MATO GROSSO DO SUL, sexta-feira, 16 de novembro de 2018 - BOM DIA!   
 P r i n c i p a l
 I n s t i t u i ç ã o
 E s t a t u t o
 H i s t ó r i c o
 D i r e t o r i a
 C a d e i r a s
 N o t í c i a s
 I m a g e n s
 A r t i g o s
 S u p l e m e n t o
 R e v i s t a s
 W e b - M a i l
» ARTIGO

(15/02/2005)


TEXTOS DO ACADÊMICO JOSÉ PEDRO FRAZÃO

   

LETRAS DE PALHA

   

José Pedro Frazão
*

   A menor fagulha de poder é suficiente para incendiar cabeças que contêm palha. E das cinzas, em vez da lendária Fênix, brota presunçosa vaidade jorrando empáfia e arrogância, na ilusão de que inchaço é grandeza.
   Dessa ambiciosa fogueira, eleva-se fumaça de orgulho arvorando-se no céu da passividade, com ostentação de escuras e levianas nuvens carregadas de oportunismo, sufocando o mais humilde brilho solar. É a glória pedante e espúria conquistada com atributos de vaidade, narcisismo e manipulação, sob a égide e o estratagema de todos os pecados capitais.
   Certa feita, quando os deuses védicos, inspirados por Brahman, derrotaram os demônios, ficaram tão vaidosos a ponto de convencerem a si próprios de que tal glória lhes pertencia. Mas quando submetidos à prova da divindade superior, recolheram-se ao seu limitado panteão, onde deveriam cultivar o saber e a humildade. Ocorreu que, desafiados pelo poder supremo, nem Agni (deus do fogo) conseguiu queimar uma palha, assim como Vayu (deus do vento) não conseguiu movê-la com um sopro. Até que Indra (o maior deles) ouviu de Uma (deusa-Mãe), que fora através de Brahman, e não daqueles pobres e soberbos imortais, que se obtivera a vitória contra os demônios.
   A crença hindu, com relação ao homem e sua capacidade intelectual, atribui todo poder a Brahman (princípio divino não personalizado do bramanismo). E no meu confortável habitat cristão às vezes me pego a imaginar o grande Poeta do Universo aterrissando glorioso no frágil mundo beletrista, onde a simples defesa de uma tese, a autoria de uma obra literária, a exposição midiática, ou ainda o honorífico título de imortalidade costumam soar como palhas amontoadas para uma grande fogueira. Seria providencial que o sábio Espírito da Palavra, a exemplo de Brahman, descesse aos incautos olimpos dos deuses de palha e apagasse o fogo da vaidade que tem transformado em impuras cinzas cabeças equivocadas quanto ao poder supremo dos cultores das letras. E que nesse advento o eterno Poeta viesse sob a plumagem de Fênix, não apenas para queimar consigo a estupidez de morríveis imortais, mas para o milagre do renascimento, tornando-os capazes de enxergar, dentro e fora de si, com os olhos da decência, e de caminhar humanizados com as sublimes sandálias da humildade.
   Para que servem inteligência e talento, se corrompidos pela fraqueza humana da cobiça e do egoísmo? Para que servem notoriedade, popularidade, fama e poder? E a inspiração, a criação, a genialidade, a verve, o imaginário, o belo, o conhecimento, a grandeza, tudo isso serve apenas para alimentar preconceitos e o ego insaciável dos vaidosos? Ou para nutrir o nosso pequeno, carente e poluído mundo letrado, tão desprovido de equilíbrio, de expiação, de ética e de sabedoria?
   Desconfio que a deusa Fama esteja mesmo ficando velha e que, por isso, tem provido, de forma aleatória, muitos galardões a bárbaros e distantes discípulos de Platão e Gutemberg, inebriando-os com o eufórico poder da palavra.
   Quanto a este meu lado literoprofano, desconfio que seja fruto da desilusão por assistir ao auto-endeusamento cotidiano de pássaros de pedra, de vôo noturno, sobrepondo-se quixotescamente ao brilho da ave que das cinzas ressurge como verdadeira imortal. Talvez eu só conheça a ânsia e a esperança de apreender o fogo das letras e imortalizar boas atitudes, sem medo, sem hipocrisia, nem sofismas, repelindo demônios e divindades empalhadas. Talvez, enfim, eu não entenda nada de deuses, de poderes e muito menos dessa imortalidade que anda incendiando cabeças.

   
   * José Pedro Frazão é membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e autor, dentre outras obras, dos romances “Tuiuiú, my brother” e “Nas águas do Aquidauana eu andei”.

   

___________________________________

   

   

Mad Maria, cheia de graça

   Pela primeira vez, desde sua instalação em 14 de outubro de 1914, Porto Velho ganha destaque nacional relevante, através de uma minissérie da Rede Globo de Televisão (a maior do país e uma das maiores do mundo), que, apesar de equívocos e ciúmes históricos mal explicados, coloca a cidade e região em evidência com uma ficção fantástica em torno da lendária Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.
   O imaginário e a arte cênica se uniram para cumprir seu papel ao largo da verdadeira e indestrutível história da E.F.M.M, que apenas em parte se empresta à construção do maravilhoso. A propósito, o seriado não se arrisca seguir toda a linha dos fatos e mistérios que cercaram uma das mais onerosas e polêmicas obras públicas do Brasil, iniciada ainda no império e concluída no princípio da república. O roteiro de Mad Maria, de gênero romanesco, embarca estrategicamente na última estação quando se baseia no final da epopéia sangrenta dessa ferrovia, para instar a criação verossímil. Logo, não pode ser confundido com um documentário fiel, nem traidor, pois não é a isso que se propõe especificamente a novela.
   Em que pesem sinceros e emotivos discursos em defesa da verdade (que verdade?) e a onda de cuidados para que não se deturpe a História, a Mad Maria, sem fumaça de dúvidas, é uma deferência singular ao povo rondoniense tão acostumado a dramáticas e descarriladas histórias reais, distante dos sonhos midiáticos e de utopias que lhe aplaquem o furor cotidiano de suas cachoeiras de problemas.
   Com Mad Maria na TV, o povo de Rondônia está mais orgulhoso e reverencia a deusa Fama que ungiu Porto Velho, para, quem sabe, agora, mostrar-lhe a estação do mundo e colocá-la nos trilhos do progresso e do desenvolvimento turístico. Porque, sem nenhum pessimismo, afora dormentes projetos de saúde e de segurança pública, vagões de notícias sobre crime ambiental, de violência entre índios e posseiros, mortes no campo e nos garimpos, doenças tropicais e epidemias até de corrupção política, quase não se tem visto na mídia algo capaz de bem projetar o Estado e, em particular, sua “mad capital”, no cenário televisivo brasileiro.
   Bem oportuna, pois, a fantasiosa Maria Louca, que, a despeito do impaludismo político-cultural que se lhe opõe, está literalmente lúcida e cheia de graça, na estrada certa, a todo vapor e sob a proteção de Santo Antônio, apitando para acordar a cultura de Rondônia e contribuindo para que Porto Velho não perca o trem da sua própria história contemporânea.

   

___________________________________

   

   

A praça não é nossa

    As palavras do comediante Carlos Alberto de Nóbrega, do programa “A Praça é Nossa”, do SBT, em recente entrevista, afirmando que “toda cidade tem uma praça”, buliram com os meus sentimentos de morador interiorano. A afirmativa contrariou-me porque moro numa cidade que não tem nenhuma praça.
    Minha cidade não tem praça para a comunidade se reunir e comer pipoca; não tem banco pra sentar nem pra colocar dinheiro; não tem parque infantil para as crianças brincarem, e muito menos área de lazer para idosos se distraírem. Ancião, aqui, só joga buraco quando se equilibra nas ruas, num eterno jogo de paciência. Nesta cidade sem praça, infância e velhice são dois extremos da exploração eleitoral, pois, no fundo, os enganadores do povo sem banco não bancam nem seus cheques e palavras sem fundos na praça.
    Praça, aqui, é soldado; praça é chofer de táxi; ou amigo boa-praça que se tem em abundância. E por falar nisso, que falta faz um banco pra sentar e ver o boi passar na rua; que tristeza não ter balanço para sonhos embalar; mas está “assim” de gente botando banca na praça para sentar-se nas bancadas do poder, onde o banco macio adormece os incompetentes, fazendo-os esquecer da praça, das praças e dos bancos.
    Não tem praça, porque eles não querem ver o povo sentar e pensar. Talvez saibam que o povo já sentou o que podia, quando os colocou sentados na praça do paço onde o pasto passa e repassa sem ver o tempo passar.
    Os que estão com calo no traseiro de tanto sentar, só estão lá porque tem eleitor que se vende sem pensar. Vende a praça, vende a cidade, vende a vergonha, vende o voto, e só não vende a alma porque não lhe parece possuí-la.
    E se o povo da minha cidade sem praça pensa que essa situação vai mudar dando assento às velhas raposas viciadas no poder, pode esperar sentado e sem pressa. Sentadinho no chão, pois é de onde os eleitores sem pátria vêem a grama crescer como suas orelhas, de tanto ouvir e aplaudir promessas sem fundo dos ladrões de sonhos, de bancos e praças.

   

___________________________________

   

   

Os imortais Mário Mendonça e Manoel Guimarães

   “Há homens que lutam um dia e são bons.
   Há outros que lutam um ano e são melhores.
   Há os que lutam muitos anos e são muito bons.
   Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis.”

   (Bertold Brecht)

   A humanidade costuma ter complacência com quem morre. E muito do que se diz das pessoas que partiram desta vida é geralmente coisas que os enalteçam. Mas há, na verdade, pessoas que fazem a diferença, como bem nos mostra Bertold Brecht em seu célebre pensamento que trazemos acima como epígrafe, sobre “aqueles que lutam toda a vida”: Eles só descansam quando morrem, e, mesmo cansados, parecem incansáveis; vão ao leito final carregando seus sonhos e planos e nos dando exemplo de tenacidade, sendo derrotados apenas pelos misteriosos desígnios da vida.
   Na segunda-feira, 31 de maio de maio e na quarta-feira, 2 de junho, respectivamente, perdemos dois amigos de imprensa: o repórter e cinegrafista Manoel Guimarães (Aquidauana) e o radialista Mário Mendonça (Campo Grande), duas pessoas que tinham muito em comum, pois, além da profissão de comunicador, eram profissionais perseverantes no que faziam e amavam profundamente Aquidauana.
   Mário, passando dos sessenta e Guimarães chegando aos oitenta anos, pareciam que estavam começando a profissão, se julgarmos pelo entusiasmo, dedicação, volume de trabalho e projeções de sonhos e planos. Não conheci um jornalista que em início de carreira tivesse o “pique” do Guimarães com seus cabelos brancos, ou do Mário com sua morena obesidade.
   Eles se foram, mas nos deixam um bom exemplo de que a morte é mesmo o descanso do guerreiro; de guerreiros incansáveis e amantes da luta. São eles, pois, dois imortais, porque permanecem vivos entre nós, não apenas como amigos, mas como mestres de suas tarefas, por quem a sociedade há de chorar.
   Em Aquidauana, Guimarães lutava pelo turismo e pelos direitos do cidadão, sempre indignado com os fatos avessos à cidadania. Tombou com honra, acometido de câncer. Em Campo Grande, o radialista, jornalista, cantor e declamador Mário Mendonça, baluarte do rádio sul-mato-grossense e também responsável pela radiodifusão do Governo Estadual, sofreu derrame cerebral.
   No início do ano, quando estive visitando Mário Mendonça, ele me pediu para ser fotografado comigo, exigindo-me que guardasse esta lembrança como ele guardava o meu livro “Nas águas do Aquidauana eu andei”, seu livro de cabeceira. Ele sabia (e o veterano Guimarães também sabia) que a vida é assim mesmo, cheia de surpresas, ora agradáveis, ora inexplicáveis, pois a vida é boa, mas é injusta.
   Na sessão OPINIÃO do nosso livro “Tuiuiú, my brother”, Mário faz uma declaração de amor a Aquidauana, escrevendo assim: “Não lembro como surgiu minha sedução pelo Rio Aquidauana. Afinidade, amores, amigos e o próprio lazer, sempre estiveram ligados ao rio. Talvez seja por esse o motivo de muitas pessoas me julgarem aquidauanense, o que, entre cúmplice e orgulho, nunca desmenti. Acabo de ler, de um fôlego, NAS ÁGUAS DO AQUIDAUANA EU ANDEI, trabalho primoroso de José Pedro Frazão, e me confesso impressionado. Seria uma obra de ficção? Um apelo ecológico ou uma contribuição didática? Respeitando o misticismo da narrativa, ao rever o Rio Aquidauana, parece que vou avistar o “Martins” ou encontrar a “Moça”, envoltos no mistério que me pareceu um sonho bom. Obrigado, Frazão.” (Mário Mendonça).
   Descansem em paz, amigos, com a certeza da lição que nos ensinou o jornalista Barão de Itararé: “A gente só leva desta vida a vida que agente leva”.

   

___________________________________

   

   

Rubens Corrêa, o décimo sexto espectador

   Assisti em 2004 em Aquidauana à peça “O Pequeno Príncipe no Mar de Xaraés”, um trabalho ecológico do Grupo Teatral Sul-Mato-Grossense Minas da Imaginação, baseado na obra consagrada da literatura mundial “O Pequeno Príncipe”, do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) e dirigido por Expedito Montrebranco.
   O espetáculo se deu no Centro Cultural Décio Corrêa (antigo Cine Glória), onde, incluindo-me, havia apenas quinze pessoas, entre adultos e crianças, que se mostraram todos "cativos" dessa viagem através do deserto humano e das riquezas do nosso Pantanal. No palco, a performance impecável dos atores nos envolvia em pensamentos entre fauna e flora representadas pelas telas dos artistas Humberto Espíndola, Teca Rosa e Rosana Bonamigo.
   Como na apresentação realizada na vizinha cidade de Anastácio, no dia anterior, o número de público fora ainda menor, convém dizer que o total de quinze espectadores de Aquidauana foi um verdadeiro recorde de público a lotar as primeiras cadeiras do antigo cinema.
   Ali, entre enigmas e espinhos da flor da arte, o vazio e o silêncio da cultura exumaram a presença de outro renomado personagem, um dos maiores dramaturgos brasileiros, o aquidauanense Rubens Alves Corrêa, o décimo sexto espectador. Ele estava em qualquer das cadeiras, vindo, talvez, do Pequeno planeta onde o mistério da infância ensina no ministério dos adultos a paz e o amor universal. Colocou-se entre nós seu espírito audaz como se fosse o próprio Saint a aplaudir o pequeno príncipe na versão pantaneira, olvidando o mar de cadeiras vazias. Rubens assistia calado, como anfitrião solitário e invisível, saudando em sua centenária Aquidauana os cem anos da despedida do piloto-escritor de Lyon. E naquele monólogo mágico, o décimo-espectador anotou em seu “Diário de um louco” que o “Futuro dura muito tempo”. E num “Ensaio Selvagem” subiu “A Escada” para ganhar “O Beijo da Mulher aranha”.
   Deixei a antiga casa de cinema, com suas lembranças de Décio, Rubens, palcos e sombras, e carreguei comigo as lições do Pequeno Príncipe de Xaraés que veio ensinar as pessoas a se humanizarem, a se cativarem e a se tocarem, mesmo que na platéia só estivessem quinze espectadores e um provável décimo sexto, pois foi Antoine de Saint-Exupéryque que disse: “É apenas com o coração que se pode ver direito, o essencial é invisível aos olhos."

   

___________________________________

   

   

A República do Cestão...

    Essa história de “cestão”, “panelão”, “sacolão” e outros “peixes escamosos” que são doados aos pobres como paliativo para controlar a fome e “pescar” votos, não é embuste só dos governos de hoje. A falta de vontade de ensinar a pescar e o medo de ensinar a pensar caminham juntos há muito tempo, nas veredas da cultura política de uma republiqueta comandada por homens cujo poder é garantido pela dominação dos seus compatriotas, através da exploração da miséria, da pobreza e da ignorância.
    Digo que esses “cala-bocas” e “engana-tripas” não vêm de hoje porque desde o Governo Militar minha pobre vozinha já “ganhava” leite em pó (leite de camburão) americano, num “saco” balanceado com fubá de milho e quirera de quibe, que eram distribuídos aos pobres, nos postos de saúde e em algumas igrejas conveniadas à “saudosa” Fundação Legião Brasileira de Assistência (LBA).
    A ficha de controle que registrava o saco de alimento, naquela época, não tinha espaço para o título de eleitor do beneficiado, e o controle da LBA (que já praticava assistencialismo em detrimento da promoção social) não era feito por políticos, como hoje, com reuniões onde se apregoa a bondade do governo e se insinua perda do “saco”, sutilmente vinculada ao resultado eleitoral. Mas não deixava de existir desvios de alimento e pressão psicológica por parte de alguns políticos infiltrados na fundação. Por isso, já era UM SACO!
    Naquela época também já se votava mais com a barriga do que com a cabeça. Como acontece hoje, apesar da sofisticação do “esquema” moderno que humilha, reprime, mata uma pequena parte da fome e destrói grande parte da esperança. A esperança de um povo que tem mais fome de educação e trabalho para prover com dignidade o próprio sustento.
    É nessa Republiqueta que vivemos, às vezes achando que evoluímos, que democratizamos, que nos desenvolvemos, que promovemos justiça e inclusão social, etc. Essa é a República do Cestão, do Panelão, do Sacolão, dos “bolsões” e dos “peixes” que vão ganhando matizes diferentes conforme a cor do partido e a barriga dos mandatários. Os discursos parecem sinceros, porque são acéfalos e equivocados, mas contraditórios. Não são fecundados na razão, pois não é daí que vem o voto da maioria.
    Na República do “Cestão”, o povo empurra o político com a barriga; e com barriga o governo empurra o país inteiro para dentro de um imenso e viciado sacolão cada vez mais eleitoral e irônico, como se dissesse: “Brasileiros, Meu povo, Minha gente, Cês tão...”

   

___________________________________

   

   

Uma lua para Abílio de Barros

    O espaço livre aos fundos da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, outrora baldio, mas hoje transformado em recinto helênico e aconchegante, por obra e magia do novo Presidente Francisco Leal de Queiroz, viveu seu momento de glória. Foi ali que, na plenilúnica noite de sete de novembro findo, o sodalício deu posse ao acadêmico Abílio Leite de Barros, admirável lente do magistério universitário, pecuarista e exímio escritor corumbaense (autor de “Gente Pantaneira”) que, além de sua iluminada grandeza, tem a sobreeminência de ser irmão do já consagrado maior poeta brasileiro da atualidade, Manoel de Barros.
    Enfim aconteceu a tão esperada festa, infinitas vezes protelada pela própria timidez do diplomando, cuja aversão à notoriedade se atribui a “doença de família” (o irmão Manoel se confessa, feito caramujo, avesso à imortalidade literária). Esta valiosa aquisição eleva sobremaneira a nossa augusta casa de letras e honorifica a cadeira de número 32, tão dignificada pelo patrono Weimar Torres e pelos seus dois únicos e anteriores ocupantes: Aldo Queirós e Eduardo Machado Metelo.
    O orador da noite, o não menos ilustre desembargador Heliophar de Almeida Serra (irmão do fundador da Academia, saudoso Ulisses Serra do “Camalotes e Guavirais”), ao saudar magistralmente o homenageado, trocou olhares confidentes com Artêmis, que nos espreitava do céu aberto, e anunciou, de intróito: “Até a lua, que não foi convidada, já chegou”. Naquele instante, a musa dos poetas, que já se derramava lânguida sobre o modesto “Academus” da Rui Barbosa, não se conteve em sua órbita de emoção e veio debruçar-se nas cercanias da solenidade, arrebatando-nos a todos, com sua irradiante e sensual beleza, visivelmente enamorada. Até que a fala calma e erudita do novo imortal nos levou por uma viagem de profunda reflexão, orbitando da Grécia antiga ao mundo atual de pouca melhoria humana. A platéia em transe flutuava doirada de lua e celebridades, pois dela já fazia parte a irmã de Apolo, que se encostara ao muro da academia, de onde emanava mais forte seus raios e degustava conosco as lições de Abílio desfilando Platão, Sócrates, Marx, Freud, ciência, religião, política, filosofia, literatura e suspiros poéticos.
    No auge da festa, inebriado pelo esplendor de Artêmis e com a íntima permissão de Baco, que reinava em nosso coquetel, aproximei-me da bela intrusa para cortejá-la antes que se evolasse no céu campo-grandense. Só então percebi, triste e enciumado, que naquela noite, véspera de seu eclipse, a deusa do crepúsculo já tinha escolhido um imortal para a sua lua-de-mel. O lascivo astro dourado descera para unir seu fulgor ao da Estrela Abílica, que se alinhara, naquele instante, à constelação acadêmica.
    Foi assim, sob o luar, que a Academia imortalizou um Barros. Foi assim que Abílio ganhou uma cadeira que ganhou Abílio que ganhou uma lua.

   

___________________________________

   

   

Um orgulho aquidauanense

   As homenagens póstumas devem ser pouco apreciadas pelos mortos. Por isso muitas personalidades são homenageadas em vida.
   Assim, admirem a arte e exaltem seus artistas para que eles em sorriso morram nos braços da honra e no leito da glória. Porque o que dói não é a morte, mas a desonra e o esquecimento.
   Por falar em arte, nunca me cansei de contemplar as cômodas e suntuosas dependências do Palácio Popular da Cultura, no Parque dos Poderes, em Campo Grande – aquele monumento arquitetônico, entre árvores naturais, traçado pela sutileza e inteligência do arquiteto Ruben Gil De Camilo para a comodidade da cultura sul-mato-grossense.
   É uma obra e tanto.
   Um misto de concreto e almofadas, espelhos e pedras, luzes e cores, espaço e luxo, segredos e jardins. Um aconchego digno para a arte e seus artistas, exposições, saraus, conferências e shows.
   Certa vez encontrava-me anódino a vagar pelo saguão do palácio, como se quisesse descobrir algo mais em suas entranhas. Na verdade perdera-me na poesia daquelas pedras, nas palavras daquele silêncio e no ócio da imaginação.
   Meus olhos maravilhados se arrastaram de inveja por dentro e por fora daquele prédio, numa investigação aguçada e prazerosa. E, sem que me desse conta, atravessaram as vidraças da sala principal e se foram colar na parede interna sobre um letreiro moldado em ouro, cuja composição gráfica formava o nome de uma pessoa – dada a proporção das letras só podia tratar-se de uma grande personalidade.
   O meu olhar, ainda agarrado àquele nome que em alto relevo emprestava-se a denominar a sala de comissões, trouxe-me a identificação final. Era mesmo o de um ilustre cidadão sul-mato-grossense: um aquidauanense, querido e imortal, que recebe em vida, da Cultura do nosso Estado, esta digna e merecida homenagem.
   Aquela agradável surpresa despertou em mim a alegria e o orgulho de ser aquidauanense, mesmo não tendo nascido em Aquidauana. O prazer de ser amigo do homenageado, mesmo estando aquém de sua grandeza. A satisfação de ser confrade desse escritor, mesmo não tendo o talento de sua verve literária. Essa pessoa fantástica dispensa maiores comentários, porque é um exemplo de vida e porque tanto orgulho já deu a Aquidauana e a nossa Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.
   Querem saber quem é esse misterioso homenageado que meus olhos descobriram em letras flamejando no Santuário Cultural do Estado? A sua vaidade não se assanha por isso, nem a sua simplicidade me permitiria alardear este tributo. Mas está lá, escrito em ouro, para imortalizá-lo e orgulhar Aquidauana, no Palácio Popular da Cultura: “SALA DE COMISSÕES HELIOPHAR DE ALMEIDA SERRA.”
   
   

___________________________________

   

   

O AMIGO DA ONÇA

   Quando criança, eu via os desenhos de Péricles na Revista “O Cruzeiro” e também nos jornais, mas não compreendia o sentido daquelas charges construídas pelo cartunista. Achava engraçado aquele personagem (o amigo da onça) de olhos e nariz grandes, porém mal percebia que ele vivia levando vantagens sobre os outros; vantagens desonestas; era o vilão herói; o bandido mocinho; criminoso vítima. Assim são certos “amigos” que tornam nossa vida uma charge: “Os amigos da onça”.
   Existe uma variedade de amigos: o “free-lance” – aquele ocasional, esporádico; o amigo político – que perdura só nas eleições ou enquanto se esteja no mesmo partido ou grupo; o amigo-irmão – enquanto se professa a mesma fé; o amigo marimbondo – aquele que só aparece pra ferrar; o amigo tamanduá – o que abraça querendo matar; o amigo urso – o que só se chega quando tem mel; o amigo de cachaça – que é fiel até que o álcool o domine; alguns são amigos só quando estão de fogo mesmo. E tem até o fogo amigo – aquele que, na guerra, mata os próprios aliados...
   Mas o pior de todos é “o amigo da onça” – aquele que você pensa que é amigo, dá-lhe regalias de amigo e, quando você precisa, ele se esconde, trama e às vezes ataca. Como onça não tem amigos, amigo de onça não é amigo de ninguém; é um ser irracional e predador; pessoa de garras escondidas em patas macias; aquele que nos procura só quando está em dificuldades, ou para se divertir (como a onça brinca com sua presa); é o “amigo mão única”, porque não sabe dar, só quer receber; só sabe usar e sovinar, porque só é amigo do próprio umbigo, das vantagens, dos seus interesses, das suas idéias, do seu orgulho.
   Tal como felino, “o amigo da onça” é liso, sorrateiro, calculista, cruel e traiçoeiro. Do alto da sua empáfia, só olha os outros de cima para baixo. Segredado e desconfiado, costuma rosnar forte para impressionar enquanto menospreza a própria amizade, a força, os direitos, os sentimentos e a inteligência dos que o rodeiam. Suas palavras são estudadas, mas afiadas como os dentes da onça; seus olhos flamejam de alegria quando devora e de ódio quando não é servido; e quando obtém a vantagem que persegue, fica em sua toca a ruminar gula e egoísmo. O jeito manso e calmo é parte da armadilha, da hipocrisia, do seu jogo.
   A vontade obsessiva de pisar, diminuir, enganar, dominar, sugar, arranhar, destruir e devorar qualquer um, faz do “amigo da onça” o pior inimigo, o mais asqueroso e prepotente de todos. Contudo, ele é pouco inteligente, porque inveja o leão, na ânsia inglória de querer ser como ele, rei. Por isso, vive tentando transformar os outros em seus súditos, escravos, até afugentá-los um a um de seu convívio.
   E como a presunção precede a queda, a Lei da Compensação da Natureza reservou para “o amigo da onça” um grande e inevitável castigo: a solidão. Ele está condenado a encerrar seus dias isolado na própria ilha de egoísmo que construiu durante a vida. Só uma coisa nunca abandonará “o amigo da onça” no catre de seu exílio social: a soberba, velha companheira, que, num gesto de misericórdia, o induzirá a pensar que ele é que é a vítima da crueldade humana.

   
   

___________________________________

   

   
   

O livro imperdível de Raquel

   Ela só queria mostrar os segredos interessantes da intertextualidade que entrelaçam obras de Manuel Bandeira, Cecília Meireles e Rachel de Queiroz a uma história sacra da idade média, como tese de Mestrado em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo. Mas acabou produzindo, com sua poética lente de investigadora literária, uma verdadeira obra de arte e de consulta indispensável para os amantes das letras, sobretudo, aos docentes e discentes de vários níveis.
   Refiro-me à professora e escritora campo-grandense Raquel Naveira e ao seu novo livro, Maria Egipcíaca, publicado este ano pela editora da UCDB.
   Santa Maria Egipcíaca é uma lenda medieval constante no famoso livro dos santos da Igreja Católica (Flos Sanctorum). Trata-se da história de uma prostituta sedutora e contumaz que, arrependida e divinamente inspirada, se converte e passa o resto da vida fazendo penitência no deserto. Entre os muitos artistas do mundo inteiro que se renderam ao episódio, estão esses três fenômenos da literatura brasileira, que Raquel Naveira, inteligentemente, inquire e acorrenta à luz de sua prosa, focalizando de um prisma divinal a intersecção propositada da tríade com a lenda hagiográfica: O poema Oratório de Santa Maria Egipcíaca, de Cecília Meireles; o poema Balada de Santa Maria Egipcíaca, de Manuel Bandeira, e a peça teatral A Beata Maria do Egito, de Rachel de Queiroz.
   Raquel Naveira é graduada em direito e letras, pela antiga FUCMAT, professora de Língua Portuguesa e Literatura Latina da Universidade Católica Dom Bosco (onde também é apresentadora do programa “Prosa e Verso” da TV UCDB), membro da Academia Sul-Mato-Gossense de Letras e tem vários livros publicados (entre eles O arado e a Estrela, Abadia, Casa de Tecla, Stella Maia, Senhora e o mais recente Casa e Castelo). Traz-nos, agora, este empolgante livro-ensaio literário, fruto de sua bem-fadada dissertação.
   A sensibilidade com que a nossa escritora tece esta prosa didática remete à construção de seus poemas, em especial o premiado “Maria do Egito” – cujos versos transpõem suas qualidades de ensaísta para reiterar a face e a fase poética da própria autora em dilema idêntico ao dos escritores acima citados.
   Sob a égide da consagrada teoria de Mikhail Bakhtin e dos conceitos de Genette, Artaude, Raul Castagnino, Gilberto Freyre, Sarmento, Saramago Dom Servilio Conti e outros renomados críticos e pensadores, Raquel Naveira nos leva aos meandros do maravilhoso cristão e do conhecimento de uma parte importante da ciência poética e teatral. A leitura do seu livro é um prazeroso aprendizado analítico e pedagógico dos encantos da menipéia, do pastiche, do dialogismo, da carnavalização, da paródia e de todo o universo da intertextualidade, mormente acerca dos textos comentados de Manuel Bandeira, Cecília Meireles e Rachel de Queiroz – fatores que tornam Maria Egipcíaca uma obra, realmente, imperdível.

   

___________________________________

   

   

VISÃO DE FUTURO

   Município de Taunay, 19 de abril de 2010.

    Excelentíssimo Leitor:
    Estou em Taunay, terra de índio bom. O lugar é paradisíaco. Portal do Pantanal, coração verde do planeta, recanto dos encantos sul-mato-grossenses.
    Aqui, a grande Nação Terena se restabeleceu, reencontrando seu nicho sagrado, plantando em terra fértil sua cultura tantas vezes ameaçada de extinção. Tornou-se o primeiro município indígena do Brasil, não apenas para resgatar a sua dignidade pátria afligida desde as entradas e bandeiras, mas para ajudar o país a reconhecer o índio como um primogênito. Um filho herói que lutou contra invasores e demarcou com o próprio sangue o território nacional.
    Há um ano (em 2009), Taunay empunhou sua lança e bradou ao mundo sua liberdade, lutando, com arco e flechas de sabedoria e sob a égide democrática, para se tornar independente, emancipando-se de Aquidauana do qual era um acanhado distrito, pobre e submisso, discriminado às vezes pela cultura de alguns segmentos não-índios. Agora, imponente, promissor e maior centro de atração turística do Estado, Taunay é o município mais visitado do Brasil, por diversas comunidades do mundo. Sem desfigurar as características nativas das aldeias, algumas universidades, juntamente com órgãos governamentais e não-governamentais e organizações internacionais ligadas ao meio ambiente e aos direitos humanos, transformaram Taunay num verdadeiro laboratório de turismo e de pesquisa sobre a origem do homem na terra.
    A sede do município terena está em festa, por que hoje, 19/04/2010 (segunda-feira), se comemora o seu primeiro aniversário de emancipação político-administrativa. Crianças, jovens e adultos, trajando tangas de puro algodão, com adorno de sementes naturais e penas de ema, trabalham na decoração do Centro de Tradições Terena (CTT); anciãs produzem quitutes de mandioca e uma infinidade de iguarias típicas; flautas e tambores são afinados para acompanhar as danças, entre as quais a tradicional dança-do-bate-pau. Um cocar gigante enfeita a entrada principal da cidade. Logo adiante uma enorme estátua, talhada em madeira, aguarda para ser descerrada. É um busto do Visconde de Taunay que se inaugura junto com a praça do mesmo nome, em homenagem ao consagrado escritor carioca que escreveu A retirada da Laguna e Inocência e que levou, pela primeira vez ao mundo, através da França, a literatura brasileira e as belezas do Pantanal.
    As aldeias de Limão Verde, Córrego Seco, Água Branca, Bananal, Ipegue, Lagoinha, Embiruçu, São José, Morrinho e Colônia Nova, todas estão representadas na câmara legislativa de Taunay e, hoje, prontas para demonstrarem, na festa de aniversário, sua alegria, sua cultura, suas artes, sua produção agrícola. O município é forte produtor agropecuário e tem a maior indústria de peixes de cativeiro do Estado. Mas é além de tudo um pólo turístico rico em artesanato, trilhas ecológicas, monumentos históricos e, ainda, sede das grandes olimpíadas indígenas do país. O povo de Taunay, em torno de doze mil habitantes, é um povo feliz. Não há sequer analfabetos (todos os índios freqüentam escolas e falam duas línguas – terena e português), com exceção dos guias turísticos, que são poliglotas.
    Aqui existe o verdadeiro exemplo de desenvolvimento sustentável. A economia é abundante e aplicada com justiça social entre as dez aldeias, suprindo todas as necessidades básicas da comunidade. A preservação do meio ambiente é palavra de ordem. As casas têm características próprias, rústicas e aconchegantes. As ruas são de chão batido, mas totalmente saneadas. A urbanização é bem diferente das cidades comuns, dando-nos a idéia de uma grande maloca, com muito conforto e bem-estar.
    Este é o município de Taunay, um modelo de desenvolvimento e valorização sócio-cultural, que veio contrariar as idéias e os interesses daqueles que não acreditam na liberdade, na inclusão social, na força e na cultura próprias de um povo.
    Lamento ter que encerrar esta carta, mas o cheiro desses quitutes toneenses está irresistível, e o prefeito terena (que insiste em ser chamado de cacique) já está na praça do centro cultural, diante do povo e ao lado das demais lideranças indígenas, autoridades brasileiras e francesas, inaugurando a estátua de Taunay.

   

___________________________________

   

   

O falso altruísmo

   “Quando, pois, deres esmolas, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas (...) para serem glorificados” (M 6:2).

    Não gostaria de citar chavões religiosos, do tipo que usei como epígrafe; nem filosóficos, como este: “O homem é o lobo do homem...”
    Todavia, faz-se necessário lembrar dessas frases ante a afronta propagandista que se nos apresenta diariamente na televisão brasileira, rádios e até em jornais. A divulgação escandalosa de falso altruísmo praticado por artistas, autoridades políticas, empresários, apresentadores, locutores, vem se tornando um abuso e um desrespeito muito grande à dignidade humana.
    Declinamos os nomes dos “santos” para não nos tornarmos seus algozes, mas repudiamos seus falsos “milagres” para alertá-los sobre o mal que produzem com essas atitudes exibicionistas. A busca da notoriedade pessoal e do melhoramento de audiências não pode expor a deficiência alheia, em especial de pessoas inocentes, indefesas, doentes, aleijadas, deprimidas, cuja dignidade carece de resgate e não de exploração.
    Ver pela TV e jornais e ouvir nos rádios a propagação da miséria humana em promoção de outros humanos, tudo isso causa constrangimento a nós leitores, telespectadores e ouvintes, quanto mais às vítimas desses caçadores de galardões que, em nome da política, da fama ou do capitalismo, sugam a última dor do próximo para sua autopromoção. Há, inclusive, os que fazem tudo isso apenas com o objetivo de aliviar encargos tributários.
    Se for assim que buscam ser altruístas, há um equívoco. Um deficiente numa cadeira de rodas, por exemplo, precisa ser ajudado, valorizado, estimulado, amado, respeitado e não exposto como “coitadinho” que está sendo salvo pelos “bonzinhos” dos segmentos sociais privilegiados. Levemos nossos deficientes ao rádio, ao jornal, à TV, à igreja, à praça pública, mas para homenageá-los, promovê-los, e não para lhes dar esmolas.
    Da forma como estão fazendo os políticos (muitos por obrigação), religiosos, empresários e artistas, no afã de se mostrarem altruístas, estão na verdade sendo “lobos do homem”; portanto, em nada colaborando para o resgate da dignidade do próximo, que é missão do altruísta verdadeiro. Filantropia e combate às desigualdades existem, porque existem altruístas de verdade, que, num total anonimato, ajudam de várias formas pessoas necessitadas. Um exemplo são os grupos de caridade que atendem asilos, albergues ou periferias, doando roupas, remédios, ou fazendo e servindo sopa a centenas de famintos.
    Quando, pois, ajudares o próximo, não faça diante da platéia, da TV, no rádio, nem com sua foto no jornal. Não basta ser altruísta; tem que parecer altruísta não “se aparecendo” como “salvador” dos excluídos, na busca hipócrita de salvar-se a si mesmo.

   

___________________________________

   

   

Banda Quilomboclada

   Acabara de chegar em Porto Velho, para passar o Natal de 2004, e o meu reencontro com a terrinha não poderia ter sido mais agradável. Depois de degustar inconfundíveis iguarias da região, sob o calor da cidade e de amigos e parentes, fui logo presenteado com um espetáculo musical no mínimo interessante, em que humildes brinquedos para crianças carentes serviram de ingresso beneficente, na explanada do SESC.
   O show filantrópico, organizado por extravagantes e simpáticos motociclistas denominados "Gaviões da Amazônia", brindou o seleto público com apresentação de artistas de diferentes tribos e de grande performance.
   Mas um grupo me chamou a atenção, em particular. Era composto de jovens excêntricos, barulhentos, que agitavam cabelos, toucas, guitarras, percussão, idéias e platéia, numa perfeita interatividade em que a alma do público se agitava e se completava com o espírito caboclo da música telúrica.
   Sou deveras leigo no assunto e por isso falo apenas no sentir musical que essa banda nos proporcionou. Tinha algo de híbrido no estilo e de misto nos sons, na dança, na ginga e na raça, como se fossem índios, anjos ou soldados da borracha fazendo músicas de metal, num contexto alucinante. Só o texto, social e ambientalmente correto, não deixa dúvidas do valor que eles representam para uma cultura agonizante como a nossa.
   Não sei se a base era rock, rap, hip-hop, candomblé, ou tudo isso high-class fazendo um protesto contra os males e as injustiças sociais que deságuam na discriminação cultural. Mas sei que ouvi um refinado som de ouro-metal, filosoficamente beiradeiro, negro, branco, caboclo, brejeiro, urbano, rural, garimpado nas letras inteligentes, ousadas e verdadeiras, compostas por esses jovens artistas de vozes inclementes e indignadas que nos fazem refletir.
   Naquele palco, vi o ouro de Rondônia minando nas cabeças, nas margens, na beira, na eira, sem mercúrio, sem drogas, sem ignorância. Vi a essência do boto brotando na reflexão de quem pensa e canta para formar consciência, em defesa da vida, da liberdade, da igualdade, do humanismo e do bioma amazônico. Vi um ritual de músicas e sons místicos exorcizando entidades alienígenas daninhas que sufocam e matam gradativamente nossas raízes culturais.
   Procurei saber sobre o fenômeno que desfralda essa importante bandeira de resgate na proa da nossa canoa musical e descobri que esse grupo de jovens artistas rondonienses é autônomo e tem o sugestivo nome de "Banda Quilomboclada", a quem rendo, com orgulho de autêntico beiradeiro, toda a minha modesta, mas sincera deferência.

   

___________________________________

   

   

Uma mensagem a Garcia e Dona Tota

   (discurso em homenagem ao radialista Antônio Garcia e esposa Tota, por ocasião de suas bodas de diamante)

   Há 115 anos, quando o jornalista Elbert Hubbard fez sucesso com o texto Uma mensagem a Garcia, escrita numa noite como esta de 10 de janeiro de 2004, depois do jantar, a 22 de fevereiro de 1899, aniversário de Washington, a nossa querida Aquidauana contava com apenas sete anos de fundação.
   A cidade Princesa do Sul não esperava que anos mais tarde fosse presenteada com o aportar de um grande homem determinado a contribuir com o progresso aquidauanense, promovendo comunicação de forma pura, simples e apaixonada, como apaixonada, simples e pura é sua própria vida.
   Quero, na simplicidade deste texto, alardear a grandeza desse homem... Desse casal... Que não apenas comemora hoje suas Bodas de Diamante, mas todas as bodas de um casamento que eles fizeram com Aquidauana: A Dona Tota, na lua-de-mel da caridade e da abnegação que sempre manteve na Creche Bezerra de Menezes, promovendo a felicidade de milhares de crianças; e o Seu Garcia, num matrimônio fiel com a radiodifusão, mantendo Aquidauana informada e nutrida de mensagens edificantes para a vida e para a nossa alma.
   Parafraseando o autor de “Uma mensagem a Garcia”, quero dizer que ultimamente temos ouvido muitas expressões sentimentais, externando simpatia para com os pobres entes que mourejam de sol a sol, para com os infelizes desempregados à cata do trabalho honesto, e tudo isto, quase sempre, entremeado de muita palavra dura para com os homens que estão no poder.
   Nada se diz do patrão que envelhece antes do tempo, num baldado esforço para induzir eternamente desgostosos e descontentes a trabalhar conscienciosamente; nada se diz de sua longa e paciente procura de pessoal, que, no entanto, muitas vezes nada mais faz do que "matar o tempo" logo que ele volta as costas.
   Não há empresa que não esteja despedindo pessoal que se mostre incapaz de zelar pelos seus interesses, a fim de substituí-lo por outro mais apto. E este processo de seleção por eliminação está se operando incessantemente, em tempos adversos, com a única diferença que, quando os tempos são maus e o trabalho escasseia, a seleção se faz mais escrupulosamente, pondo-se fora, para sempre, os incompetentes e os inaproveitáveis. É a lei da sobrevivência do mais apto. Cada patrão, no seu próprio interesse, trata somente de guardar os melhores - aqueles que podem levar uma mensagem a Garcia.
   Nesta demonstração de compaixão vertamos também uma lágrima pelos homens que se esforçam por levar avante uma grande empresa, COMO A RÁDIO INDEPENTE DE AQUIDAUANA, cujas horas de trabalho não estão limitadas pelo som do apito e cujos cabelos ficam prematuramente encanecidos na incessante luta em que estão empenhados contra a indiferença desdenhosa, contra a imbecilidade crassa, a ingratidão atroz, justamente daqueles que, sem o seu espírito empreendedor, andariam famintos e sem lar.
   Quero lançar uma palavra de simpatia ao homem que sabe chegar a GARCIA e que sabe ser um GARCIA, que imprime êxito a um empreendimento; ao homem que, a despeito de uma porção de empecilhos, sabe dirigir e coordenar os esforços de outros e que, após o triunfo, talvez verifique que nada ganhou; nada, salvo a sua mera subsistência e a felicidade de poder comemorar 60 anos de feliz casamento.
   Nem todos os patrões são gananciosos e tiranos, da mesma forma que nem todos os pobres são virtuosos.
   Todas as minhas simpatias pertencem ao homem que trabalha conscienciosamente, quer o patrão esteja, quer não. É o homem que, ao lhe ser confiada uma carta para Garcia, tranqüilamente toma a missiva sem fazer perguntas e sem intenção oculta de jogá-la na primeira sarjeta que encontrar, ou praticar qualquer outro feito que não seja entregá-la ao destinatário; esse homem nunca fica "encostado", nem tem que se declarar em greve para forçar um aumento de ordenado. Ele é capaz até de construir uma rádio com suas mãos apegadas a um virtuoso MARTELINHO, como fez o Garcia de Aquidauana.
   A civilização busca ansiosa, insistentemente, homens nestas condições. Tudo que um tal homem pedir, ser-lhe-á de conceder. Precisa-se dele, em cada cidade, em cada vila, em cada lugarejo, em cada escritório, em cada oficina, em cada loja, fábrica ou venda. O grito do mundo inteiro praticamente se resume nisso: "Precisa-se, e precisa-se com urgência, de um homem capaz de levar uma mensagem a Garcia".
   E Nós encontramos o NOSSO GARCIA, porque ele também nos encontrou. O nosso Garcia é especial, porque se tornou, ao mesmo tempo, o destinatário da nossa homenagem e o GRANDE MENSAGEIRO que durante sua vida, ao lado de sua eterna companheira TOTA, levou mensagens a milhares de destinos, especialmente a todos NÓS, Aquidauanenses.
   Receba, Garcia e Tota, a nossa mensagem de gratidão.

   

___________________________________

   

   

Uma tesoura que completa 45 anos

   Os tempos modernos transformaram antigas barbearias em salões de cabeleireiros, com o requinte da moda que anda pelas cabeças do novo tempo. Cremes e cortes radicais ou simples, para todos os gostos, mãos e máquinas habilidosas, secadores e aparatos modernos parecem esquecer no passado o velho trio tesoura, pente e navalha desfiando brilhantina.
   O mais antigo barbeiro de Aquidauana, em atividade, Jarbas Saravi, 74 anos, está completando 45 de profissão ininterrupta neste ano de 2004 e mantém como outrora a sua tradicional “Barbearia Copacabana”, que foi inaugurada em 1958, no Bar Cabeça Chata (de Elídio Teles de Oliveira) e há 22 anos funciona à Rua Marechal Mallet, 326, próximo aos Correios e Telégrafos.
   Naquele tempo, Jarbas dividia o salão com Neném, Floriano e Pedro, cujas tesouras falavam e ouviam, entre perfumes e espelhos, sobre a vida da “Princesa do Sul”, principalmente da política dos coronéis.
   Mas o veterano ainda resiste, compensando a modernidade com a experiência. E sob sua cadeira giratória, cabelos brancos e negros se misturam para confabular histórias de ontem e de hoje, no fio da tesoura que há quatro décadas e meia continua na cabeça de muita gente.

   

___________________________________

   

   

História real: Uma cadeira condenada à morte

   Aquela menina-moça, curvada em sua cadeira de rodas, ainda consegue sorrir. É um sorriso cada vez mais esporádico, furtivo e eivado de dor, mas é a sua única arma, com a qual tenta, inutilmente, cooptar a sensibilidade do mundo, que gira perdido em rodas de cadeiras, de poder, de egoísmo, indiferença, avareza e falso altruísmo.
   Eu sei da metamorfose daquele sorriso que está se apagando junto com ela. Quase sei o quanto vai durar. Sei que o destino lhe reservou esse sacrifício, mas sei também que a solidariedade à sua volta se atrofia mais que ela, pois a dor da menina-moça vem sendo apenas apreciada pela multidão de olhares curiosos.
   Sei, ainda, que muitos desses olhares inertes podem semear neste texto a pecha do oportunismo, própria da ignorância que os conduz. Porque são propensos a desconhecer a anuência dos personagens desta história real a quem empresto minha pouca e confidente lavra, como último apelo para salvar uma vida.
   Neste momento, a literatura sai da clausura, porque o imaginário não é páreo para a realidade. Porque os monstros e quimeras invadiram o mundo real, para sentir na pele o que somente os ossos ainda vivos daquela cadeira de rodas são capazes de traduzir. Para ouvir os gritos silenciosos da menina dos olhos da menina da cadeira.
   Seria apenas uma triste história de ficção se não fosse real e cruel. Se a verve do escritor não fossem seus próprios olhos. Mas a verdade, leitores, é que, pela décima sexta vez, o Natal da jovem anastaciana Damires não será como o das outras pessoas. A sua esperança é terminal porque o mundo fingido, insensível, vê apenas uma cadeira condenada à morte, entre rodas de outras humildes e esquecidas cadeiras, enquanto o sorriso da menina-moça está morrendo de esperar pelo socorro médico que não vem e aonde sua cadeira de rodas não vai sozinha.
   Vítima de meningite quando criança, Damires vive na juventude o pior estágio da doença neurológica que vem atrofiando seu corpo, esmagando-a de forma inexorável. O problema é que ela é pobre e seus direitos à saúde não proveram além de uma cadeira de rodas no antro miserável e repugnante do assistencialismo político que, covardemente, se alardeia misericordioso.
   Parece-nos, às vezes, que a deformação física é o que menos preocupa Damires, que já se acostumou a rastejar e a depender dos cuidados carinhosos de sua mãe, com quem mora num deficiente casebre na cidade de Anastácio. As fortes dores na coluna frágil e vergada sobre pernas e braços murchos e imóveis e a dificuldade para respirar e alimentar-se são o que mais a incomodam no seu progressivo sofrimento diário. Mas a dor maior, ainda, é a desesperança, alimentada pela omissão social e o descaso de quem tem o poder de encaminhá-la e de abrir as portas da casa de saúde especializada, que se apresenta como única salvação, a despeito de milagres que o Divino tem poupado à beça nesse mundo ímpio.
   Damires já mendigou o que podia, já implorou o que devia, enfrentando a impassibilidade humana, a humilhação, a discriminação e a exclusão. Abatida no seu peregrinar, quase não fala, quase não olha, quase não sorri. A sua luta inglória já faz dezesseis anos e ela vê cada vez mais distante o seu sonho de um dia poder andar, aprender a ler e a escrever como as jovens de sua idade. A menina-moça com jeito de criança nem se importa tanto com os presentes tradicionais de Papai Noel. Ela só deseja que alguém da alta roda do poder saia da ficção e abrace de verdade a sua cadeira, abrindo-lhe o coração e as portas do Hospital Sarah Kubitschek, em Belo Horizonte.
   Faz dezesseis anos que poderosos insensíveis inclinam a cabeça apenas para olhar o sorriso rasteiro daquela cadeira. O resto eu não vou falar, porque o poeta Gabriel Garcia Marquez já nos antecipou quando disse: “um homem só tem o direito de olhar o outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se”.

   

___________________________________

   

   
   

ADMIRADOR SECRETO

    O dia chegou chuvoso. A taberna onde Manoel Cascudo costumava prosear acordou molhada, com as horas se espreguiçando na parede durante toda a manhã.
    Pela vidraça úmida os olhos do balcão seguiam, em silêncio, guarda-chuvas que singravam buliçosos o curso da calçada. Os de Manoel corriam pelas mesas solitárias à caça implacável do jornal do dia que um menino encharcado atirara pela janela.
    Manoel aparentava estirpe nobre, era bem-falante e apessoado, mas quase um miserável, sem emprego fixo e de mal com a sorte. Morava por aí. Costumava ganhar tablóides lidos dos fregueses que invariavelmente também lhe pagavam uma xícara de pingado. Mas naquele dia de nuvens negras, nenhuma branca alma havia para lhe aplacar a vontade que estava de esquentar as tripas, conquanto a chuva deixara o dono do Café com cara de poucos amigos.
    O jeito foi sair com o jornal na cabeça e a chuva na calça de mescla azul, em direção à praça, para onde o relógio o empurrava célere, na ânsia de cumprir o combinado das nove horas. Ali, num banco de cimento, entre gotas de água e de letras, encarou vento frio e soletrava as quentes do jornal com o olho morno na rua. Incontinenti, uma freada brusca de pneus lhe arrancou de susto o tablóide do rosto ensopado, e do carro de luxo desceram dois saltos altos de andar atraente, que estancaram diante do par de alparcatas, com ar de interrogação e dilúvio:
    – Manoel?!
    – Maria?!
    A pororoca foi inevitável. Os corpos molhados se encontraram bravios. O jornal, indefeso, quedou carregado pelo vento insano, decompondo-se na água morta do chão. Mãos se procuravam, perdidas de desejo, e braços se encontravam em redemoinho. Lábios colidiam ofegantes sob trovoadas de corações em chama. A rua espreitava tudo. Olhos masculinos se atiravam feito boto nas ondas sedutoras do vestido molhado; os femininos, de través, desdenhavam a fusão ardente. As águas que despencavam forte eram figurantes celestes daquele inusitado encontro, até que os dois mergulharam exaustos no carro que esqueceu a praça.
    No último domingo de verão, um chofer engravatado estacionou na porta da Matriz e o casal deixou a igreja com os convidados em festa. O choro de um menino avisou que a primavera enchia de felicidade o lar de Manoel e Maria. O destino havia cumprido sua tarefa, de tal forma que o macaréu se fazia permanente naquele rio-mar de paixão.
    Maria das Dores, formosa e delicada, tinha fartura nos lábios, a cor do entardecer e olhos e cabelos da noite. Era órfã e herdeira de invejável seringal amazonense. Aquele era o primeiro homem da sua vida e com quem dividia o coração e a lida empresarial que se ampliava pela crescente produção de borracha, sorva e castanha-do-pará.
    Manoel Cascudo nunca mais reclamou da sorte. Casara-se com a fortuna e a beleza. Sua vida mudara completamente. Apenas tornava-se áspero no trato com a esposa quando ela, aos dengos, lhe cobrava palavras poéticas e românticas. Maria sentia falta das doces mensagens de amor que outrora lhe traziam os misteriosos bilhetes perfumados do seu “Admirador Secreto” Manoel.
    Certa feita, ele encontrou, às escondidas, os bilhetes apaixonados que ela guardava como relíquia no fundo de um baú de aviamentos. Também comprou no Regatão o perfume que embebia as mensagens. Para ele foi a chave do problema: quando ela soltava os cabelos e ficava com cara de pororoca, ele recorria à fragrância e às palavras dos tais bilhetes, repetindo-as, ainda que um tanto quanto prosaico. Assim, o romantismo voltava a reinar, o amor entrava em redemoinho e Maria se amoldava febril em seus braços como no encontro sob a chuva. Aos domingos, ela dava folga aos seringueiros e se transformava em mãe-d`água, nos igapós, com o seu encantado Manoel declamando os versos achados no baú. Sentia-se outra vez cortejada, delirando a cada palavra e toque aromatizado do marido. Com sorriso manchado de açaí, a volúpia dos seus lábios ecoava na floresta excitando a mata virgem. Era uma deusa flutuando entre vitórias-régias, vivendo a magnitude do amor com que tanto sonhara na clausura dos pais.
    No inverno, com os armazéns transbordando, Manoel fez sua primeira viagem de negócios, levando no navio a imagem do filho e a lembrança da boa esposa. Nesse período em que administravam o seringal, tinham como único meio de comunicação a correspondência flumínea. Mas ela, porém, afeita à criança e ao trabalho, contentava-se com a recordação da praça, do jornal ao vento, do encontro das águas, do banho no igapó e dos versos que ainda borbulhavam em seus ouvidos.
    A distância trouxe tristeza e saudades. O tempo, para Maria das Dores, tornou-se inimigo do amor, obstáculo da paixão. Suas noites se davam à releitura dos bilhetes. Manoel, porém, a bordo de sua longa viagem, vestido em cambraia, deleitava-se em prosa com uma garçonete que conhecera na embarcação e que lhe fez prazerosa companhia – como era costume dela, especialmente em se tratando de emergente seringalista.
    Bastaram quatro palavras, “Você é uma rosa”, que Manoel decorara num dos bilhetes, para que a jovem se derramasse em pétalas.
    – E você é um cravo – respondera a donzela, enquanto lhe servia delicioso creme de cupuaçu.
    – É a única rosa que tem todo o aroma da floresta; seiva da seringa que o hálito dos meus beijos defuma – rebuscou.
    – Estou encantada com suas palavras e atraída pelo cheiro da borracha, que me excita – revelou a mulher.
    Manoel acordava com a cabeça em Maria e o corpo nos braços da Rosa, que migrara para o seu camarote, de mala e cuia, meiguices e perfumes. O coração do seringalista abrigava, agora, dois amores. Cedera aos encantos da mulher do rio e preservava as lembranças da mulher da chuva.
    As viagens tornaram-se freqüentes e longas, como as noites da esposa e os dias do filho. As frases dos bilhetes segredados que aprendera eram armas infalíveis com que abatia suas rosas, margaridas e mariposas. Em cada porto, plantava em coração solitário sementes de amor etéreo, e, no navio, as marcas do admirador secreto abundavam os segredos das madames viajantes.
    Na solidão do seringal, dia do seu aniversário, data em que estava mais ansiosa por uma carta, Maria recebeu um buquê de flores e um bilhete, com estilo bem familiar. Num frenesi de amor e saudades, com as mãos trêmulas e o coração palpitante, devasta o papel que em letras douradas declara: “Dona Maria, perdoe-me. Mas preciso confessar-lhe. Compareci ao nosso encontro, na praça, às sete horas conforme combinado. Eu a esperei até oito horas, debaixo de chuva. Depois, desiludido, voltei para o recolhimento da minha solidão. Vossa Mercê sumiu por um tempo e agora vejo que está casada e certamente feliz. Não posso esconder que continua linda e que eu a amo muito. Quis manter-me secretamente e acabei perdendo o grande amor da minha vida. Estou indo embora para muito longe, tentando esquecê-la, mas deixo-lhe meus votos de felicidades. Com muito amor, carinho e respeito. Feliz aniversário. Assina: O seu eterno admirador secreto, Manoel”.
    Lágrimas de amargura sulcaram o rosto confuso de Maria durante noites passadas em claro. No navio, o marido contemplava as ondas do Rio Negro confortado nas curvas de Rosa, que se tornou sua acompanhante oficial. A lembrança da esposa era chuva fina esvaecida pelo calor da amante. A viagem de trabalho, diversão e luxúria. A brisa do rio entorpecia o casal, que em risos e beijos numa rede de seda balançava a relva do barranco. Era Rosa quem ouvia, agora, as palavras de amor que Manoel transportava dos bilhetes do baú aos corações flutuantes.
    Cartas de Manoel não avistavam terra. Bilhetes e flores eram fantasmas na casa triste. Apenas difamantes notícias corriam por água para afogar o coração de Maria das Dores, que numa acertada decisão saiu em busca do marido errante. Não foi difícil lográ-lo no camarote com a outra – um vexame que fez naufragar o casamento.
    Na vã tentativa de reconciliação, Manoel se ausentou das viagens, mas encontrou fechados coração e casa. Só lhe restou o abandono e a opção de curar-se nos braços de Rosa, que deixara em prantos no navio. E foi para lá que se largou, investindo seu último dinheiro numa passagem de terceira.
    Como um condenado que alimenta a esperança de salvar-se, palmilhou toda a embarcação a procura da amante, seu refúgio final. O desespero foi aumentando a cada resposta negativa sobre o paradeiro da mulher do camarote, até que o dedo da cozinha apontou furtivamente para o porão do navio, indicando que ela estava no convés. Esperançoso, desceu a escada do tombadilho, que o levou até a grande máquina por um corredor escuro e barulhento que exalava pitiú de tambaquis e pirarucus dependurados. Mais adiante, sobre um fardo de cernambi, entre latas de graxa e sacos de estopa, seus olhos vidrados encontraram o corpo de sua amada. Ela refletia a luz de um candeeiro na pele alva e sedosa; estava bela e despida; seu dorso banhado de suor e carapanãs. Era pura flor desabrochada; era lontra gemendo, iara contorcendo-se em delírio, peixe-mulher cavalgando aos gritos e risos ofegantes, balbuciando palavras doces que aprendera com Manoel. E sob ela vociferava feliz o gigante e rude maquinista do navio.
    Os espinhos da rosa traspassaram o coração debilitado de Manoel Cascudo, que saiu correndo escada acima até atingir o toldo do navio. Naquele instante, a embarcação também era traída pela tempestade e pelo banzeiro. Ele hesitou por alguns minutos agarrado ao mastro, admirando a pororoca e o rebojo deixado por um cardume de botos vermelhos que iniciava a piracema. Os gemidos da água se confundiam com os que vinham do porão. As imagens da amante, da esposa e do filho eram lâminas que lhe cortavam a pele de seringueiro para extrair o látex da vida. Sem que ninguém notasse, atirou-se atrás dos botos na turbulência das águas negras.
    A viúva dedicava-se inteiramente ao filho e ao trabalho. Seu coração magoado nunca mais se enamorou. Mesmo tendo passado um ano da separação e sentindo-se levemente atraída sem maiores arroubos por um arigó que acabara de contratar, mantinha firme sua opinião de que todos os homens são iguais: admiradores, secretos e traidores. Mas aquele humilde seringueiro, de rosto sofrido, tímido, e de porte físico atraente, a incomodava a ponto de fazê-la sentir-se vulgar. Às vezes, seus olhos inebriados o seguiam até a prancha do rio, onde tomava banho. Ele tinha algo diferente; não sabia o quê. O jeito, a confiança, o sotaque nordestino, o olhar, talvez. Parecia-lhe que era antigo conhecido. Não entendia o desejo que não desejava, por isso passou a evitá-lo.
    No aniversário da patroa, o arigó entregou-lhe uma carta de demissão subscrita por Manoel Tapajós. Ela fez a leitura em silêncio, de frente para o homem que se despedia com palavras sábias e caligrafia que a fizeram recorrer às mensagens guardadas no baú. Colocou todos os bilhetes, o cartão de aniversário e a carta sobre a mesa e perguntou, embaraçada:
    – O que significa tudo isso? Quem é você, afinal?
    – Perdoe-me, Maria! Esses bilhetes foram escritos com o mais puro sentimento, mas preciso ir embora. Não quero mais que sofra por causa deles.
    – Mas é você, arigó, o meu admirador secreto!
    – Sim, mas eu lhe peço perdão pelo desencontro, por amá-la tanto e por não ter tido a coragem de me revelar desde o início.
    Ela guardou os bilhetes, rasgou a carta de demissão e ficou imóvel diante do homem entorpecido. O silêncio trazia de longe a algazarra dos seringueiros e o canto indolente das cigarras. O sol, feito borracha flamejante, boiava do outro lado do rio, colorindo ondas e espantando mutucas e borrachudos. E quando perceberam, já estavam abraçados, entre afagos involuntários.
    Mãos se encontraram sôfregas e vozes murmuraram na boca da noite. O céu chegou trazendo a lua e o chão fugiu dos pés. A alma de Maria confessou ser aquele o abraço que esperava receber na praça, no dia da chuva. Era aquele homem secreto que seu coração pedia e que somente agora se revelara para fazê-la viver de verdade. Lágrimas e corpos se fundiram rebocados pela madrugada e reencontrando-se todos os dias como dois rios fazendo renascer a vida.
    Maria cancelou as viagens de negócio e passou a comercializar seus produtos no próprio porto, onde o novo marido comandava o embarque, junto com os estivadores. A simplicidade e a fineza de Manoel Tapajós fizeram aumentar a freguesia no seringal, assim como suas palavras doces e a admiração pela esposa irradiavam amor pela casa, estradas e igapós.
    Manoel pegava navio apenas uma vez por mês para depositar dinheiro na cidade, de onde tornava com presentes para a mulher e o menino. E foi numa dessas curtas viagens que ele ficou amigo de uma garçonete educada e extrovertida que a bordo lhe servia creme de cupuaçu dizendo-lhe frases bonitas, semelhantes às que ele costumava escrever. A jovem simpática demonstrou-se profunda admiradora de Manoel Tapajós, o que revelou num bilhete secreto e enaltecedor de suas qualidades de homem culto, simples e com irresistível cheiro de borracha. Ele leu o bilhete e riu da inocente moça. Foi dormir envaidecido, porque nunca fora antes cortejado, e sonhou a noite inteira com a esposa em seus braços, ardendo de desejo.
    O dia chegou chuvoso. O camarote onde Manoel Tapajós viajava acordou perfumado, com as horas sonolentas se arrastando no barulho da chuva e do navio. Os olhos da cama pousaram embaçados na formosa silhueta da moça do cupuaçu, que, buliçosa, sentara-se ao leito, com os cabelos soltos, o olhar de Iara e o corpo como veio ao mundo.

   (Conto premiado no “XII Concurso de Contos da Região Norte”, promovido em 2004 pela UFPA).

   

___________________________________

   

   

O GUIA DE CEGO

    O trem chiava veloz, sobre os trilhos da Madeira-Mamoré.
    Gilberto e seu avô Mariano, sentados toscos sobre um saco encerado onde levavam tudo o que lhes restara da tragédia, conversavam tristemente, ignorando os motivos que tornaram o Rio Madeira assim tão bravio e destruidor, mais do que nas enchentes anteriores.
    – Vô, pra onde nós vamos?
    – Num sei, talvez prum lugar menos azarado que este – respondeu o velho, tateando, com as mãos trêmulas, o braço do garoto.
    – E a nossa barraca, vô! Por quê a enchente levou ela?
    – Sei lá...Prá se daná por aí, como Deus qué. Mas liga não, meu filho, come tua pupunha e descansa. Mania essa de perguntá! Teu pai era assim, como padre que confessa. Dorme!
    Gilberto quietou-se, engolindo a fala e as idéias dos seus nove anos de mundo-pobreza. Mariano disfarçava seu tique nervoso balançando um avariado prato de esmalte, para adquirir alguma esmola dos passageiros que viajavam no mesmo vagão de carga da Maria Fumaça. Suas mãos cadenciavam qualquer ritmo, soando moedas, enquanto afinava, a tosses de guariba, a garganta, para improvisar algumas trovas:

   Ó meu povo ribeirinho,
   Conterrâneo, amigo meu,
   Uma esmola pro ceguinho
   Dai-me pelo amor de deus!

   Quem vai para Guajará,
   Quem vai para Porto Velho,
   Se uma esmola me dá,
   Juro que não fica velho.

   Vou pra Guajará-Mirim,
   No sacolejo do trem,
   Cantando afasto de mim
   A saudade de Belém!

    O ambiente tornara-se alegre, apesar das lágrimas que teimavam em brotar no rosto engelhado do cantador. Enquanto isso, já acostumado às cantorias do velho – que sempre rendiam bons lucros –, Gilberto estava a dormir, como sempre. Naquela manhã, embebido pela mistura de vozes roucas do trem e do avô, o menino sonhou que era o Presidente da República. Ele visitava obras do dique que mandara construir na Baixa União para conter as enchentes que deixavam tantas famílias desabrigadas. O Presidente Gilberto estava tão preocupado com aquele bairro pobre, que transferira para lá a sede do governo, construindo um palácio presidencial flutuante sobre as águas do Madeira.
    Em uma de suas visitas aos flagelados, que se abrigavam em barracos de lona e em vagões de trem, Gilberto ouviu o clamor de mulheres e crianças e então ordenou ao seu único ministro, que era o seu avô Mariano, para que tomasse providências e tirasse o povo daquela situação de penúria. Mariano era o ministro geral, capaz de resolver tudo; sabia muito da vida e tinha a visão mais perfeita do mundo.
    Certo dia, então, o Presidente estava irritado:
    – Mariano, você, como ministro, está deixando o nosso povo desabrigado. Não fez nada para impedir as enchentes?
    – Excelência, meus olhos não vêem mais. Estou cego. Não posso nem proteger o meu netinho do “dilúvio” que em breve estará arrasando esta cidade!
    O presidente conhecia, de ouvido, uma boa simpatia para curar cegueira:
    – Então misture óleo de andiroba e de copaíba e passe nos olhos antes do trem apitar três vezes, pois somente assim voltará a enxergar!
    Mariano pôs a mão no ombro do Presidente e pediu:
    – Guie-me, senhor, até onde está o óleo milagroso!
    Gilberto guiava o seu ministro, quando, de repente, começou a ouvir o apito do trem, que se confundia às gargalhadas de um grupo de engraxates que lhe impediam a passagem.
    – Saiam da frente, moleques. Não estão vendo que eu sou o Presidente? E que este homem tá cego? E você, Mariano, por que está trovando como esse prato na mão?
    Ao dizer estas últimas palavras, Gilberto estava acordando e deparou-se com a realidade. Os passageiros caçoaram dele enquanto o menino se encolhia de vergonha.
    – Esse curumim anda tendo uns sonhos esquisitos! – falou o cego Mariano, desculpando-se.
    A viagem chegara ao seu final. A folia também acabava ali, na estação de Guajará-Mirim, mas estava gordo o prato de esmolas. O velho sentia o peso das moedas e sorria. Todos se sentiam seguros, mas com um problema em comum: reconstruir a vida.
    Gilberto sentiu novamente o peso da mão do avô no seu ombro direito e infiltrou-se com o reboco pela multidão, até achar um lugar ideal para se acomodar, reiniciando a luta contra o desprezo, a fome, o sofrimento.
    Estavam numa cidade estranha, fronteira do Brasil com a Bolívia. Gilberto sabia disso porque ouvira da professora em um dos poucos momentos que freqüentou a escola municipal em Capanema, antes de seu pai morrer, deixando-o com o avô. Ainda lhe eram frescas as lembranças da boa vida paraense que levava antes de viajar para Porto Velho com o avô Mariano. O velho, pra sustentar o neto, tentava a sorte nos garimpos de ouro do Rio Machado, quando, num acidente de trabalho perdeu completamente a visão.
    As moedas que a cantoria ganhou no trem mal deram para a primeira refeição. E pelas ruas mais movimentadas seguiam os dois: pára aqui, pára ali, pede cá, pede acolá. Gilberto se imagina uma pequena locomotiva a puxar um enorme vagão. Compenetrado, apita, baixinho, com a boca, sonhando acordado. Nesses momentos é feliz, porque brinca e faz da sua lida um lazer. O velho cuida de outros pensamentos, quem sabe! Olhos fechados, lábios e coração abertos, a sorrir para o seu mundo imaginário.
    Cansado e pensativo, já num confortável calçadão, enquanto Mariano trova para atrair moedas, Gilberto novamente adormece sobre o sapicuá. Mergulhou em uma das poucas coisas que lhe dá alegria: o seu repertório de sonhos. Sonhou que sabia ler e escrever muito bem e que freqüentava uma linda escola, onde seus colegas de classe eram os seus antigos amiguinhos flagelados da cidade de lona da Baixa União. Neste sonho, Gilberto tornou-se um famoso escritor e poeta de cordel, que vivia arrancando aplausos nas feiras, praças e cinemas de Belém – que antes só conhecia de nome. E assim, pôde ganhar muito dinheiro e tirar o seu avô das ruas, levando-o para uma clínica de cegos onde recuperou sua visão.
    – Estou enxergando, Gilberto! Estou vendo você!
    – Sim, vovô, é verdade. Bem que o senhor falou que Deus existe!
    – Puxa, meu netinho, parece até um daqueles teus sonhos malucos. Mas vejo de verdade. Como tu tá grande, menino! Tô orgulhoso de ti – dizia Mariano, com os olhos percorrendo admirado o rapaz que desde pequeno tinha sido a sua luz.
    – É, meu velho, agora você não precisa mais pedir esmolas; eu cresci, sou famoso e posso lhe dar uma vida melhor.
    Em comemoração ao milagre, Gilberto deu uma grande festa para toda a população de Belém, onde reencontrou todos os seus parentes e amigos de infância. Porém, em meio às comemorações, acordou do sonho e se viu cercado de policiais, enfermeiros, médicos e uma multidão de curiosos, em pleno centro de Guajará-Mirim. Pelas frestas da multidão pôde ver quando removiam o corpo do seu avô, caído na rua. As perguntas que lhe faziam também lhe revelavam que o cego havia sido atropelado e morto. Diziam que o velho tentava apanhar um pratinho de esmalte que algum moleque lhe arrebatara da mão. Gilberto arrependeu-se profundamente de ter dormido enquanto o avô trabalhava. Se estivesse em vigia não teria acontecido aquilo, teria enfrentado os trombadinhas, pensava intrigado.
    Ainda refletia sobre a morte trágica do avô, quando foi novamente despertado, desta feita, por uma voz bastante familiar:
    – Acorda, Gilberto, tá na hora do café. Esqueceu que temos viagem marcada?
    Gilberto pulou da rede, esfregando os olhos com o dedo. Olhou para os quatro cantos do barraco de lona e logo percebeu que estava voltando de uma confusa noite de devaneios. Suspirou fundo e, sem espreguiçar-se, olhou novamente assustado para o avô cego que o espreitava sorrindo, na outra rede. Certificou-se da realidade e falou, chorando de alegria:
    – Vô! Então o senhor não morreu. Nem saímos daqui de Porto Velho. Eu ainda tenho nove anos. Que bom ser criança! Que bom está contigo, vô!
    – É, Gilberto – retrucou pacientemente o cego Mariano –, não sei como um garoto tão novo como tu passa o dia inteiro sonhando.
    – Eu sou mesmo um sonhador, vovô. Eu sonho até quando tô sonhando!
    O menino prosseguiu, pensativo, falando em voz alta: – Então a enchente e a viagem de trem foi tudo um sonho e o nosso barraco não foi levado pelas águas...
    – Que história é essa, menino! Pega a lata de água e lava essa cara. Põe as tralhas no saco de viagem, embrulha essas pupunhas pra gente levar, pega rápido o meu prato, senão a gente perde o trem. Droga dessa enchente, que não pára de subir!
   FIM

   (Este conto foi classificado entre os onze vencedores do “XI Concurso de contos da Região Norte”, promovido em 2003 pelo Núcleo de Arte da UFPA, com a participação de escritores dos estados do Pará, Amazonas, Rondônia, Acre, Amapá, Roraima e Tocantins, estando publicado na Antologia “Os onze contistas da Amazônia” e na Revista nº 6 da ASL)

   

___________________________________

   

   

O Fantasma Anastácia

    Não era na Pensilvânia, mas aquela menina nascera com uma triste sina que poucos poderiam imaginar.
    Rejeitada pela mãe, que dera à luz precocemente, quase um aborto, a pobre criatura sobreviveu por milagre e caridade de escravos abnegados e piedosos que lhe curaram as feridas e a alimentaram como podiam, com os segredos do calabouço.
    O tempo, porém, encarregou-se de desenhar o primeiro sorriso naquele rosto triste e inocente. E foi o calendário também que lhe deu alguns dotes e sinais de realeza. Anastácia, como era chamada pelos servos do porão, tornou-se uma escrava simpática e bondosa, irmã de todos aqueles que a acolheram.
    A sua mocidade, ali, na penumbra do cativeiro, conheceu mais que solidariedade e admiração; o seu coração de moça, disputado viril e elegantemente pelos rapazes da senzala, de alguma forma batia feliz, porque ali reinava a amizade, a humildade, a sinceridade, o amor e todos os sentimentos dos quais não se nutria a coroa, que era suntuosa, mas infeliz.
    A felicidade, porém, não percebe sua dimensão na desnutrida pobreza, pois convive, inocentemente, com a ilusão da magia e dos encantos da facilidade e regozijos que aparentam existir na casta dos nobres, pelas indumentárias que encobrem o corpo e a alma impuros da realeza. E foi assim que Anastácia se deixou cooptar pelo brilho de um príncipe malvado que, prometendo-lhe o céu e a liberdade dos seus amigos escravos, seduziu-a para mais tarde transformar sua vida de casada num cárcere de tortura e lágrimas palacianas. No entanto, para esconder a origem plebéia da moça, o príncipe de semblante nobre e de coração de ferro deportou para bem longe todos os escravos, atitude irrevogável que apagou para sempre o sorriso do rosto de Anastácia.
    Ali, entre ouro e diamantes, a escrava rainha tornou-se rainha escrava. E toda noite, quando o rei carrasco dormia, ela vestia seus antigos farrapos, cobria o rosto sofrido e descia em silêncio ao calabouço, a perambular, sob os olhares estranhos e pavorosos dos novos segredados, a procura da felicidade perdida.
    Os escravos não a reconheciam naquelas vestes. E o sofrimento de Anastácia transformou seu peregrinar noturno numa lenda de que havia na senzala um fantasma triste e maldito que assombrava os encarcerados.

   

___________________________________

   

   

A ESTRELINHA PIRACEMA

   Havia, no céu azul pantaneiro, uma estrelinha muito inteligente chamada Piracema. Todos os anos, no Natal, ela guiava os peixes, em procissão, até o céu, onde os multiplicava e depois os devolvia, enchendo todos os rios com novos peixinhos.
   Sabendo dos poderes mágicos de Piracema, uma outra estrela brilhante deslocou-se até ela, para conhecê-la. Era a Estrela-guia, a mais formosa de toda a constelação celeste.
   - Oh! Muito prazer, eu sou a Estrela-guia, aquela que anunciou o nascimento do Menino Jesus...
   - E eu sou a Estrelinha Piracema, a que multiplica os peixes para que nunca falte, aos homens, aos pássaros e à natureza.
   - Ah! Então você devia estar presente quando Jesus multiplicou os peixes para alimentar os apóstolos e a multidão que o seguiam?
   - Sim, estava. E até hoje realizo esse milagre a serviço de Deus...
   - Que bonito, Piracema - admirou-se a Estrela-guia - eu também continuo de prontidão, para anunciar outra vez a vinda do Salvador.
   - E quando se dará esse fenômeno? - indagou Piracema.
   - Muito em breve... Sabe como é que é, né? Você multiplica seus peixinhos uma vez por ano. E eu tenho o meu tempo certo para anunciar a vinda de Jesus. Você vai ver, vai ser o maior barato. Vamos até precisar de uns peixinhos...
   - É... Tomara que ainda existam peixes até lá - choramingou Piracema - e completou: - os homens estão depredando os coitados - no mar, arpoam baleias, matam golfinhos e focas a pauladas; no pantanal, que é um santuário ecológico, eles matam os peixes férteis às vésperas de dar a luz, o que faz lembrar Herodes quando ordenou que matassem os meninos recém-nascidos...
   A Estrela-guia ficou indignada com o relato da atrocidade praticada pelo homem, e prometeu à Estrelinha Piracema apressar a nova anunciação, para revitalizar a consciência da humanidade.
   Aproveitando o encontro, Piracema convidou a Estrela-guia para assistirem à subida de mais um cardume de peixes do Pantanal para a multiplicação milagrosa.
   Ao descortinarem um bloco de nuvens, avistaram uma cena muito triste: Na grande escada do rio que chegava até o céu em forma de cachoeira, os peixes agonizavam enfrentando águas poluídas e envenenadas, bombas, armadilhas de anzóis, tarrafas e gigantescas redes de malhas, sem que pudessem se defender das agressões humanas. Naquele ano não se realizou a reprodução dos peixes, já que dependiam da consciência dos predadores, que também gozam da lei do "Livre Arbítrio."
   Abraçadas, as duas estrelas choraram tanto, que suas lágrimas desceram a cachoeira e inundaram todo o pantanal, alagando matas e cidades.
   Até hoje, em época de natal, avistamos no céu duas estrelas azuis, juntinhas, brilhando os olhos para o pantanal. Elas têm como única arma de defesa dos peixes as suas lágrimas, que se derramam, em forma de chuva, inundando o paraíso ecológico.
   E quando os peixes são agredidos, surgem no espelho dos rios, milhares de estrelas, agitando-se, solidárias, querendo chorar.

   

________________________________________

   

   CÃES SEM DONOS

   Qual coração que não se parte comovido
   Ao ver indefesos animais de estimação
   Desamparados, após o furor destemido
   Das queimadas, das tragédias, do tufão?

   Nova Orleans, cidade ianque arrasada
   Pelo ciclone que matou crianças mil,
   Chora ao ver tantas pessoas dizimadas,
   E os animais que o Katrina destruiu.

   Pelas ruas e pelas casas demolidas,
   Cães sem donos, donos sem cães na solidão
   Sofrem no pêlo e na pele toda a insídia
   Que no meu peito arde mais que um furacão.

   Dos amigos o mais amigo de verdade
   Em que se pode confiar de coração,
   Pelo carinho, inocência e lealdade,
   É o cachorro, companheiro, nosso irmão.

   A natureza, com saber e amor divinos,
   Deu ao cão missão de servo dos humanos,
   Mas o homem, às vezes, é bestial canino,
   Que torna o mundo cão, algoz, cruel, profano.

   Também meu verso é cão perdido pela rua
   Sem carinho, sem comida e sem dono,
   Que o furacão da ignorância desvirtua
   No vendaval da educação e desenganos.

   

   


Autor: ® JOSÉ PEDRO FRAZÃO
E-mail: JPFRAZAO@TERRA.COM.BR

Voltar

Academia de Letras


Copyright Academia Sul-Mato-Grossense de Letras
Todos os direitos reservados

::Webmaster::