MATO GROSSO DO SUL, domingo, 23 de setembro de 2018 - BOM DIA!   
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» ARTIGO

(26/10/2004)


TEXTOS DO ACADÊMICO AUGUSTO CÉSAR PROENÇA

   

NA MATINÊ DO SANTA CRUZ

   Não se enxergava nada naquela escuridão. Mesmo assim ele entrou sem esperar a ajuda do lanterninha, e, tateando como um cego, por sorte encontrou uma cadeira vazia logo no início da fila e se sentou.
    O filme era de Tarzan. E filme de Tarzan, na matinê do Santa Cruz, era uma zorra total. Um a guerra de pipocas. A turma gozava. Ria. Aplaudia. Fazia uma tremenda algazarra acompanhando as cenas que se desenrolavam em preto e branco.
    Quando a vista dele se acostumou com a escuridão viu que uma garota, tão adolescente quanto ele, estava sentada a seu lado. Notou também que se encontrava sozinha, pois a outra cadeira seguinte permanecia vazia. Legal, pensou, relaxando-se mais um pouco, enquanto mascava o chiclete de bola.
    De vez em quando despregava os olhos da tela e olhava a menina. Era loirinha, tinha um perfil bem feito, a silhueta dos seios aparecia saliente na hora em que a sala clareava. Mas estava compenetrada. Séria. Não tirava o olhar da tela: por que será que estava sozinha?
    Tarzan agora voava num cipó, elefantes desfilavam com as trombas erguidas fazendo alaridos. O cinema vinha abaixo com tanta gritaria.
    Ele olhava a gatinha e ela não olhava para ele. Sacanagem. Consertou a garganta, pensou em lhe oferecer um chiclete, mas teve vergonha, podia achar ruim, levantar-se, ir embora, e isso seria estragar tudo. Ela ali ao lado lhe dava um calorzinho diferente e perfumado. Embora afastados alguns palmos, sentia o coração pular quando ela, por descuido, esbarrava-se nele. Lá uma hora resolveu colar a perna na coxa da menina, mas ela se afastou, esquiva.
    Jane agora trazia a Chita puxada pelas mãos. Mais risos, mais gritaria. A macaca era gozada, tinha um andar desengonçado.
    A mão. Sem sentir deixou que avançasse e resvalasse no braço dela. Ela se mexeu na cadeira, cruzou os braços, enlaçou os seios, afastou-se pouquinho mais dele, se protegendo. Menina difícil! Que tal se falasse alguma coisa, perguntasse o seu nome, onde morava, por que estava sozinha naquela tarde? Mas a timidez de menino o impediu e preferiu mudar de tática. Ficou duro na cadeira, sem se mexer, olhando sem ver o que se passava na tela. E ficou um tempão desse jeito, até que ela, sim, ela mesma, tomou a iniciativa de se aproximar. Foi se chegando devagar e permitiu que os dedos dele acariciassem a pele macia daquele braço.
    Tarzan ainda pulava de galho em galho. Um grito prolongado e selvagem enchia o espaço da sala de projeção.
    A mão dela era fria, suada, tremia. Então ele a apertou um pouco sentindo um estranho prazer invadir-lhe a carne. Alguma coisa revelava um novo mundo dentro dele, sim, agora tinha a certeza: sabia que não era mais criança. Uma onda de desejo o desafiava, pulsava, melava, latejava e subia para percorrer a pele, o corpo, a alma, tomando conta de tudo. “Seria isso... seria isso o amor?... Se perguntou várias vezes, enquanto ela encostava mais o corpinho junto ao seu, permitindo que ele tivesse a liberdade de tocar-lhe os seios : e tocou!
    A princípio de leve, com a timidez de um menino, depois mais audacioso, com o desejo de um homem. Apertou com tanta força o peito da menina que ela deu um grito de repente e o olhou como se olhasse um demônio. Disse: pára com isso, pô, assim não.!
    Sem pedir desculpa, enlaçou o braço no pescoço da menina e puxou, dessa vez com o carinho de um amante. E ficaram assim juntinhos, ombro a ombro, cabeças inclinadas para trás da poltrona, juntinhos como uma coisa só confundida e escondida naquele escurinho de cinema.
    Olhos amortecidos um para o outro, respiração ritmada, quase boca a boca, até que as línguas se soltaram e começaram a circular e circularam-circularam-circularam, uma em volta da outra para estalar na quentura de um beijo sufocado de gemidos úmidos. Tão prolongados como o grito de Tarzan lá na tela. Um beijo deslumbrado, insistente, impetuoso, que permanece ainda na saudade, feito coisa que a gente nunca esquece.

   

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O MENINO DO LIXÃO

    Joga um punhado de pedacinhos de alumínio para cima e fica encantado com a chuva prateada que cai sobre a sua cabeça.
    Todos os dias, enquanto a mãe cata as coisas que prestam para vender, o filho brinca por ali com os outros meninos, olhos alumiados de sol, mãos espantando os insetos que lhe dão coceira no corpo e botam contrariedade no rosto afogueado.
    Esse é o mundo do menino. Um mundo de lixo jogado a céu aberto, mas que no seu imaginário se apresenta cheio de surpresas divertidas, de descobertas inusitadas, de coisas atraentes que o levam muitas vezes ao encantamento.
    Como é bom rolar livremente sobre montes de papéis rasgados e panos bolorentos. Brincar de esconder dentro de caixas de papelão , bater latinhas amassadas uma contra as outras para afugentar as moscas e os mosquitos que o incomodam. Sim, o menino gosta do gosto adocicado da terra fofa povoada de minhocas, de sentir cheiros diferentes, ver gatos arrepiados de fome, sapos saltando de repente do fundo dos ferros enferrujados, bichos que habitam esse mundo de contemplação.
    O lixão desperta no menino muita curiosidade, um prazer quase lúdico quando cata os besouros e os coloca num saquinho plástico ou encontra, no meio de tantos brinquedos mutilados, um carrinho com todas as rodas, uma espingarda com gatilho, uma metralhadora que ainda consegue dar tiros.
    Então remexe em tudo. Em tudo presta atenção, pega, cheira, prova, joga para o lado e pega outra coisa qualquer. Vibra com os caminhões barulhentos que chegam levantando as carrocerias e despejando mais e mais brinquedos que a mãe não pode comprar para ele.
    Esse é o mundo do menino. Um mundo sujo de porcarias desprezadas, de misérias que, diante dos seus olhos, transformam-se em cores sobre as quais o sol bate, brilha e fabrica a interessante e encantada chuva prateada.
    Os dias bruscos, cinzentos, trazem os urubus que pousam, aos pulos, nos amontoados, as asas abertas, os bicos ameaçadores para disputar com eles, os meninos, o resto das mesas dos aniversários.
    Sabe que desse mundo a mãe retira o que presta para homem bigodudo comprar. Sabe que dele vem o arroz, o feijão, o pão, o leite: as coisas da sobrevivência. Mas o menino não sabe que das entranhas desse mundo inúmeros inimigos atuam para acabar mais cedo com a sua vida de criança. Não sabe que centenas e centenas de meninos, como ele, brincam em lixões espalhados por este Brasil afora. Não sabe de tantas coisas e talvez nem deseja saber. Porque no seu pequeno coração, longe de guardar uma revolta, abriga uma inocente indiferença, uma ilusão gostosa, incapaz de compreender a imagem real da desgraçada e injusta humanidade.

   
   

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EU QUERO PASSAR COM A MINHA DOR

   O seu legado material foi quase nada, apenas uma pequena pensão no antigo INPS e uma casa modesta da Cohab em Vila Esperança, subúrbio carioca. O espiritual, no entanto, foi vasto e produtivo, com centenas de produções musicais que enriqueceram a Música Popular Brasileira.

   Estamos falando de Nelson Antônio da Silva, o Nelson Cavaquinho, que nasceu no Rio de Janeiro, ali pelas imediações da Praça da Bandeira, no dia 28 de outubro de 1910.

   Filho de tocador de tuba da banda da PM e de mãe paraguaia, de quem herdou os traços e a cor marcante da herança indígena guarani, Nelson Cavaquinho começou a vida no duro batente de uma fábrica de tecidos, até entrar para o Batalhão de Cavalaria da PM e poder, com menos sufoco, ajudar no orçamento da família.

   Ele mesmo dizia, que se não fosse o “xadrez” do batalhão do qual era assíduo freqüentador, não teria feito muito samba de sucesso. É que,
   boêmio como era, muitas vezes desistia da ronda que fazia, montado num garboso cavalo, para tomar uns tragos com amigos, futuros parceiros como Cartola, Carlos Cachaça, Zé com Fome e outros. O cavalo, que ficava amarrado numa cerca do Morro da Mangueira, sabe-se lá como, conseguia fugir e voltar certinho para o quartel e ele, Nelson, ia direto para o xadrez do batalhão, onde aproveitava para compor seus sambas memoráveis. E quem ganhou com isso, com certeza, foi a MPB, até hoje agradecida.

   Mas não parava por aí as gandaias do nosso compositor. Além dos bares da Mangueira, freqüentava os da Praça Tiradentes, na época, também um reduto de gente sensível como ele, repleta de artistas e de boêmios compulsivos. Num desses botecos, cujo nome era Cabaré dos Bandidos (que de bandido não tinha nada) costumava se encontrar com Guilherme de Brito o qual, depois do expediente da famosa Casa Edson (uma casa de disco) partia para o botequim a fim de se encontrar com o parceiro de tantas músicas inesquecíveis : A Flor e o Espinho, por exemplo.

   Nelson tocava cavaquinho e violão apenas com dois dedos, o polegar e o indicador. No tempo das vacas magras, para pagar as dívidas acumuladas, vendia sambas e, quando a situação melhorava dava parceria a quem se encontrava em necessidade. Foi uma das atrações do lendário Bar Zicartola, na Rua da Carioca, bar que ficou famoso na década de 60, de propriedade de Cartola e da dona Zica, sua esposa. Tinha uma voz rouca, inconfundível, um coração grandioso.

   Deixou centenas de músicas gravadas e de excelente qualidade. Em 1946, Cyro Monteiro gravou duas de suas composições : Rugas e Degraus da Vida ( de parceria com César Brasil e Antônio Braga ) mas só se tornaria famoso em 1965, ao participar do show Rosa de Ouro, tendo como intérprete a saudosa Elizeth Cardoso.

   As suas composições estão recheadas de freses lindas e líricas, como estas : “nossos barracos são castelos na nossa imaginação”, “ quando eu passo perto das flores quase elas dizem assim : vai que amanhã enfeitaremos o seu fim”,”as rugas fizeram residência no meu rosto”, “ tire o teu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor”.

   Entre cigarros e bebidas, varando madrugadas, compondo em mesas de bares, Nelson viveu até o dia em que foi encontrado morto em sua cama, ao lado do inseparável violão, aos 75 anos de idade, pela companheira com quem viveu seus últimos momentos. Era o dia 18 de fevereiro de 1986.

   Tirava o seu sorriso do caminho e entrava para a história da Música Popular Brasileira.

   

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A FORÇA DO FALAR PANTANEIRO

   Para entender o Pantanal – já dizia Cássio Leite de Barros – é necessário sentir o que ele sugere para depois compreender o que ele oferece. E eu, humildemente, acrescento: há que se ir ao chão, às raízes, para buscar a rusticidade e simplicidade do homem pantaneiro.
   Esta vasta planície, dada de mãos beijadas à Nação brasileira como um Patrimônio Natural, oferece-nos, além de uma exuberante paisagem pintalgada pela branca pelagem do nelore, uma linguagem extremamente expressiva, rica em variações fonéticas e prosódicas.
   O livramentano, cuiabano, poconeano, cacerense, quando desceram lá do Norte para povoar o Pantanal do Sul viajaram com as suas palavras. Trouxeram, junto com os caribéus, as jacubas, os paus de guaraná, uma enormidade de termos e expressões que, ao longo da história, através de um processo laborioso de troca, assimilação, absorção, mesclaram-se com a oralidade dos países vizinhos e formaram um universo muito próprio que se traduz naquilo hoje concebido como o “falar do homem pantaneiro”.
   Quantas expressões singulares! Quantos termos inusitados! Quantas riquezas!
   Os acordes atrevidos da viola de cocho, os quais motivaram os improvisos dos curureiros, versejadores/cantadores das antigas festas pantaneiras produziram neologismos, ampliando a versatilidade lingüística e cultural da região.
   Em torno do vagaroso carro de boi, que transitava pelo Pantanal com suas rodas triturando o lamaçal, auxiliando os desbravadores, existe um vasto e pitoresco linguajar, toda uma nomenclatura como fueiro, guieiro, cambão, gangorra e muitos outros termos. O cavalo, esse companheiro inseparável do vaqueiro, bichinho rústico e resistente, moldado pelas condições do ambiente deixou-nos expressões riquíssimas, todas elas ainda presentes nos diálogos dos ginetes, nas “estórias” contadas sobre as proezas dos redomões – daquele “pagão” que é laçado pela primeira vez no curral para ser domado, a rodilha do laço entrando justa no pescoço, apertando-o com o arrocho do tirão, até que, já quase enforcado, olhos esbugalhados, respiração ofegante, vai “quebrando das carnes” e se entregando ao domador, se chegando ainda meio desconfiado, soprando o ar pelas ventas dilatadas e trêmulas.
   As comitivas, pelos caminhos pantanosos, conduzindo boiadas, contribuíram para enriquecer o vocabulário pantanês. Da cozinha das nossas avós vieram o furrundu, a paçoca de banana, a Maria-Izabel... Aliás, das velhas cozinhas não só frases, expressões e termos nos ficaram, mas, também, a lembrança do fogão à lenha, de 4 ou 6 bocas, amplo e empretecido, da carne-seca e do toucinho defumado “dipindurado” ao lado do fogão, do pote d’água, do dedo na panela para provar o “doce de cadju” e a “catchorrada”...Ah! ... e também a lembrança dos suspiros, dos quindins, dos beijos adocicados e sensuais, daquele banquinho perto do fogão onde a bugrinha, cabelo penteado, toda “prefumada de água de chero”, esperava a hora de abrir a porta “ pro fio do patrão entrá”. Em torno do laço do vaqueiro, instrumento que faz parte da sua “traia”, dos seus “quase- nada”, nasceu uma rica terminologia que vai desde a escolha do couro até o colocar da argola, no arremate final.Tais como: tento, braça, iapa, afogador, lonqueação, boneca e outros termos. O sobrenatural, tão presente no imaginário da população, deixou-nos um fabulário vastíssimo de almas do outro mundo que vagueiam pela planície, ou estão presas nos “enterros” iluminados, penando, pedindo rezas. Entidades que povoam o universo infantil e persistem na crença dos adultos, nomes como Mãozão, Pé-de-garrafa, Minhocão, Come-língua, Negro-dágua, Anta-amiga, figuras mitológicas e lendárias que habitam as matas, baías, rios e corixos.
   Se o cavalo é de “queixo-duro” (ruim de boca) o cavaleiro tem que “quebrá ele por baixo”. Se o peão fica sem “paradeiro”, andando de fazenda a fazenda, ele é andejo feito “burrico sem mãe”. Pessoa que não gosta da preparação do amor e vai logo ao ato, é que nem anta, quando o troço sobe ele já vem por cima. A sexualidade fez morada e nos largou pitorescas expressões e nomes que até hoje são resgatados como uma prenda valiosa. Assim como, também, a sociabilidade estabelecida entre homem/natureza. A lua, por exemplo, com seus reflexos prateados influenciou os hábitos e costumes do pantaneiro. “Lua nova é boa pra enfrená (colocar freio no cavalo redomão)”. Mas é ruim para tirar madeira para cercas: “Se tirá na nova ela vai broquiá, vai bichá tudinho”. Existe a crença de que a anhuma no largo chama chuva criadeira. Há pássaros e bichos abençoados, como há os agourentos, os que “têm parte com o demônio (fala-se demonho)”. Cruz – credo! Figa! Vote! São expressões ainda hoje freqüentes no Pantanal.
   A Farmácia do mato, por sua vez, enriqueceu o Pantanal de um conjunto de plantas e elementos que curam.
   Para tosse: casca de camburu ou canela de veado (chá). Para males do estomago, vermes e diarréia, têm-se o pára-tudo. A polpa do fruto do jatobá, esquentado, é tiro-e-queda para extrair o “carnegão” dos furúnculos. O rabo do bugio e a raiz de amarra-pinto são indicados para quem tem a “urina solta”.
   As charqueadas, cujos trabalhos contribuíram para o desenvolvimento da pecuária, transmitiram-nos sinistros termos, como esfoladores, carneadores, esquartejadores, sangradores. Mas os versos de Cururu e Siriri, temperados com o som da viola de cocho, nos deram palavras adocicadas de ternura e amor, como estas:

   “É na manhã seguinte quando o galo canta, e a madrugada, pouco a pouco, já se vê; a voz da morenada em coro se levanta, tristonha a soluçar: Não deixa amanhecê!”
    (Versos de Carlos Vandoni de Barros)

   O Pantanal está mudando de dono. Novas mentalidades, novos recursos, novas tecnologias surgem empurrando o “tradicional” para outras paragens e, logicamente, vai-se com ele a moda de se expressar e de falar. A TV, o rádio e demais veículos de comunicação massificantes e estandardizadores aceleram o processo de desintegração de identidades.

   Preservar a riqueza do falar pantaneiro é mais do que necessário; aliás, é dever dos que estão inseridos na luta de resgatar e difundir os valores da nossa Cultura.

   

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AMOR-CIDADÃO

   Essas quatro letras se unem e formam a mais bela palavra da língua portuguesa. Pena que está esquecida e afastada do pensamento, da atitude, do comportamento e da vida de muitas pessoas.
   Não falo do amor que mata e destrói, mas daquele que vence barreiras e ama com certeza; que faz você abrir a porta e deixar entrar alguém que necessita da sua ajuda; que o coloca dentro de uma igreja para rezar e pedir a proteção de Deus; que espera um filho que há anos não vê; que o chama ao cemitério, todos os anos, para chorar diante do túmulo de um ente querido vitimado pelas balas da violência.
   Falo do amor que a gente não define e que se eternizou nas peças de teatro, nos livros, nas músicas e nos filmes. Do amor que desapareceu das mesas de muitos lares, dos diálogos, dos relacionamentos e até dos nossos olhares..
   Abro os jornais, assisto aos programas de TV e me estarreço quando vejo o triste e doloroso espetáculo de (des) amor: criaturas que matam sorrindo; que espancam o semelhante com pancadas inconseqüentes; que queimam, roubam, assaltam, aleijam irmãos com balas propositais ou perdidas; gente que se fechou ao amor e parece permanecer nesse estado animalesco, nessa ferocidade instintiva e desumana.
   Guerras, mortes, violências, pedófitos estupradores, gangues armadas até os dentes fazem parte desse macabro espetáculo de um mundo, enlouquecido pela falta de auto-estima, onde as drogas, cada vez mais procuradas, afastam muitas consciências da morbidez de uma realidade sem perspectiva: o medo, o pavor e a angústia inexplicáveis de um futuro incerto. O que fazer? ... Como pedir proteção se os que nos protegem também estão contaminados por esse (des) amor?...
   Acreditamos na força e na pureza do amor. Podem até rir dessa utopia, mas acreditamos na recuperação do ser humano e sabemos que amor não se aprende nos pátios dos reformatórios nem nas dependências das delegacias.
   Nascemos com ele e o cultivamos como uma planta que tem de ser tratada para crescer e não se deixar contaminar pela barbárie que anda por aí. O amor nos chega de mansinho, sem pedir licença, com o calor de um olhar, com uma palavra, um suave sorriso de mãe, um afago vagaroso de pai. Vem da educação, da cultura, do conhecimento, da auto-estima, sobretudo.
   Não sou leitor de Paulo Coelho, mas, outro dia, lendo "O Globo", deparei-me com um artigo seu e li um trecho sobre uma criança que fora espancada pelos pais e teve de ser internada no Hospital de Base, de Brasília. Nesse hospital tinha uma enfermeira e sempre que ela chegava para ver a menina passava a mão na cabecinha dela e dizia: "Eu te amo!
   A princípio a criança não escutava, não percebia o que a enfermeira lhe dizia, pois estava com o rosto todo inchado pelas pancadas dos pais. Mas a enfermeira continuou dizendo: "Eu te amo, não esqueça disso, eu te amo muito!
   Três semanas depois, a menina havia recuperado os movimentos. Voltou a sorrir e a falar, para a surpresa dos médicos. Na quarta semana ela se levantou e começou a andar. Na quinta deixou o hospital.
   Esse bonito trecho do artigo de Paulo Coelho, registrando o poder que as palavras têm quando proferidas com carinho me faz lembrar de uma frase do Marquês de Maricá, que diz o seguinte: "Amemo-nos sobre tudo, e aos outros homens por amor de nós".
   Vamos fazer de cada um de nós algo que sirva para mudar esse quadro estarrecedor. Deixar de lado o coração selvagem, o ódio, a fera enjaulada dentro de nós mesmos e cultivar o amor verdadeiro e sem limites, aquele que cura e transforma: o AMOR-CIDADÃO.

   

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UM ITALIANO EM MATO GROSSO

    Em 1862, Mato Grosso recebia a visita de um audacioso marinheiro italiano que, certo dia, cansado do mar, resolve partir de Montevidéu a fim de procurar nas misteriosas florestas virgens aquelas emoções que não mais encontrava no mar.
    Esse naturalista, chamava-se Bartolomé Bossi. Com uma pequena expedição percorre quilômetros e mais quilômetros de rios, até chegar no vasto e inigmático Mato Grosso para, então, deixando a pitoresca Corumbá, prosseguir viagem pelos rios Paraguai, São Lourenço, Cuiabá e encontrar a “orilla do El Arino”, cuja nascente fica próxima às dos rios Paraguai e Cuiabá.
    A finalidade dessa arrojada expedição exploratória era a de fazer um levantamento para a elaboração do primeiro mapa da região, em grande parte inexplorada e, também, um estudo sobre Arinos, um rio que corre em direção ao Norte e se une com Tapajós para desaguar no grande Amazonas, num local batizado de “Puerto de La Esperança”.
    A viagem, logicamente, não foi nada tranqüila para o ousado italiano que passou por maus momentos ao ser atacado, logo na descida do Rio Arinos, por duas curiosas tribos de índios: a dos “Tapañuna”, que viviam à margem esquerda e só atacavam durante o dia e a dos “Marcielagos”, que só atacavam à noite, pertencentes a uma raríssima tribo de índios albinos, muito ferozes, que habitavam, as densas e obscuras florestas, à margem direita do Rio Arinos. E jamais saíam à luz do dia.
    Bartolomé Bossi ficou extasiado com tudo o que viu, com as belezas e os recursos naturais da região mato-grossense, apesar das doenças tropicais contra as quais teve que lutar.
    Escreveu um livro relatando a venturosa viagem, que foi editado em Paris, no ano de 1863 e dedicado ao Barão de Maná: “Viaje Pintoresco por los Rios Paraná, Paraguai, São Lourenço, Cuyabá y el Arinos, tributário Del grande Amazonas”.
    Na época em que o experiente cientista passou por aqui, Corumbá já estava em franco progresso, transformara-se, recentemente em Vila e nela já se encontravam instaladas a Alfândega, a Mesa de Rendas, a sede do Distrito Militar do Baixo Paraguai, com um Batalhão de Artilharia a Pé.
    A pequena Vila, então, florescia, dava os seus primeiros passos rumo ao que seria alguns anos mais tarde: um centro comercial ativo e importante de Mato Grosso.
    No citado livro, registra as suas impressões sobre a então vila: “Corumbá és um pueblo para el cual sonrie em destino muy prospero”. Em virtude da abundância de cal, achou as terras pobres para a agricultura e o custo de vida altíssimo, principalmente os aluguéis de casa. O que o levou a comparar Corumbá com a Califórnia dos velhos tempos da corrida ao ouro do Oeste Americano.
   

   


Autor: ® AUGUSTO CÉSAR PROENÇA
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