MATO GROSSO DO SUL, sexta-feira, 16 de novembro de 2018 - BOM DIA!   
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» ARTIGO

(03/09/2004)


TEXTOS DA ACADÊMICA LUCILENE MACHADO

   

NO SILÊNCIO DAS RETINAS

    Hoje nos deitamos ao mesmo tempo. Há dias em que me deito antes só para ter o prazer de fantasiar, enquanto tu caminhas pela casa e organizas trabalhos dos dias vindouros, disponibilizando tempo para nossos passeios com o cão, nosso olhar estrelas no terraço, cinema, lentas danças, caminhadas pelas avenidas floridas (nosso amor é como cacho amarelo de jasmim), refeições luminosas e tantas outras coisas tão nossas que ninguém saberá senti-las. Depois vem aquela sensação quase infantil de ouvir teus passos se aproximando, sentir teu cuidado ao me cobrir, a ternura doce ao beijar meus cabelos e ajustar-te ao meu corpo, na certeza de não atrapalhar meu sono. E eu finjo, finjo dormir, só para estar desprovidamente entregue aos teus cuidados.
   Logo, sinto tua respiração na minha nuca e tento resistir, mas nenhuma promessa de sono seduz mais que o toque do teu pé por baixo do lençol. Uma intimidade que me revira, e eu vou me encostando, me roçando nos teus dedos, corpo manhoso e feiticeiro num jogo secreto de quer-não-quer, vem-não-vem, faz-não-faz... Sinto cheiro de terra, de algas no fundo do mar, noite se desintegrando, átomos dispersos e os calmos despojos do amor. Para sempre as nossas mãos amalgamadas. Para sempre as promessas. Chuvas secretas de teus lábios, és meu, sou tua.
   No entanto, em dias como hoje, quando tudo foi premeditado, fica essa desarrumação. Garrafa de vinho embaixo da cama, taça embaixo da torneira, pé de sapato perdido, cadê a roupa? E a gente transpirada, com preguiça de tudo, meio rouca, meio mole... e tu, como um menino, encolhido nos meus braços, transpirando cansaço, sonhando o sonho dos bem-aventurados. Aqui neste quarto tecemos o fio de nossa história. Cada célula é um poema. Amo-te tanto, que tento lembrar uma canção de ninar para te aninhar no meu abrigo. Amanhã quando as flores se abrirem ao orvalho das pétalas, na hora em que as calêndulas se colorirem com um amarelo-luz e o sol perfurar os telhados das casas e entrar pela nossa janela, tu te levantarás da cama devagar e com olhar de silêncio tocará a porta da minha alma. Sempre ouço a voz do teu coração, mesmo quando ela tem de escalar o vento dos oceanos e esticar-se toda no infinito para me fazer acordar deste sonho.

   

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COREOGRAFIA INVISÍVEL

    Não sei o que pensam os pássaros quando, nas tardes de sábado, dormem sobre os fios de alta tensão. Os pássaros têm sábados frustrados. Todas as coisas que podiam ter sido, não foram. Também não sei o que pensam os homens enquanto dormem os pássaros pelos sábados adentro. Sei que os homens têm insônia e fecham janelas. Instituem a escuridão, apagam as palavras e desintegram-se em longos silêncios. As coisas que podiam ter sido? Não têm importância. Em qualquer tempo há fios de alta tensão e pernas de mulheres com sangue fervendo. Tantas que chegam a ser ignoradas. Despojos do amor? A desproporção criou homens-deuses vulgares e divinizados. Criou profissionais especialistas em argumentação. Braços em torno do pescoço, bocas de estátuas coladas e música para preencher os vazios. Mas o objeto deste texto é o amor. O sujeito também. Amor em construção. Quatro paredes lentas e penosas do lado de cá do horizonte onde pretendo improvisar ninhos e desprender pássaros do sonho.
    Mas o tempo urge, razão pela qual me deito, mesmo, à terra. Todas as coisas se revelam e se negam continuamente. Finjo não perceber. Repouso minha cabeça sobre o seio da ignorância. A metafísica rodeia os meus limites. Há coisas se encontrando também fora de nós. A ficção quer escrever minha história. Que imagem faria? Oh! vida, esse tempo desperdiçado dentro do olhar. Minha única tristeza não é triste. Incongruência? Limpe os olhos que este texto tem a loucura da forma. Plasticidade e linguagem. Os literatos, os eruditos e eu, e nada de concreto. Que sabemos sobre os pássaros frustrados sobre o fio de alta tensão? Somos carentes de amor, sexo e sonhos. Somos carentes de sabedoria. Um dia Deus apareceu homem entre os homens e o crucificaram. Daí meu medo de existir. Daí esse silêncio áspero de Sábado. Meus conflitos me apequena. Gritos surdos por dentro. Somente as palavras são capazes de secar as lágrimas. Palavras e dedos. Dedos escalavrados pelo tempo percorrendo traços e linhas do meu rosto. Doce ternura para quem partiu todos os espelhos e já não mais se reconhece. Eu que tenho em mim o movimento dos outros, o conhecimento dos outros, o idioma dos outros, a reação dos outros... eu sulcada pelos outros e estrangulada pelas minhas próprias mãos. Só o amor me salva. Só o amor produz essa lentidão sagrada de observar pássaros cheio de vôos. O amor sabe de cor os vôos e os movimentos. Conhece o lugar, o istmo onde os homens choram. Os homens são belos, sobretudo, quando choram. Homem-mar numa ilha de chuva. Uma imagem onde me completo. Não totalmente. Uma mulher satisfeita traz em si um ponto final. Eu tenho vocação para reticências e excessos. Amanheço e todas as bocas se abrem. Famigerada fome de idealismo. Não nos basta a vida?
    O pássaro olha com todos os olhos mas nada avista. Tem os sentidos esquecidos. Esqueceu-se de quem era, de como era... só sabe cantar, cantar. Se respirasse uma idéia, tornar-se-ia gente com todo niilismo inerente. Gente que nega qualquer coisa a qualquer hora. Que nega a palavra, a raça, as idéias.. gente que nega a cruz, a história, a colonização... gente que ignora as tardes de sábado quando discretamente um pássaro voa estabelecendo ligações entre as coisas visíveis.

   

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SEQÜÊNCIA DE SONHO

   
    Por hoje, bastava-me uma garrafa de vinho para embriagar-me. Espírito dionísico para beber um sonho. Mas o cálice da realidade impede-me conquistar a eternidade do céu de uma boca ou de qualquer paraíso feito de suspiros e palavras. A razão não compreende a emoção. Embates e embustes. A paixão vale pelo silêncio que engloba. Vale por tudo que não conseguimos dizer, por tudo que não conseguimos perguntar, porque muitas vezes as perguntas não são possíveis.
    Debruço-me sobre o parapeito de uma janela que não me pertence. Nada me pertence. Poucas pessoas no mundo são tão despidas quanto eu. Tenho uma nudez que fere. Uma nudez que quer ser dividida. É sublime doar um pedaço de si. Uma mutilação que constrói sonhos. Quantos sonhos seriam necessários para desvendar o mistério de um homem? Talvez nenhum. Podem-se desintegrar os átomos de um homem com atitudes. Com algum impulso de sangue latino podem-se brindar belas descobertas. Mas amor é outra coisa. Amor é o nome que eu persigo e pelo qual me perdi algumas vezes. Fui infeliz em todas as felicidades. Minha alma é uma capela vazia esperando por um anjo. Um anjo cheio de pecados a fazer-me confissões.
    A lua rasteja o futuro por caminhos inexplorados. Quero estar suficientemente viva para trafegar com meus sonhos por esses desígnios. Já não estarei confinada num canto do mundo com essa sobrecarga de imagens. Já não estarei precisando pensar, precisando concentrar-me na amarração do texto que toma corpo de crônica. Isso estica minha angústia. Queria pensar sem formas, mas já não posso. Tudo acaba padronizado. O medo de decepcionar, o medo de não ter medo... Toda palavra tem seu preço. Sou vítima de um sistema coletivo de encadeamento de idéias. Até o amor tem suas terminologias. Até o amor tem suas ciências. Mas hoje estou incurável. Quero um amor de botequim. Amor sem pressa e sem causa. É porque é, porque tem de ser. Um amor sem história, acontecendo ao acaso, como se eu nunca tivesse sonhado algo dessa natureza.
    De verdade, quando se vive milhares de noites, já não se pode precisar em que noite antiga, muito antiga, se plantou o sonho. Deve ser quando raspei as pernas pela primeira vez, calcei sapatos de salto e todo mundo percebeu, "Essa menina cresceu, tá virando mulher". Estava concluído um ciclo. Nunca mais voltei ao sótão para brincar de bonecas. Voltei sim, para ver das alturas o destino que subia da terra. O destino tinha corpo e cheiro de homem. Senti vergonha do meu sentimento sem pudor. Vergonha dos meus pensamentos ousados. Meu corpo era um mar que precisava de muitos rios para satisfazê-lo. Era assim mesmo? Puberdade, ouvi na aula de ciências. Só não falaram da necessidade de simbiose de espírito. Mas, instintivamente iniciei a busca pelo amor real. Raramente o vivi por inteiro. Queria alcançar com a mão aquilo que está à altura da inteligência.
    Mas essa memória afetiva me cansa! Poderia dizer que hoje estou pronta para o desafio, mas o amor tem viés que desconheço. Mal posso falar da anatomia. Tanta beleza em uma só. Tanto pecado num mesmo pecado. Resgate, remissão... Eros, Ágape, Fileu... gravitar em torno do outro... melhor mergulhar numa taça de vinho e lamber a emoção altruística (ou seria egoística?) de ter escrito esta página.

   

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TRADUZINDO A VIDA

    Atravesso a avenida em busca de qualquer coisa. "Qualquer coisa" é algo muito indefinido para o leitor. Mas para mim é uma verdade concreta, mesmo que incompreensível. Quando busco qualquer coisa, busco uma forma de mim. A mulher narcísica que quer se encontrar em algum espelho, que quer se ver do lado de fora, quer se misturar, ou perder-se em meio à multidão .
    É muito difícil se perder. Desfazer-se de todos os referenciais e sair de dentro do emaranhado dos pensamentos. Há sempre uma pequena coisa a nos perseguir. Alguma traça escondida na parede do nosso cérebro. Uma pontuação prendendo a vida.
    Observo o fumante recostado, com sua "amada", nas estacas do ponto de ônibus. Estacas têm funções muito mais abrangentes do que se supõe. Suporta as ranhuras da angústia ainda desconhecida. A mulher, presa entre as traves que sustenta a cobertura, esperava muito mais do que teve. Quem sabe, ouvir promessas, fazer planos, amontoar palavras, adiar coisas.. ou ver uma estrela, ainda que pequenina, brilhar num céu de esperanças. Mas o dia amanheceu leviano e ela já não mais conhecia, intimamente, o homem de quem fora companheira, à noite. Companheira? Ele nunca usaria esse adjetivo. Queria mesmo era esconder-se do sol e dos olhares lúcidos que trafegavam pela avenida. Um maço de cigarros servindo de talismã e uma meia de nylon desfiada desarrumando os pensamentos. A vida é assim mesmo? Boca meio amarga e sono adiado. E ela que tentava fincar estacas para alicerçar a vida. Será que ele não percebeu que ela era grávida de um universo?
   Agora, aquelas galáxias se deslocando. Big Bang interno. Todos os corpos celestes mostrando um desvio para o vermelho. Era difícil aquela comunicação? Mas ele não queria ver. Carregava dentro de si um animal selvagem e indômito. Os olhos como uma faísca de relâmpago que atravessa mas não se deixa atravessar. E ela não conseguiu espelhar-se dentro daquele olhar. É difícil conquistar um olhar. Braços e pernas se entendem, mas os olhos não. Os olhos precisam ser domesticados.
   Prossigo em minha manhã ensolarada. Há homens parados nas portas. Há mulheres paradas nas portas. Há vida parada nas portas. Qualquer movimento assusta. E mesmo no silêncio mais absoluto, corremos perigo. A vida tem uma gravidade estranha. Há qualquer coisa de surrealismo quando pisamos nas poças d´água, lama em nosso sapato, fendas no chão, rachaduras na parede do nosso passado.
   De repente a vida se transforma numa coisa tão minúscula que eu olho e sinto pena. Vozes cruzam-se desordenadamente. Esbarro em tudo que está fora de lugar. É preciso lentes para enxergar os cantos escuros da alma. Há um universo espalhado na pele, protegido entre os pêlos. Eu bem que gostaria de ver coisas mais assimiláveis. Minha visão é inútil. Não estou à altura de descobrir um universo do tamanho da verdade. Eu disse verdade? Para Einstein a verdade é relativa. Para mim, nunca fez, de fato, sentido. Precisei criar realidades. Criei-as, a princípio, em minha própria língua. Agora percebo que preciso traduzir-me. Minha língua é ínfima diante da grandeza do meu universo. Não posso me prender aos canteiros de beijos da minha janela ou aos vasos de avenca da minha cozinha. O sino-dos-ventos badala para que eu vá, para que eu prossiga em busca dessa história da qual nunca fui dona, mas que agora, quero ser.

   

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A PROPÓSITO DA SALA

    No cerne da vida, uma sala repleta de convidados e visitas inesperadas. Cada um com suas raridades, verdades e mentiras. Há quem faça desse espaço um lugar para grandes expedições. Expedições que terminam em nada. Uma maneira estúpida de matar o tempo.
   Também há os que a usam para os grandes discursos. Estes desistem mais rapidamente. Logo ao perceberem que vivo uma crise de retórica, estética, dessacralização e não sei mais o quê. Há ainda os de humores refinados, os criativos, os insistentes, os sensacionalistas e os que querem massificar com suas “genialidades”.
   Ouço desde as mais possíveis às mais prováveis variantes de linguagem . Diversas respostas de gente perdida num labirinto de conversas. Digo sim, digo não. Teorias absurdas. Gritos deflagrados em cascatas. Cantos graves e agudos. O mundo cabe na minha sala angulosa.
   Tudo tão perfeito, tudo tão imprevisível. Estranho universo dentro de mim. Estranhos exercícios de ouvir, esquecer e livrar-me de. Às vezes parecem que dizem o meu nome, que desejam conhecer o meu perfume, mas sem um mapa a indicar setas e direções obrigatórias, os ânimos se arrefecem e o que contemplo é um olhar de malmequer sem cheiro ou cores.
   Todos os dias tento me livrar dos elementos que fazem minha alma pesada. Desperdiço horas jogando pela janela memórias anteriores. Flores murchas, papéis amassados, raízes que tentam brotar... preciso recompor meu deserto. Preciso sair. “Andar, andar, que um poeta não necessita de casa” Cecília Meireles me estimula a sair sempre que as quatro paredes vão se fechando.
   Hoje quando eu voltei uma voz me invocava. Mas não era exatamente a mim que chamava. Clamava por aquela que fui e - num pretérito imperfeito - tristemente morreu. A voz tinha o apelo sangrento de quem se deixou ferir por punhal. Trazia na mão uma flor amarela e um riso solitário que crivava meu cérebro. Deixei-o falar por respeito àquela que fui, no que ele debulhou-se num silogismo com todas as premissas. Olhei para as mãos que se perdiam nos gestos. Elas já haviam danificado meu corpo, do mesmo modo que as unhas perfurado os meus pulsos. Um dia, esgotada em minha paciência, cruzei as mãos sobre o peito e morri ouvindo os ecos do silêncio.
   Ressuscitei enfim, porém a sala nunca mais fora a mesma. Foram substituídos todos os tijolos. O coração de papel que ornamentava as paredes, amarelou no esquecimento. A eternidade dos meus olhos tombou num abismo rasgando o véu da minha retina. Na ficção recolhida, nada mais possuímos. Perdemo-nos na aventura fantástica de um texto. Decomposição lírica. As idéias eram sementes inventadas pela solidão. O muro de pedra erguido pelo silêncio congelou os meus ossos. Perdi a razão no abstrato de querer. Não tive nada a dizer. Faltaram-me as palavras. Faltou-me poesia, mais propriamente, o milagre de dar significado às coisas como mar, flores, sol, pássaros... Mas tenho toda a primavera para reaprender. E como ousou Bachelard “mais do que paisagem, a casa é um estado de espírito.”

   

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A MORTE NOSSA DE CADA DIA

    Acordo para mais um dia. Tudo igual. Cruzo com as mesmas pessoas, com os mesmos carros... passo pelas mesmas ruas com a mesma pressa e, sem reparar muito, vou atravessando o tempo sem criar espaço para desenhar a vida.
    Cansada, entrego-me ao abraço da noite como se fosse uma despedida. Cada dia morro um pouco. Paro diante do espelho como uma última atitude diária. Escovo vagarosamente os fios de cabelo na tentativa de alinhar as diferenças. Foram cortados de forma assimétrica. Corte de navalha, fio por fio. Ficaram tão diferentes uns dos outros. Escovo também os anos que a navalha do tempo não corta. Eles vão se ondulando pelo corpo e fazendo caracóis na alma. A idade é um arreio que ninguém desata. Deixa o coração sôfrego pelas batidas futuras.
    Diante do espelho não ouso sonhos grandes. Meu olhar interrogativo parece exigir decisões para as quais não me sinto preparada. Vou ficando distante. Há silêncios pesando sobre minhas pálpebras. De repente, vejo uma tarde dentro dos meus olhos. Uma tarde verde que não aconteceu. Quantas horas perdidas modelando uma esperança? A infinita ternura da minha insônia. Os olhos semicerrados vigiam o tempo sonhando surpresas. Talvez nunca virão. Os desenganos vão matando o desejo. As emoções vão ficando mecânicas. Perdas irreparáveis. Arrependo-me por não ter amado mais quando podia. O viver intenso me escapou. Nunca percebo se estou amando. Só quando a saudade se aproxima penetrando além da superfície, é que constato a veracidade da situação. Aí nego. Nego-me veementemente. Já até desenvolvi uma habilidade em me auto-enganar. É uma espécie de suicídio. Vai-se matando a própria afetividade, pouco a pouco para não doer tanto e depois, supõe-se, a vida volta a ser bela.
   Há muito cansaço no ar. Um cansaço que vem dos edifícios vizinhos abrindo clareiras pela cidade adormecida. É a triste paz da noite sobre as ruas. Há vozes caladas sobre o asfalto. Flores caídas sobre as calçadas. Cristais quebrados de um azul de lua. É doloroso morrer sozinha, sobretudo em setembro quando as flores oferecem perfume ao vento. Mas a vida é feita de morte. Pequenas mortes que vão matando a inocência e cobrindo de luto as tardes verdes.
    Mas amanhã quando a aurora voltar, será tudo igual. Todos dispersos pelo mundo, enfrentando a selva, o imprevisto, o grito. Amanhã seremos todos selvagens. Embora de uma mesma espécie, cada um em sua jaula. Cada um vítima de uma serpente que devora o lirismo do dia-a-dia. Amanhã seremos dirigidos pela insígnia da vaidade e das ausências. O hoje será apenas uma imagem de um álbum de família empoeirado. E eu continuarei representando aquela que não sou enquanto morre um pouco aquela que sou.

   

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AMANHÃ, TALVEZ

   Acordo com o trinado artificial de um pássaro. É o despertador do relógio que violenta a natureza e os meus tímpanos. Lá fora uma chuva lenta escorre pelas paredes. Será mais um dia úmido e quente. Levanto tropeçando nos calçados e papéis amassados. Tentativas de cartas de uma noite de insônia. Palavras naturais expelidas das entranhas. Um erro crasso. O bom escritor não deve escrever com palavras naturais. Mesmo a escrita autobiográfica deve ser recriada, revivida com palavras artificiais.
   Mas, não sei se pela falta de comprometimento com a literatura de primeira grandeza, não aprendi, nem ousei me recriar com palavras polidas. A minha verdade é bruta. O meu sentimento é bruto. Acho que sou toda bruta. A vida fica desajeitada em mim. Uma vida crua e rasa. Sinto-me uma estranha neste mundo civilizado, catequizado, humanizado... e todos os outros "zados". Problemas com meu código lingüístico?
   O espelho do banheiro mostra a gengiva sangrando. Estou viva. O sangue é o horror de se saber viva. La vida que traigo entre los dientes. A vida primária escorrendo garganta adentro. A vida sem contornos que quis fugir para outras paisagens, para qualquer lugar que fosse melhor que ficar remoendo minha ira silenciosa. Agora esta terra úmida quer me vomitar. Sente ânsias do meu sangue. Rejeita o meu beijo na boca. O vínculo de amor não aconteceu. Flertamos, chegamos perto de algo definitivo, mas faltou cheiros e gostos, faltou fantasias. Ou, se elas existiram, deixei escapar num momento de dúvida e desamor. Meus fracassos amorosos...
   Escovo os dentes em pequenos movimentos, pequenos rituais do meu silêncio. Meu pensamento navega na espuma branca de um riso antártico. Os olhos se enchem de água salgada. Saudades do meu mar. A lua do meu mar. "Quando Ismália enlouqueceu,/Pôs-se na torre a sonhar.../Viu uma lua no céu,/ Viu outra lua no mar."Alphonsus Guimaraens criou essa Ismália enlouquecida, ou teria ela, de fato, existido? É tão fácil enlouquecer.
   Visto um vestido azul de alças e tento combiná-lo com uma echarpe cor de vinho. Se eu tivesse os olhos cor de violeta... ai, essa indefectível mania de achar que a vida poderia ser diferente se eu fosse um pouco mais bonita. Tenho uma grave tendência para a burrice. Sempre que estou a um passo de me compreender, numa fração de segundo algo explode e nem ao menos me recordo do último pensamento. Deve ser por isso que escrevo, para não perder o pensamento, e assim, quem sabe, as coisas vão caminhando e um dia me encontro no ponto certo de mim e deixo de ser tão insípida.
   Abro a echarpe de seda. Tão linda e suave que me inspira a dançar um bolero. E eu que nem sei dançar. Pareço-me mais com uma toureira driblando o destino. Ele vem furioso com seus chifres afiados. "Una mujer luchando contra su destino", poderia narrar um locutor de touradas. Por pouco não nasci na Espanha. Mas nasci toureira por determinação da natureza. As leis do universo falharam. Se é que existe uma política de leis que determina um lugar para você existir. Eu sou cidadã do mundo. Trinta e tantos anos, uma inquietação que me leva a dançar diante do espelho e essa sensação idiota de me sentir convocada a participar da grande luta da redenção da humanidade. Seria notável, não é? Mas o mundo não precisa de salvação, eu sim, preciso. Preciso salvar-me de mim mesma, dos meus sonhos e da minha ingenuidade. Qualquer sonho ou promessa de amor me deslumbra. É como o mar. Forte como a fúria do mar a precipitar-se em suas recifes, muitas vezes determinada pela lua. A lua já essencialmente morta em suas águas. A lua de Ismália.

   

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DE BRAÇOS ABERTOS

    Quando eu era criança, achava todos os domingos alegres. Talvez o fato não se deve à infância, mas aos hábitos comuns de uma cidade pequena. Almoço na casa da avó era coisa sagrada. Comia salada de agrião com guardanapo no pescoço. Aqueles talos enormes esbarrando no nariz, vinagre penetrando nos olhos... agrião apanhado na horta sem agrotóxicos. E eu nem sabia da existência dessa palavra esdrúxula. Sabia que havia um espantalho de braços abertos cuidando das verduras. Para mim era um santo como aqueles das igrejas. Todos os homens com braços abertos eram santos. E minha avó sabia construir santos. Devia se inspirar em meu avô que abria os braços para que eu corresse a seu encontro. E eu morria de medo que um dia ele se petrificasse numa estátua de cartão-postal. Deus amava os homens bons e um dia viria buscá-los para si. Homens bons eram transformados em anjos e ajudavam Deus a cuidar do mundo. O espantalho era um anjo de Deus e devia dormir no esquecimento de alguma menina grande. Era esse um dos argumentos que eu usava para conversar com aquele boneco de pano. Também lhe oferecia teorias, explicações e revelações surpreendentes sobre a parte feminina. Transferia para ele a lealdade dos homens que nem sempre foi real.
    Mas é tolice lamentar essa realidade de homens não leais. Não se pode fechar o coração em razão de uma minoria. Ou seria maioria? Não posso dizer ao certo, sei apenas que os homens de braços abertos me salvaram de um coração de gelo. E continuam salvando. Eles existem e estão bem aí, embaixo do nosso nariz. Basta reparar. Sei, às vezes é difícil essa percepção porque eles assumem formas inesperadas, infantis e até misteriosas. E não estamos acostumadas a isso. Vemos a fachada, se ela não agrada desistimos de descobrir o que vai dentro. É trabalhoso conhecer o homem que está dentro do homem. Até porque, foram muitas as vezes que descemos à profundeza e não encontramos nada além de pura escuridão.
    Não é necessário mais que uma frustração para que a mulher radicalize e torne-se negligente na arte de procurar pistas. Mas, como a vida não nos deixa de instigar, lá vamos nós, corremos léguas à procura de uma pista no meio das trevas. Seguimos o primeiro indício de caminho. Pode ser um ruflar de asas ou um fio de luz. E, de repente, estamos diante de uma grande floresta. Árvores com raízes profundas. Espécies que não se deixam levar por qualquer vento. Uma floresta onde se encontra e se perde toda a sabedoria do mundo. Tudo depende da nossa capacidade de percepção. Não convém arriscar?
    Hoje quando vi um espantalho numa horta vizinha, não pude deixar de ficar contente. O museu de pano da memória trouxe à tona a imagem de homens poderosos. Homens de coração limpo e braços abertos. Homens feitos à imagem de Deus e que, muitas vezes, se deixaram crucificar por amor. Poesia? Esses versos vão anoitecer comigo. Versos que eu sei de cor. Também sei de cor tantos nomes, tantas lutas... e ainda, por muito tempo, continuarei a conversar com espantalhos e a acreditar nos homens.

   

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A MULHER DO GUARDA-CHUVA

   A mulher entrou no consultório com um guarda-chuva. Não, não estava chovendo. A manhã estava linda e ensolarada. Era um daqueles dias antecedentes à primavera em que você tem vontade de abrir todas as portas e janelas da sua vida e dizer: “Seja bem-vindo sol! Entre, dê o ar de sua majestade...” Daí a compreender o que leva uma senhora a sair de casa com um grande guarda-chuva aberto, exige um certo esforço de cérebro.
    Antes que ela entrasse eu já observava através da vidraça. Como se tratava de uma clínica de dermatologia, justifiquei a cena com a hipótese mais óbvia: doença de pele. Embora existam os milagrosos protetores solar, ela era uma mulher precavida e queria ter a saúde assegurada. Ou, uma pessimista. Os pessimistas sempre acham que todo cuidado é pouco. E que o pior vai acontecer. E que podem morrer por um câncer-de-pele e etc. e tal. A imagem do pessimismo se em quadrava muito bem a ela. O vestido cinza e o olhar baixo lhe imputavam um ar de que estava tecnicamente morta. Um morto ambulante, desses que a gente encontra nas repartições públicas. Deus me perdoe! No lo creo, pero que hay si que hay! Pois bem, a mulher de guarda-chuva tinha esse jeito de quem tem a cabeça pesada de sombrios pensamentos. Parecia andar pelas ruas e pedir que o chão lhe faltasse para livrar-se, de uma vez por todas, da angústia que lhe causava a vida.
   Mas, como diz a Bíblia, “não julgueis para que não sejais julgados”. E o meu horóscopo havia também me alertado: “procure não julgar as pessoas pela aparência”. E essa minha falta de crença! Deixei de acreditar em horóscopo desde que um amigo, jornalista, confessou-me haver começado a carreira escrevendo tais “profecias”. E ainda orgulha-se em dizer que, mesmo sem conhecimento de causa, acertou muitas vezes. Mais acertou que errou. São as coincidências, o que devia ser meu caso. Ou porque o tal do julgamento está intrínseco ao ser humano. Vale para qualquer signo. O que é mais provável.
    A mulher entrou numa fração de segundos. E o guarda-chuva fechou-se num simples movimento de dedos. Os olhares dos presentes foram direcionados a ela. Uma figura de quem se espera tudo ou nada. E só Deus sabe o que passou pela cabeça dos presentes. Fui desviando meu olhar estreito, não queria qualquer cumplicidade com a cena que se daria a seguir. E a mulher ali estática tentando organizar uma estratégia. São terríveis esses momentos de ausência. Uma ausência súbita, quase palpável. Por um instante fomos todos levados ao impensável. Sentimo-nos um nada. Éramos apenas corpos. Talvez isso seja o que se pode chamar de vida. Estávamos vivos naquele momento e só.
    Ela enfiou a mão na bolsa tentando arrancar algo de dentro. Nenhum movimento entre os presentes. Até nossa respiração pareceu cessar. A essa altura uma idéia nos martelava o cérebro: assalto. A mão retirada da bolsa segurava meio quilo de papel. A partir daí, a mulher do guarda-chuva começou uma abordagem pessoal. Fui eu a primeira vítima. Um sorriso dócil amenizou o medo. Uma voz tímida rasgou o silêncio ameaçador: “Jesus te ama” – disse–me quase emocionada. Surpresa e quase atônita, eu não soube o que responder. Como ela parecia esperar uma resposta antes da próxima abordagem, respondi: eu também o amo. E não menti.
   

   


Autor: ® LUCILENE MACHADO
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