Esta edição nº 12 evidencia a evolução da Revista

   Com a presença de grande público, foi lançada – por ocasião do concorrido Chá Acadêmico deste 25/08, na sede da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras – a nova Revista/Livro da ASL (nº 12), que veio com conteúdo ampliado, capa e feições estéticas afinadas com os padrões de modernidade, e trouxe uma seleta coletânea de textos em prosa dos membros da Academia, enfocando o tema: “A ASL e a sua Prosa na Atualidade”. Na ocasião, houve uma palestra e uma apresentação musical com o advogado Aires Gonçalves.

   Estão presentes nesta edição – que homenageia o escritor Frei Gregório de Protásio Alves – os seguintes acadêmicos: Abílio Leite de Barros, Abrão Razuk, Américo Calheiros, Augusto César Proença, Enilda Mougenot Pires, Flora Egídio Thomé, Geraldo Ramon Pereira, Guimarães Rocha, Heliophar de Almeida Serra, Jorge Siúfi, José Couto V. Pontes, José Pedro Frazão, Leal de Queiroz, Lélia Rita, Lucilene Machado, Maria da Glória Sá Rosa, Paulo Nolasco, Reginaldo Alves de Araújo, Rubenio Marcelo, Thereza Hilcar, Valmir Batista Corrêa e Zorrillo de Almeida Sobrinho.

   Todos que participaram do evento/lançamento foram unânimes em destacar a apresentação e perfil geral desta nova Revista/Livro da ASL.

   Com a sua distribuição gratuita [e dirigida], a Revista da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras tem a finalidade de divulgar os trabalhos literários de seus acadêmicos perante, especialmente, as instituições educacionais e culturais do nosso Estado. 

Em mais uma concorrida solenidade, com a presença de acadêmicos e seus familiares, além de autoridades e convidados de diversos segmentos da sociedade, a Academia Sul-Mato-Grossense de Letras comemorou (31/10/07) seus 36 anos de fundação, em evento festivo que ocorreu no auditório da ANOREG – Associação dos Notários e Registradores/MS – (Rua Mar das Caraíbas, 50 – Bairro Chácara Cachoeira).

Na oportunidade, houve o lançamento da nova edição da Revista da Academia (n. 11), bem como a entrega das premiações do Concurso de Contos Ulisses Serra (ed. 2007).
Foram premiados em primeiro, segundo e terceiro lugares os seguintes autores (e obras): 1º Lugar – Reginaldo Costa de Albuquerque (com o conto “Caçador”); 2º Lugar – Samuel Xavier Medeiros (com o conto “Construindo”); 3º Lugar – Chaouki Haddad (com o conto “Bem me quer… Mal me quer…”).

Todos os presentes receberam gratuitamente exemplar da nova Revista da Academia.

Houve uma participação musical com os cantores Antonio Cesar e Edna Maria, e – ao final – foi servido um coquetel para todos.

   Com profundo pesar, comunicamos que faleceu na noite de 08/10 p.p., em Campo Grande (MS), o nosso confrade Hélio Serejo, aos 95 anos de idade. Nascido no Município de Nioaque (MS), no dia 1° de junho de 1912, e um dos maiores nomes da literatura nacional, Hélio Serejo – que ocupava a cadeira nº 30 da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras – havia sido internado há alguns dias num hospital da capital. O corpo foi velado no Parque das Primaveras e o sepultamente ocorreu às 9h.

    Escritor, jornalista, poeta e folclorista, Hélio Serejo deixa mais de 60 obras publicadas, dentre as quais:
Tribos Revoltadas – Novela Íncola – 1935
Carreteiro de Minha Terra – 1936
Modismo do Sul de Mato Grosso – 1937
3 Contos – 1938
4 Contos – 1939
Homens de Aço – A Seita nos Ervais de Mato Grosso – 1946
Ronda Sertaneja – 1949
Rincão dos Xucros – 1950
Prosa Rude – 1952
Canto Caboclo – 1958
O Homem Mau de Nioaque – 1959
Poesia Mato-Grossense – 1960
Buenas Chamigo – 1960
De Galpão em Galpão – 1962
Versos da Madrugada – 1969
Carta de Presidente Venceslau ao Cumpadre Nasermo – 1970
Prosa Xucra – 1971
Pialo Bagual – 1971
Vento Brabo – 1971
Discursos de Posse – 1973
Rodeio da Saudade – 1974
Vida de Erva – 1975
Contas do Meu Rosário – 1975
Zé Fornalha – 1976
Abusões de Mato Grosso e de Outras Terras – 1976
Campeiro da Minha Terra – 1978
Fogo de Angico – 1978
7 Contos e Uma Potoca – 1978
Lendas da Erva-Mate 1 – 1978
Pelas Orilhas da Fronteira – 1981
Lobisomem – 1982
Palanques da Terra Nativa – 1983

    Hélio Serejo pertencia às seguintes Academias, Centros Culturais e Sociedades: – Academia Sul-Mato-Grossense de Letras; – Academia Mato-Grossense de Letras; – Academia Pontaporense de Letras; – Academia Douradente de Letras; – Academia Piracicabana de Letras; – Academia de Letras de Curitiba; – Instituto Histórico e Geográfico do MS; – Centro de Cultura D. Aquino Correa, Cuiabá; – Centro Folclórico Sul-Americano de Bogotá; – Casa Humberto de Campos do Rio de Janeiro; – Centro de Cultura Coelho Neto do Rio de Janeiro; – Centro de Pesquisa Folclórica de Teresina; – Casa dos Poetas de João Pessoa, Paraíba; – Centro de Cultura Literária de São Luiz, Maranhão; – Sociedade do Folclore do Recife; – Cultura Crioula de Paissandu, Uruguai; – Sociedade de Pesquisa Campechana de Porto Alegre; – Sociedade de Pesquisa Folclórica de Lisboa, Portugal; – Casa do Poeta de Guiratinga, Mato Grosso; – Centro de Cultura Folclórica de Assunção, Paraguai; – Sociedade de Cultura D. Pedro II do Rio de Janeiro; – Centro de Letras Euclides da Cunha de Ponta Grossa, Paraná.

    Como jornalista, Hélio Serejo trabalhou e colaborou nos seguintes órgãos: – “Folha do Povo” de Ponta Porã; – Revista “A Fronteira”, Ponta Porã (de sua propriedade); – “A Gazeta”, “O Município” e “O Liberal”, de Presidente Venceslau, SP; – “Correio Paulistano” e “Jornal do Folclore”, da Capital de São Paulo; – Revistas “Vida Doméstica” e “Boa Nova”, do Rio de Janeiro; – Jornal “A Noite” do Rio de Janeiro; – “Diário de Ponta Grossa”, Ponta Grossa, Paraná.

    Ocupou os cargos de: – Chefe do Setor Farmacêutico do 3° RI, Praia Vermelha, Rio de Janeiro; – Investigador de Polícia Especial no Rio de Janeiro; – Oficial do Registro Civil em Rio Brilhante, Mato Grosso do Sul; – Fiscal de Rendas nas cidades de Rio Brilhante, Maracaju e Dourados, MS; – Delegado de Recenseamento da Região de Rio Brilhante; – Escriturário da Comissão de Limites Brasil-Paraguai; – Assessor do Engenheiro Chefe da Comissão de Limites Brasil-Paraguai; – Assessor de Gabinete do Governador no antigo Território Federal de Ponta Porã; – Auxiliar do Diretor de Imprensa do antigo Território Federal de Ponta Porã; – Chefe do Departamento de Terras e Colonização do antigo Território Federal de Ponta Porã; – Assessor do Diretor do Diário Oficial do antigo Território Federal de Ponta Porã; – Diretor de Assistência Social da Prefeitura de Presidente Venceslau (SP).

   

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   Descanse em paz, Hélio Serejo.

   Hélio Serejo, o “trilhador de todos os caminhos”, como bem disse (e escreveu) o confrade H. Campestrini num texto (em homenagem aos 93 anos de Hélio) publicado em 2005, que termina assim:
(…) “Parabéns, Hélio! Obrigado por tudo que você escreveu, para orgulho de nossa terra. Peço-lhe perdão por não ter, o Governo do Estado, erguido sua estátua em diversos locais deste nosso abençoado chão, que Hélio tanto exaltou. Talvez não tenha feito, porque você merece muito, muito mais que o frio bronze e a imobilidade desses monumentos. Porque você é misto “de índio vago, cruza-campo e trota-mundo”.

Recentemente eleitos, os escritores Paulo Tadeu Haendchen e Valmir Batista Corrêa tomaram posse, respectivamente, nas cadeiras nº 16 e nº 17 da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, em solenidade oficial da ASL que aconteceu no Auditório da Câmara Municipal de Campo Grande, na data de 27/09/2007.

   Na ocasião, os novos imortais foram saudados em discursos, respectivamente, pelos acadêmicos Abrão Razuk e Abílio Leite de Barros.

   A Sessão Magna de Posse Acadêmica contou com as presenças dos acadêmicos da ASL e seus familiares, autoridades educacionais, culturais, jurídicas, militares e políticas, e vários outros convidados de diversos segmentos da sociedade, além de órgãos de imprensa.

   Na solenidade, conforme o ritual de posse, os novos acadêmicos Paulo Tadeu e Valmir Batista, após serem saudados, assinaram – perante a Secretaria-Geral da Academia – o Termo de compromissos, prestaram juramento acadêmico, foram diplomados, receberam o Colar Acadêmico e tomaram posse efetiva nas supracitadas cadeiras do Sodalício. Em seguida, fizeram também seus discursos solenes de posse.

   A Cadeira nº 16 da ASL, que tem como patrono Rosário Congro, encontrava-se vaga desde o falecimento do historiador acadêmico Acyr Vaz Guimarães, que ocupou o respectivo assento por muitos anos.

   A Cadeira 17 da ASL é patroneada por Eduardo Olímpio Machado, e achava-se vaga desde o falecimento do acadêmico Walmir Coelho.

   Os novos eleitos, Paulo Tadeu Haendchen e Valmir Batista Corrêa, angariaram a condição para assumir a titularidade vitalícia das mencionadas Cadeiras da ASL através de criterioso processo de seleção que se iniciou com o Edital próprio de abertura de vaga (de 28/04/2007), havendo passado por apreciações da Comissão Permanente de Análise de Candidatos da ASL (que é presidida pelo Secretário-Geral, acadêmico Rubenio Marcelo), e que elaborou parecer conclusivo favorável – ratificado posteriormente por votação em assembléia geral da Casa, tudo de acordo com o Estatuto da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

Ulisses Serra – Fundador da ASL

– Um Sucesso! Estas duas palavras definem plenamente o que foi a solenidade que aconteceu recentemente, quando a Academia Sul-Mato-Grossense de Letras comemorou o centenário de nascimento de Ulisses Serra (fundador do Sodalício) e celebrou os 35 anos de existência da instituição.
O evento, que aconteceu no auditório da Fiems (Campo Grande) marcou a data nos anais da Academia e também na memória de todos que compareceram ao concorrido e bem-organizado acontecimento.
Com a presença maciça de escritores membros da ASL, familiares de Ulisses Serra e demais acadêmicos, autoridades, intelectuais, órgãos da imprensa e convidados de diversos setores da comunidade, a sessão solene teve início com a execução do Hino de Mato Grosso do Sul, cantado por Jane Ribeiro.
Após a abertura realizada pelo presidente Reginaldo Alves de Araújo, o secretário-geral da Academia, acadêmico Rubenio Marcelo, fez um preâmbulo, lendo a primeira Ata oficial do Sodalício, documento de valor histórico inestimável que foi consignado como o Registro nº 1 da Entidade e que foi lavrado, no dia 6 de novembro de 1971, de próprio punho por Ulisses Serra.
A seguir, vieram respectivamente os belíssimos e emocionados discursos dos acadêmicos José Couto Vieira Pontes (um dos fundadores da Academia) e Heliophar de Almeida Serra (irmão de Ulisses).
O evento contou ainda com declamação do acadêmico Geraldo Ramon Pereira, que recitou um soneto de sua autoria em homenagem a Ulisses Serra.
A solenidade foi encerrada com o discurso do presidente da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, acadêmico Reginaldo Alves de Araújo.
A seguir, por ocasião do coquetel, foi distribuída uma nova edição do livro Camalotes e Guavirais de Ulisses Serra (o primeiro lançamento oficial desta obra aconteceu no dia 13 de outubro de 1971). Esta edição comemorativa do centenário do seu autor foi preparada pelo Instituto Histórico e Geográfico de MS.

“Meus Amigos de Outrora ou Crônica de Meus Amigos Queridos”, este é o título do mais novo livro da autoria do ilustre acadêmico Zorrillo de Almeida Sobrinho.

   A obra, de 263 páginas, foi lançada, recentemente, pela Editora Uniderp.

   Na seção inicial, Zorrillo explica – dentre outras considerações – que usou a simbologia de iniciar cada capítulo da obra como se fosse uma “Bola de Cristal” e, em alguns deles, às vezes, ampliou os horizontes das lembranças (pelo que ele denominou de “visualizações” – como quando se usa o zoom de uma filmadora).

   O livro* é a 13ª publicação literária do incansável escritor Zorrillo de Almeida Sobrinho, que é titular da Cadeira 25 da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

   Vale a pena conferir!

   Já está sendo distribuído o número 10 da Revista da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras. Esta edição traz como tema a cidade de Campo Grande, que comemorou, neste agosto p.p., cento e sete anos de emancipação política. A ASL, com esta publicação, além de homenagear a capital de Mato Grosso do Sul, deseja também registrar – em textos literários – o depoimento de seus acadêmicos e de outros escritores selecionados.
Esta edição nº 10 da nossa Revista conta com textos de Paulo Coelho Machado, Abílio Leite de Barros, Maria da Glória Sá Rosa, Raquel Naveira, Hildebrando Campestrini, Reginaldo Alves de Araújo, Ulisses Serra, Zorrillo de Almeida Sobrinho, Guimarães Rocha, Rubenio Marcelo, Rosário Congro, Arlindo de Andrade Gomes, Armando da Silva Carmelo, Tertuliano Amarilha e Nelly Martins.
O escritor homenageado neste número é Paulo Coelho Machado, o “cronista-mor desta vila de Campo Grande”. Foi ele quem quem mais pesquisou e escreveu sobre nossa cidade.

   OBS: Para ter acesso (aqui no site) à Revista nº 10 da Academia, clique no link a seguir:
Revista nº 10 da Academia

A Coluna Café Literário do Jornal do Brasil, JB on line, destacou em primeira página, na semana de 23 a 29 de janeiro/2006, um conto do escritor sul-mato-grossense José Pedro Frazão, intitulado “Admirador Secreto”.
Esta narração literária em estilo amazônico também foi premiada em 2004 no concurso de contos da Região Norte, promovido pela UFPA, mas agora ganha destaque nacional num dos maiores jornais brasileiros.
Apenas o nosso acadêmico e consagrado cronista corumbaense Augusto César Proença havia tido o privilégio de se tornar colunista da semana do JB, com a bela crônica “O Menino do Lixão”. Agora, mais um confrade da nossa Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, J. P. Frazão, classificou seu conto Admirador Secreto em primeiro lugar e ganhou uma semana de destaque na página.

   

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Admirador secreto

J. P. Frazão

O dia chegou chuvoso.
A taberna onde Manoel Cascudo costumava prosear acordou molhada, com as horas se espreguiçando na parede durante toda a manhã.
Pela vidraça úmida os olhos do balcão seguiam, em silêncio, guarda-chuvas que singravam buliçosos o curso da calçada. Os de Manoel corriam pelas mesas solitárias à caça implacável do jornal do dia que um menino encharcado atirara pela janela.
Manoel aparentava estirpe nobre, era bem-falante e apessoado, mas quase um miserável, sem emprego fixo e de mal com a sorte. Morava por aí. Costumava ganhar tablóides lidos dos fregueses que invariavelmente também lhe pagavam
uma xícara de pingado. Mas naquele dia de nuvens negras, nenhuma branca alma havia para lhe aplacar a vontade que estava de esquentar as tripas, conquanto a chuva deixara o dono do Café com cara de poucos amigos.
O jeito foi sair com o jornal na cabeça e a chuva na calça de mescla azul, em direção à praça, para onde o relógio o empurrava célere, na ânsia de cumprir o combinado das nove horas. Ali, num banco de cimento, entre gotas de água e de letras, encarou vento frio e soletrava as quentes do jornal com o olho morno na rua. Incontinenti, uma freada brusca de pneus lhe arrancou de susto o tablóide do rosto ensopado, e do carro de luxo desceram dois saltos altos de andar atraente, que estancaram diante do par de alparcatas, com ar de interrogação e dilúvio:
– Manoel?!
– Maria?!
A pororoca foi inevitável. Os corpos molhados se encontraram bravios. O jornal, indefeso, quedou carregado pelo vento insano, decompondo-se na água morta do chão. Mãos se procuravam, perdidas de desejo, e braços se encontravam em redemoinho. Lábios colidiam ofegantes sob trovoadas de
corações em chama. A rua espreitava tudo. Olhos masculinos se atiravam feito boto nas ondas sedutoras do vestido molhado; os femininos, de través, desdenhavam a fusão ardente. As águas que despencavam forte eram figurantes
celestes daquele inusitado encontro, até que os dois mergulharam exaustos no carro que esqueceu a praça.
No último domingo de verão, um chofer engravatado estacionou na porta da Matriz e o casal deixou a igreja com os convidados em festa. O choro de um menino avisou que a primavera enchia de felicidade o lar de Manoel e Maria.
O destino havia cumprido sua tarefa, de tal forma que o macaréu se fazia permanente naquele rio-mar de paixão.
Maria das Dores, formosa e delicada, tinha fartura nos lábios, a cor do entardecer e olhos e cabelos da noite. Era órfã e herdeira de invejável seringal amazonense. Aquele era o primeiro homem da sua vida e com quem dividia o coração e a lida empresarial que se ampliava pela crescente produção de borracha, sorva e castanha-do-pará.
Manoel Cascudo nunca mais reclamou da sorte. Casara-se com a fortuna e a beleza. Sua vida mudara completamente. Apenas tornava-se áspero no trato com a esposa quando ela, aos dengos, lhe cobrava palavras poéticas e românticas.
Maria sentia falta das doces mensagens de amor que outrora lhe traziam os misteriosos bilhetes perfumados do seu “Admirador Secreto” Manoel.
Certa feita, ele encontrou, às escondidas, os bilhetes apaixonados que ela guardava como relíquia no fundo de um baú de aviamentos. Também comprou no Regatão o perfume que embebia as mensagens. Para ele foi a chave do problema: quando ela soltava os cabelos e ficava com cara de pororoca, ele recorria à fragrância e às palavras dos tais bilhetes, repetindo-as, ainda que um tanto quanto prosaico. Assim, o romantismo voltava a reinar, o amor entrava em redemoinho e Maria se amoldava febril em seus braços como no encontro sob a chuva. Aos domingos, ela dava folga aos seringueiros e se transformava em mãe-d`água, nos igapós, com o seu encantado Manoel declamando os versos achados no baú. Sentia-se outra vez cortejada, delirando a cada palavra e toque aromatizado do marido. Com sorriso manchado
de açaí, a volúpia dos seus lábios ecoava na floresta excitando a mata virgem. Era uma deusa flutuando entre vitórias-régias, vivendo a magnitude do amor com que tanto sonhara na clausura dos pais.
No inverno, com os armazéns transbordando, Manoel fez sua primeira viagem de negócios, levando no navio a imagem do filho e a lembrança da boa esposa.
Nesse período em que administravam o seringal, tinham como único meio de comunicação a correspondência flumínea. Mas ela, porém, afeita à criança e ao trabalho, contentava-se com a recordação da praça, do jornal ao vento, do
encontro das águas, do banho no igapó e dos versos que ainda borbulhavam em seus ouvidos.
A distância trouxe tristeza e saudades. O tempo, para Maria das Dores, tornou-se inimigo do amor, obstáculo da paixão. Suas noites se davam à releitura dos bilhetes. Manoel, porém, a bordo de sua longa viagem, vestido em cambraia, deleitava-se em prosa com uma garçonete que conhecera na
embarcação e que lhe fez prazerosa companhia – como era costume dela, especialmente em se tratando de emergente seringalista.
Bastaram quatro palavras, “Você é uma rosa”, que Manoel decorara num dos bilhetes, para que a jovem se derramasse em pétalas.
– E você é um cravo – respondera a donzela, enquanto lhe servia delicioso creme de cupuaçu.
– É a única rosa que tem todo o aroma da floresta; seiva da seringa que o hálito dos meus beijos defuma – rebuscou.
– Estou encantada com suas palavras e atraída pelo cheiro da borracha, que me excita – revelou a mulher.
Manoel acordava com a cabeça em Maria e o corpo nos braços da Rosa, que migrara para o seu camarote, de mala e cuia, meiguices e perfumes. O coração do seringalista abrigava, agora, dois amores. Cedera aos encantos da mulher
do rio e preservava as lembranças da mulher da chuva.
As viagens tornaram-se freqüentes e longas, como as noites da esposa e os dias do filho. As frases dos bilhetes segredados que aprendera eram armas infalíveis com que abatia suas rosas, margaridas e mariposas. Em cada porto,
plantava em coração solitário sementes de amor etéreo, e, no navio, as marcas do admirador secreto abundavam os segredos das madames viajantes.
Na solidão do seringal, dia do seu aniversário, data em que estava mais ansiosa por uma carta, Maria recebeu um buquê de flores e um bilhete, com estilo bem familiar. Num frenesi de amor e saudades, com as mãos trêmulas e o coração palpitante, devasta o papel que em letras douradas declara: “Dona Maria, perdoe-me. Mas preciso confessar-lhe. Compareci ao nosso encontro, na praça, às sete horas conforme combinado. Eu a esperei até oito horas, debaixo de chuva. Depois, desiludido, voltei para o recolhimento da minha solidão. Vossa Mercê sumiu por um tempo e agora vejo que está casada e certamente feliz. Não posso esconder que continua linda e que eu a amo muito. Quis manter-me secretamente e acabei perdendo o grande amor da minha vida. Estou indo embora para muito longe, tentando esquecê-la, mas deixo-lhe meus votos de felicidades. Com muito amor, carinho e respeito. Feliz aniversário. Assina: O seu eterno admirador secreto, Manoel”. Lágrimas de amargura sulcaram o rosto confuso de Maria durante noites passadas em claro. No navio, o marido contemplava as ondas do Rio Negro confortado nas curvas de Rosa, que se tornou sua acompanhante oficial. A lembrança da esposa era chuva fina esvaecida pelo calor da amante. A viagem de trabalho, diversão e luxúria. A brisa do rio entorpecia o casal, que em risos e beijos numa rede de seda balançava a relva do barranco. Era Rosa quem ouvia, agora, as palavras de amor que Manoel transportava dos bilhetes do baú aos corações flutuantes.
Cartas de Manoel não avistavam terra. Bilhetes e flores eram fantasmas na casa triste. Apenas difamantes notícias corriam por água para afogar o coração de Maria das Dores, que numa acertada decisão saiu em busca do marido errante. Não foi difícil lográ-lo no camarote com a outra – um vexame
que fez naufragar o casamento.
Na vã tentativa de reconciliação, Manoel se ausentou das viagens, mas encontrou fechados coração e casa. Só lhe restou o abandono e a opção de curar-se nos braços de Rosa, que deixara em prantos no navio. E foi para lá
que se largou, investindo seu último dinheiro numa passagem de terceira.
Como um condenado que alimenta a esperança de salvar-se, palmilhou toda a embarcação a procura da amante, seu refúgio final. O desespero foi aumentando a cada resposta negativa sobre o paradeiro da mulher do camarote, até que o dedo da cozinha apontou furtivamente para o porão do navio,
indicando que ela estava no convés. Esperançoso, desceu a escada do tombadilho, que o levou até à grande máquina por um corredor escuro e barulhento que exalava pitiú de tambaquis e pirarucus dependurados. Mais adiante, sobre um fardo de cernambi, entre latas de graxa e sacos de estopa,
seus olhos vidrados encontraram o corpo de sua amada. Ela refletia a luz de um candeeiro na pele alva e sedosa; estava bela e despida; seu dorso banhado de suor e carapanãs. Era pura flor desabrochada; era lontra gemendo, iara contorcendo-se em delírio, peixe-mulher cavalgando aos gritos e risos
ofegantes, balbuciando palavras doces que aprendera com Manoel. E sob ela vociferava feliz o gigante e rude maquinista do navio.
Os espinhos da Rosa traspassaram o coração debilitado de Manoel Cascudo, que saiu feito vendaval escada acima até atingir o toldo do navio. Naquele instante, a embarcação também era traída pela tempestade e pelo banzeiro.
Ele hesitou por alguns minutos agarrado ao mastro, admirando a pororoca e o rebojo deixado por um cardume de botos vermelhos que iniciava a piracema. Os gemidos da água se confundiam com os que vinham do porão. As imagens da
amante, da esposa e do filho eram lâminas que lhe cortavam a pele de seringueiro para extrair o látex da vida. Sem que ninguém notasse, atirou-se atrás dos botos na turbulência das águas negras.
A viúva dedicava-se inteiramente ao filho e ao trabalho. Seu coração magoado nunca mais se enamorou. Mesmo tendo passado um ano da separação e sentindo-se levemente atraída sem maiores arroubos por um arigó que acabara
de contratar, mantinha firme sua opinião de que todos os homens são iguais: admiradores, secretos e traidores. Mas aquele humilde seringueiro, de rosto sofrido, tímido, e de porte físico atraente, a incomodava a ponto de fazê-la sentir-se vulgar. Às vezes, seus olhos inebriados o seguiam até a prancha do rio, onde tomava banho. Ele tinha algo diferente; não sabia o quê. O jeito, a confiança, o sotaque nordestino, o olhar, talvez. Parecia-lhe que era antigo conhecido. Não entendia o desejo que não desejava, por isso passou a evitá-lo.
No aniversário da patroa, o arigó entregou-lhe uma carta de demissão subscrita por Manoel Tapajós. Ela fez a leitura em silêncio, de frente para o homem que se despedia com palavras sábias e caligrafia que a fizeram recorrer às mensagens guardadas no baú. Colocou todos os bilhetes, o cartão de aniversário e a carta sobre a mesa e perguntou, embaraçada:
– O que significa tudo isso? Quem é você, afinal?
– Perdoe-me, Maria! Sou apenas um arigó sofrido. Esses bilhetes foram escritos com o mais puro sentimento, mas preciso ir embora. Não quero que sofra mais por causa deles.
– Então é você o meu admirador secreto?
– Sim, mas eu lhe peço perdão pelo desencontro, por amá-la tanto e por não ter tido a coragem de me revelar desde o início.
Ela guardou os bilhetes, rasgou a carta de demissão e ficou imóvel diante do homem entorpecido. O silêncio trazia de longe a algazarra dos seringueiros e o canto indolente das cigarras. O sol, feito borracha flamejante, boiava do
outro lado do rio, colorindo ondas e espantando mutucas e borrachudos. E quando perceberam, já estavam abraçados, entre afagos involuntários.
Mãos se encontraram sôfregas e vozes murmuraram na boca da noite. O céu chegou trazendo a lua e o chão fugiu dos pés. A alma de Maria confessou ser aquele o abraço que esperava receber na praça, no dia da chuva. Era aquele
homem secreto que seu coração pedia e que somente agora se revelara para fazê-la viver de verdade. Lágrimas e corpos se fundiram rebocados pela madrugada e reencontrando-se todos os dias como dois rios fazendo renascer a vida.
Maria cancelara as viagens de negócio e comercializava seus produtos no próprio porto, onde o novo marido comandava o embarque, junto com os estivadores. A simplicidade e a fineza de Manoel Tapajós fizeram aumentar a freguesia no seringal, assim como suas palavras doces e a admiração pela esposa irradiavam amor pela casa, estradas e igapós, quase sempre com bilhetes apaixonados.
Manoel pegava navio apenas uma vez por mês para depositar dinheiro na cidade, de onde tornava com presentes para a mulher e o menino. E foi numa dessas curtas viagens que ele ficou amigo de uma garçonete educada e extrovertida que a bordo lhe servia creme de cupuaçu dizendo-lhe frases
bonitas, semelhantes às que ele costumava escrever. A jovem simpática demonstrou-se profunda admiradora de Manoel Tapajós, o que revelou num bilhete secreto e enaltecedor de suas qualidades de homem culto, simples e com irresistível cheiro de borracha. Ele leu o bilhete e riu da inocente
moça. Foi dormir envaidecido, porque nunca fora antes cortejado, e sonhou a noite inteira com a esposa em seus braços, ardendo de desejo.
O dia chegou chuvoso. O camarote onde Manoel Tapajós viajava acordou perfumado, com as horas sonolentas se arrastando no barulho da chuva e do navio. Os olhos da cama pousaram embaçados e curiosos na formosa silhueta da
moça do cupuaçu, que, buliçosa, sentara-se ao leito, com os cabelos soltos, o olhar de Iara e o corpo como veio ao mundo.

Glossário:
Arigó (migrante rústico, sem estudo)
Carapanã (mosquito; pernilongo)
Cernambi (resto de látex coagulado da seringueira)
Macaréu (pororoca)
Pitiú (cheiro forte de peixe)
Pororoca (encontro das águas dos rios com o oceano)
Regatão (barco usado como mercearia; mascate)
Taberna (mercearia; bar)

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José Pedro Frazão, 50, é jornalista, professor e escritor, natural de Belém-PA. Estudou em Porto Velho-RO onde trabalhou na ECT e no jornal “O Guaporé”. Em 1982, fundou o jornal “O Porta-voz”, em Anastácio-MS.
É autor de diversos poemas, músicas, crônicas, contos, com destaque para os romances ecológicos “Nas águas do Aquidauana eu andei” (UFMS – 1999, com 3 edições) e “Tuiuiú, my Brother” (UCDB – 2000, com indicação ao Prêmio Jabuti em 2003), que lhe renderam o título de “Escritor Defensor do Ecossistema Pantaneiro” entregue por Zuenir Ventura (Campo Grande – 2003) sob a outorga do Circuito Cultural Banco do Brasil; recebeu o título de “Contista da Amazônia” com dois contos premiados em concurso pela UFPA: “O Guia de Cego” (2003) e “Admirador Secreto” (2004). Ingressou na Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, em 2002, ocupando a cadeira nº 29.

 

A ACADEMIA SUL-MATO-GROSSENSE DE LETRAS (ASL), instituição que tem finalidade exclusivamente literária e cultural, defensora e cultora do vernáculo e das letras (voltada mormente para a essência da Literatura do Mato Grosso do Sul) COMUNICA que:
1 – NÃO pertence nem é vinculada a nenhum tipo de federação ou associação, bem como não reconhece qualquer organização superior do gênero que não seja a Academia Brasileira de Letras (ABL);
2 – NÃO delega poderes a nenhum representante, físico ou jurídico, exceto a seus membros efetivos; e ninguém está autorizado a solicitar, em nome da Academia, qualquer benefício para si ou para a instituição, exceto quando por via documental previamente extraída de reunião da diretoria;
3 – NÃO está desenvolvendo nenhum projeto em parceria com outras entidades. Seus parceiros tradicionais são o Instituto Histórico e Geográfico de MS, as universidades e instituições educacionais e de cultura oficiais. As parcerias, quando firmadas, são previamente noticiadas neste suplemento;
4 – NÃO oficializa convite a qualquer ‘candidato’ para ter assento na instituição; todos os eventuais pretendentes a Cadeira serão inscritos conforme edital a ser publicado neste suplemento, sendo os mesmos posteriormente avaliados através de sua produção autoral (considerando-se valores éticos, morais, sociais, idiomáticos e consistência lingüístico-literária das obras publicadas). Esta criteriosa avaliação é realizada por Comissão interna específica (de acordo com o estatuto deste Sodalício Literário).

Nesta terça-feira, 4 de outubro, às 15h30, aconteceu – em assembléia geral na sede da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras – a eleição da nova Diretoria para o triênio 2005/2008 (tudo conforme o art. 23, parágrafo único, inciso I, do Estatuto da ASL). Após os trâmites legais, a chapa “Democracia e Trabalho” foi aclamada eleita regularmente, conforme manda o regimento do Sodalício Literário.
O acadêmico Zorrillo de Almeida Sobrinho, que foi nomeado coordenador eleitoral, acompanhou todo o cronograma estabelecido no Edital próprio e observou os procedimentos relativos à presente eleição. Zorrillo fez um relatório do presente processo eleitoral da ASL, e – ao final – juntamente com os demais confrades saudou a jovem diretoria regularmente eleita, desejando sucesso e êxito na jornada.
Os membros desta Diretoria possuem uma característica comum (todos são escritores com várias obras lançadas).
A chapa que comandará os destinos da maior entidade literária do MS, pelos próximos três anos, é formada pelos seguintes integrantes/acadêmicos:

Presidente – Reginaldo Alves de Araújo;
Vice-Presidente – José Pedro Frazão;
Secretário-Geral – Rubenio Marcelo;
Secretário – Geraldo Ramon Pereira;
Tesoureiro – Antônio Alves Guimarães (Guimarães Rocha);
Segundo-Tesoureiro – Augusto César Proença.

   

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