedaçamento geral
   Por irreversível punição
   Condenando arrogantemente
   O Projeto Divino para o mundo
   Temos neste capítulo
   Apenas natural perturbação
   Antecedendo a grande arrumação
   Que nos devolverá a linda casa-planeta
   Terra do nosso amor
   Muito mais arrumada e bela
   Graças à geração nova que nos beija

   Os nossos jovens de agora
   Sentem sofrem transformações
   Sagrados impactos benéficos
   Atordoando-se um pouco
   Mas não permanentemente
   No mundo de acelerada renovação

   Em vez da perda anunciada
   Muito comum se faz por toda parte
   Uma salutar ocorrência:
   Ao simples contato com a juventude
   O antigo viciado que já nem sonha
   Fica de repente corado de vergonha
   Pois embora sendo mais velho
   Tinge logo a cara de vermelho
   Ao receber o simples bom conselho
   Elementar porém esquecido
   Proferido por jovens imberbes
   E belas mocinhas inexperientes

   Tantos conceitos que repetimos sem saber
   Novíssimos heróis nos ensinando a viver
   ...

   Vida aos pequeninos

   Cerquemos de cuidados
   A criança

   Ela é a certeza
   Da vida renovada

   No ar um choro

   Que tempo terá?

   Que turbilhões produzirá?

   Qual o tamanho do rio
   Que durante toda uma vida
   Chorará?

   Que informação secreta haverá
   Na mente ganhando lucidez
   A cada passo do vacilante caminhar?

   Preservemos o invisível brotinho
   Da dignidade humana
   Encerrada na infância
   Para que não se cultivem
   Ocultas flores mentais
   De venenoso teor

   A criança devolverá ao mundo
   A sofrida agressão

   A pedra danificada mas inserida
   Na base da construção
   Comprometerá as estruturas
   Provocando em curto prazo
   Uma demolição social
   ...

   Concepção

   Gerar é o verbo incessante
   Do ato contínuo permanente
   De todos os seres vivos

   Geração microscópica
   Macroscópica
   Reprodução ininterrupta
   É o procedimento sem fim
   Das vidas sustentando vidas

   Gera o ventre da terra-mãe
   Matriz natural geratriz
   O pensamento gera
   Todos somos pai e mãe

   Em mim o pensamento a seu respeito
   É geração de amor

   É o seu corpo
   Despertando-me paixões
   É a sua alma
   Traduzindo-me
   Inexcedível ternura

   Geração doçura
   ...

   Amor vomitado

   Estou disposto a morrer
   Pregando a fraternidade
   Em busca da liberdade
   Pelo direito de amar

   Vou gritar pela vida
   Do sonho por um mundo risonho
   Viver é lutar

   Se o não amar é morrer
   Há mortos-vivos soterrados
   Em areias movediças

   Germes pusilânimes
   Do mal com seus ditames
   Corroendo carniças
   Cadáveres robotizados

   Ímpios mastigaram
   Ventres vazios
   Orgulho do terror

   Tiranos vomitaram
   No frio chão
   O sorriso de amor
   Dos meus irmãos de coração

   Estou disposto a morrer
   Pregando a fraternidade
   ...

   Livro Quinze: Transformação

   Amor e ódio

   Ódio é sentimento oposto
   Que dá ao amor razão de ser

   Sabe muito amar
   Aquele que consegue pesar
   No íntimo dos sofrimentos
   As conseqüências dolorosas
   Dos atos e fatos odientos

   A capacidade dos sentimentos
   Tem uma só raiz
   Pode-se odiar
   Tanto quanto amar

   O dom da escolha
   É uma riqueza que se tem
   Mas a fortuna desperdiçada
   É falência anunciada
   — Retirar-se-á do que não possui
   (O portador de falsos bens)
   Até aquilo que parecia ter
   E dar-se-á ao que tem mais
   (O portador de valores verdadeiros)

   Apesar da ligação direta
   Entre os sentimentos
   Contrários entre si
   E da confusão que se faz
   Amoródio
   O amor para existir
   Não depende de odiosas mesclas

   O homem a caminho da luz
   Desespera por vezes
   Atônito em meio ao torvelinho
   Das paixões dominadoras

   Uma realidade vigora entretanto
   Em torno e no rumo da qual
   Gravitam e se dirigem
   Todas as coisas da existência
   — O amor da Fonte Deus
   Contra o qual jamais haverá
   Competente resistência
   ...

   Metamorfose

   Riu tanto que chorou

   Saudável em excesso
   Saciou-se por demais
   Até adoecer

   Quer tão bem ao outro
   Mas tão bem mesmo
   — Que enche o saco!

   É muito engraçado
   Mas tão engraçado mesmo
   — Que dá nos nervos!

   Bonita linda
   Uma verdade altamente sonora
   — Convencida disso
   A bela enfeou-se na hora!

   Doce
   Extremamente doce
   Afinal enjoando por demais

   O rio se fez tão forte
   Mas impetuoso mesmo
   Que os excessos levaram
   À perda do contato
   Com a condução dos canais
   Pra começar a fazer lama na terra

   Muito rico
   Na posse dos bens materiais
   Vencedor dos jogos do poder
   A ponto de empobrecer
   Perdendo de vista os bens morais
   Chegando à falência espiritual

   Ele era pura fineza
   Mas quando o refino
   E a apuração
   Fizeram-se mais hipocrisia
   Pifou diante da ação menor
   Da primeira grosseria
   A ser enfrentada
   Quebrou feito cristal
   Pra não mais recompor

   Era de tão excelente procedência
   Originalíssimo cem por cento
   Que quase morreu um menino
   Depois de comer aquele alimento

   É tão lavado e isolado do mundo
   Que nem tem resistência

   Os fariseus modernos
   São tão bons
   Bons por demais da conta
   Excluindo das oportunidades
   Aqueles que julgam
   “Infiéis” ou “impuros”

   Desta vez a raiva
   Diante dos que promovem
   As transformações construtivas
   Da inteligência e do sentimento
   É muito maior
   E mais sofisticada

   A crucificação agora se dá
   No gólgota da indiferença

   Agora a morte a Jesus
   Já não é na infamante cruz
   Mas simplesmente apagando a luz
   No ambiente dos corações

   Ai de quem chorará
   As conseqüências do ato nefando
   De alimentar nas massas humanas
   A ausência de compromisso pessoal
   Nos trabalhos da evolução
   ...

   Faltoso

   Dinheiro faz falta

   Incrível como trabalha
   A maioria das pessoas
   Que quase não têm dinheiro

   Martirológio
   Martírio ilógico
   Quem muito labora
   Constantemente chora
   A baixa remuneração

   Falta mesmo é sabedoria

   A saída desse drama
   Coragem é que se chama
   Para erguer mais alto a chama
   Da compreensão

   Pense que Deus pensou em tudo
   Para que as suaves alegrias
   Jamais nos faltassem
   Ao exigente coração

   Mas muito nos rebelamos
   Insatisfeitos sempre estamos
   Especialmente quando é pouquinho
   O quinhão que a nós nos toca

   Curiosamente
   Se nos bastasse o necessário
   Sobraria espaço da nossa mente
   Para as coisas mais altas
   A nos pedirem especial atenção

   O problema da ignorância
   É não enxergar motivos
   Para imortal felicidade
   Apesar da imensidão
   Da natureza gentil
   E da generosidade divina
   Cercando-nos de fortuna a mancheias
   O ingrato coração

   Veja o caso por exemplo
   Deste poeta humilde
   Que faz do tempo um templo
   Para escrever palavra que salta
   Da mente pra se tornar canção
   — Vou gastando paciência
   Mas ganhando experiência
   Como se fosse a mais alta
   E soberba remuneração
   ...

   Rio dos julgadores

   Faça o favor de esperar
   Até eu me transformar
   Para só então julgar

   Como a transformação
   É processo contínuo incessante
   — E se você não vai ajudar
   Volte sempre depois de amanhã

   Ouse sofrer com os erros
   Levante-se após a queda
   Com maior segurança
   Mova-se partindo dos desacertos
   Para acertar afinal
   
   Vou experimentando
   Por entre um sistema
   Cada vez mais complexo
   Mas continuo perplexo
   Diante dos que se detêm
   A julgar todo o rio
   Examinando apenas amostra
   De um trecho poluído

   Saiba que toda pessoa
   É um rio mutante
   — De tanto mudar renovando
   Ou apresentando faces inéditas
   Vai aos poucos purificando
   Um jeito de ser a que chamamos
   Atitude da evolução
   ...

   
   


Autor: ® GUIMARÃES ROCHA
E-mail: GUIMARAESPOLICIAL@GLOBO.COM

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